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15 de out de 2014

A Trindade e a pessoa do Espírito Santo

Por Franklin Ferreira

“Mas não atenuaremos a verdade, nem por temor trairemos nossa aliança. (…) O Senhor nos transmitiu como doutrina obrigatória e salvífica que o Espírito Santo está na mesma ordem que o Pai… Cientes da salvação operada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo, abandonaríamos o modelo de salvação que recebemos? (…) Por meio do Filho que é um, ele [o Espírito Santo que é um] se religa ao Pai, que também é um, e por si completa a Trindade bem-aventurada, digna de todo louvor”. (Basílio de Cesaréia)

Hoje, muitas igrejas caem em dois extremos. Alguns evangélicos priorizam uma relação cognitiva com Deus, sob o risco de transformar Deus num conceito abstrato ou ideia. Já alguns pentecostais enfatizam a experiência carismática proporcionada pelo Espírito Santo, sob o risco de tornar Deus uma fonte de energia e poder.

Há uma saída para este dilema?

1. A divindade do Espírito Santo
Não devemos fugir da doutrina da Trindade, e ela nos diz que o Espírito também é Deus. A ele são atribuídos: nomes divinos (“santo”, “de Deus”), atributos divinos, obras divinas (“as obras externas da Trindade são indivisíveis”) e louvor (“que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado” (Credo “Niceno”). A divindade do Espírito é demonstrada em sua plena igualdade com o Pai e com o Filho. Veja as seguintes formulas trinitarianas: fórmula batismal (Mt 28.19), dons espirituais (1Co 12.4-6), bênção apostólica (2Co 13.13), obras na salvação (1Pe 1.2) e “fé santíssima” (Jd 20-21). Repare na ordem diferente em que as pessoas aparecem: nem sempre o Pai vem primeiro, depois, o Filho e por último, o Espírito. Isso porque não há nenhuma nível de inferioridade entre as pessoas divinas. O Pai não é mais Deus do que o Espírito. Deve-se rejeitar a prática de numerar as pessoas da Trindade, pois ainda que cada uma delas seja designada como uma, elas não se somam entre si.

Se por um lado afirmamos a plena igualdade, glória e louvor na eternidade, na história da salvação, vemos que existe uma subordinação da tarefa .Há que se fazer uma distinção entre a Trindade imanente e a Trindade econômica

2. O Espírito Santo é um ser pessoal
O Espírito é um ser pessoal, chamado de “presença auxiliadora” (paráklētos). Ele tem atributos pessoais: inteligência, vontade e sentimentos, assim como fala, testifica, ordena, revela, luta, cria, intercede, vivifica os mortos e tem ciúme. Por isso, devemos ressaltar que o Espírito é distinto do seu poder.

Por ser uma pessoa, o Espírito relaciona-se com o Pai e o Filho, assim como com outras pessoas, como os cristãos, os apóstolos e os discípulos. O Espírito Santo é um ser pessoal, da mesma essência que o Pai e o Filho, o único Deus.

3. O Espírito Santo na vida de Jesus
O Espírito de Deus habitou em Jesus, atuando em seu nascimento, vida, morte e ressurreição (At 10.36-43). Foi “mediante o Espírito de santidade” que Jesus foi “declarado Filho de Deus com poder” (Rm 1.4, NVI). A primeira obra que Jesus realizou, depois de sua exaltação à direita do Pai, foi o envio do Espírito Santo (At 1.8-9; 2.1-4).

4. O Espírito procede do Pai e do Filho
O Espírito é o Espírito de Cristo, no mesmo sentido que ele é o Espírito de Deus, que ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos. O Espírito Santo não é eternamente gerado como o Filho, mas procede do Pai e do Filho (Jo 15.26), e esse é um dos elementos que o distingue das outras pessoas da Trindade. Em virtude de o Espírito proceder do Pai e do Filho, ele é descrito como um ser pessoal que mantém com o Pai e com o Filho a mais estreita relação possível:

“O Pai é apenas o Pai do Filho, e o Filho apenas o Filho do Pai; o Espírito, entretanto, é o Espírito tanto do Pai como do Filho, unindo-os em um vínculo de amor”. (Agostinho de Hipona)

E dessa unidade, o Espírito Santo é enviado para prosseguir, aplicar e consumar a obra de Cristo na terra. Assim como a encarnação estava firmada na unidade do Pai com o Filho, a obra do Espírito baseia-se em sua unidade com o Pai e com o Filho. Cada pessoa da Trindade busca a glória da outra, exaltando-a.

5. O Espírito na criação e salvação
O Espírito Santo age na criação como o doador da vida e como aquele que qualifica os homens para suas tarefas. Ele inspirou a Escritura, chama os pecadores, aplica os benefícios da salvação aos que creem, justificando, regenerando e santificando, e edifica a igreja por meio dos meios da graça.

Conclusão
Se valorizarmos o Espírito, então teremos:

Uma vida centrada em Deus: necessitamos praticar o autoexame, para distinguir entre o que procede do Espírito Santo e do nosso próprio espírito, interpretando nossas histórias pessoais à luz da Escritura Sagrada e da vida de Jesus Cristo.

Uma vida no mundo e para o mundo: Precisamos interagir com a criação com alegria e responsabilidade, com sensibilidade para com os necessitados, tendo a Escritura, “a espada do Espírito” (Ef 6.17), como guia para a prática profissional, as decisões políticas e as relações familiares e sociais, rogando a outros que se reconciliem com Deus em Cristo.

Uma vida diária sob sua ação: Cremos que o Espírito Santo atua de maneira inexplicável e miraculosa. Mas também devemos lembrar que o Espírito de Deus, que cria, liberta, reconcilia e renova, atua no que é comum e habitual, e através de quem quer se seja.

Uma vida de resistência e esperança: Sabemos que, nos “sofrimentos do tempo presente”, o Espírito nem sempre nos livra, mas nos “ajuda na fraqueza”, dando-nos conforto, coragem e força – levando-nos a ansiar pela vinda de Cristo em poder, quando “a própria criação será redimida”, quando da “redenção do nosso corpo” (Rm 8.18,21,23,26).

Uma vida comunitária: Jesus enviou seu Espírito para a comunidade de seus seguidores – pessoas comuns, diferentes e pecadoras. Temos a promessa dos dons do Espírito, que nos capacita a vivermos juntos, cuidando uns dos outros. Reconhecemos a presença do Espírito no e através do culto e dos meios da graça – nem sempre espetaculares, e que, algumas vezes, parecem ser rotineiros e muito simples.

Uma vida de confissão de fé: “A fé católica consiste em venerar um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, sem confundir as pessoas e sem dividir a substância. Pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade (…) E nesta Trindade nada é anterior ou posterior, nada maior ou menor; porém todas as três pessoas são coeternas e iguais entre si; de modo que, em tudo, conforme já ficou dito acima, deve ser venerada a Trindade na unidade e a unidade na Trindade. Portanto, quem quer salvar-se, deve pensar assim a respeito da Trindade” (Credo de Atanásio, 3-6, 24-26).

 Toda vida cristã é vida no Espírito.
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