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6 de out de 2014

Política, Profetada e Vergonha Alheia

Por Thiago Oliveira

Envie teu povo para toda parte desta sociedade e nós ousadamente declaramos que iremos sim para aquela área mais temida das trevas para que a nossa invasão venha mudar a história. Nós estamos indo Satanás para a política brasileira e as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja do Senhor. Sai, vai pra fora Igreja, vai para os lugares mais escuros enviar a tua luz, é chegada a tua hora, é chegada a hora da igreja”.

Estas são palavras ditas pela Ana Paula Valadão, divulgadas num vídeo. A líder do grupo Diante do Trono, ministério que alavancou a Igreja Batista da Lagoinha, dando a ela um imenso reconhecimento em todo o país, como se estivesse numa espécie de transe, “ousadamente declara” a vitória da candidata pessebista (no contexto do congresso, a Valnice Milhomes fala de uma visão que teve sobre um presidente "cheio do Espírito"). Obviamente, como todos nós já sabemos, Marina não foi sequer para o segundo turno.

A catástrofe da fala de Ana Paula Valadão começa quando ela pretensiosamente declara algo que não veio de Deus. É preciso ter muito cuidado com isso. Hoje, nos arraiais evangélicos, vemos diversas pessoas se levantando para dar uma palavra que, segundo elas, veio de Deus, quando na verdade não passa de um desejo pessoal externalizado. Isto é algo tão grave, que Deus condenou com a morte aqueles que profetizaram mentiras. Como está escrito:

“Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá.” Deuteronômio 18:20.

Vemos um exemplo clássico disso no relato que se encontra no livro de Jeremias, capítulo 28. Lá, o falso profeta Hananias, no reinado de Zedequias (Rei de Judá) afirmou coisas que Deus em nenhum momento mandou que ele dissesse. Ele disse, de maneira ousada, que dentro de dois anos os utensílios do Templo, saqueados por Nabucodonozor e pelos babilônicos, iriam voltar. Também profetizou a volta dos exilados. Todavia, os planos do Senhor eram extremamente opostos. Deus, por meio do profeta Jeremias revelou que a Sua vontade e Seus decretos eram antagônicos a fala de Hananias. E o desfecho dessa história pode ser lido aqui:

“Disse, pois, o profeta Jeremias ao profeta Hananias: "Escute, Hananias! O Senhor não o enviou, mas assim mesmo você persuadiu esta nação a confiar em mentiras. Por isso, assim diz o Senhor: 'Vou tirá-lo da face da terra. Este ano você morrerá, porque pregou rebelião contra o Senhor' ". E o profeta Hananias morreu no sétimo mês daquele mesmo ano.” Jeremias 28:15-17.

Lógico que eu não desejo a morte da Ana Paula (longe de mim!). Tampouco estou dizendo que é isto que vai acontecer. Apenas alerto contra essa prática antibíblica de profetizar e/ou declarar algo que não coaduna com os decretos do Altíssimo. Deus é soberano no controle do Universo. Podemos espernear e decretar à vontade, mas, só aquilo que for do agrado d’Ele se cumprirá na face da terra. Tenhamos mais discernimento espiritual e tomemos o conselho do apóstolo João para provarmos os Espíritos (I João 4.1-3).

Ademais, quem foi que disse que a política será a salvadora da pátria? Quem disse que um político, só pelo fato de ser evangélico, irá abalar as portas do inferno? Há uma crítica que o Solano Portela faz, que mesmo sendo voltada para o teonomismo, se aplica perfeitamente a este conceito messiânico da política:

“(...) mas não posso embarcar na visão anacrônica e não bíblica da aplicabilidade da lei judicial ou civil de Israel aos dias de hoje (quiçá da cerimonial), nem na visão de uma sociedade controlada e transformada pela lei, em vez de "salgada" e "iluminada" pelo evangelho (e, assim, na providência divina, preservada até o tempo do julgamento de Deus)."[1]

O Diante do Trono, assim como a Igreja da Lagoinha, são adeptos do dominalismo, que a grosso modo, é uma crença do novo (e herético) movimento apostólico que deseja “expandir o Evangelho” em todas as áreas, incluindo a política, ansiando por governos exercidos pelos apóstolos modernos. Eu, particularmente, prefiro o conceito democrático que herdamos de uma significativa parcela do protestantismo. Quanto a isso, Grudem assevera:

"O poder do governo jamais deve ser usado para impor determinada crença religiosa ou adesão a uma religião específica, seja a fé cristã, seja qualquer outra fé."[2]

Lutero também advoga para uma separação do que é espiritual e compete ao governo da Igreja, representante de Cristo aqui na terra e as questões políticas, pertencentes ao poder temporal:

“O governo secular tem leis que abrangem apenas corpo e bens e outras coisas externas na terra. Deus não pode e nem quer deixar alguém governar sobra a alma senão Ele próprio. Logo, onde a autoridade secular tem a coragem de impor uma lei à alma, ali ela interfere num regime divino e apenas encanta e corrompe as almas”.[3]

Sinto-me envergonhado quando algumas pessoas vinculam a minha crença com tais desvaneios, de gente que diante das câmeras (não foi um trocadilho) profere uma mentira descabida e coloca nela uma roupagem espiritualizada. Além da Ana Paula Valadão, o pastor André Salles também falou para a revista Época que recebeu mais de uma revelação divina sobre a vitória de Marina Silva nas eleições deste ano. Segundo ele, era propósito de Deus torná-la Presidente da República . 

Uma outra coisa que me deixa perplexo é a falta de discernimento da ala evangélica de querer fazer da inserção cristã na política um fim em si mesmo. Sem falar, que essa postura gera um pressuposto perigoso para a vida da Igreja. Grudem, com bem mais propriedade, discorre sobre este assunto, e é com a sua fala que encerro a minha:

“(...) procurar obrigar as pessoas a tornarem-se cristãs também tem a tendência de expulsar o verdadeiro cristianismo, pois remove da vida das pessoas a oportunidade de escolher voluntariamente seguir a fé cristã. Alguns terão fé autêntica, mas a maioria não. Como resultado, sociedades inteiras tornam-se ‘cristãs’, mas apenas de nome. (...) É uma influência que procura destruir o cristianismo”.[4]


[1] http://tempora-mores.blogspot.com.br/2008/03/os-teonomistas-mordem-ou.html
[2] Wayne Grudem, Política Segundo a Bíblia, pág 31.
[3] Esta fala está num livreto escrito por Lutero, publicado pela editora Sinodal com o título “Fé, Política e Resistência.” e faz parte da coleção “Lutero para Hoje”.
[4] Wayne Grudem, Política Segundo a Bíblia, pág 31.