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13 de out de 2014

O Reino da Interioridade

Por Norma Braga
Uma vez, assisti com uma amiga querida à pregação em vídeo de um pastor famoso. Não lembro mais o tema, só lembro que ele falava bastante em “obra de Deus”, “serviço na igreja”, “excelência” e termos semelhantes. Depois de alguns minutos, não pude evitar o comentário: “Ele parece se referir a Deus como um empresário e a nós como os funcionários da empresa”. Minha amiga ficou um tanto desconcertada, mas vi que havia compreendido de algum modo minha observação.
Quando pensamos na hierarquia que a comparação sugere, não deixa de haver um ponto em comum entre a liderança empresarial e a liderança divina. Afinal, a Bíblia também nos designa como “servos” e Jesus Cristo é nosso Senhor: a ele devemos obediência. Mas há outras dimensões na Bíblia que não podem ser esquecidas, e todas elas sugerem uma grande intimidade: somos filhos de Deus (Mt 5.9; Gl 3.26); somos amigos de Cristo (Jo 15.14); somos, como igreja, a esposa de Cristo. Isso aponta para a dualidade de nossa relação com Deus: submissos, sim, como criaturas, mas também próximos e amados por Deus como filhos, amigos e esposa. Na verdade, quanto mais submissos, mais próximos de Deus estaremos (“Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando”, Jo 15.14).
Esse aspecto bíblico que entrelaça a obediência à intimidade mais profunda invalida por completo qualquer referência ao ambiente empresarial como uma comparação adequada para a igreja. Estar à frente de uma empresa é preocupar-se com produtividade, salário, carreira, status e resultados concretos, numericamente detectáveis. Essa mentalidade, transposta para a igreja, gera o fenômeno das “megaigrejas” com seus “megapastores”, que via de regra concentram todo o controle em si mesmos, mantêm uma relação impessoal ou cordialmente distante com os pastores assistentes (quando não com as próprias ovelhas) e norteiam a pregação mais pela necessidade de proporcionar um difuso bem-estar a seus ouvintes que pela Palavra. É óbvio que esse tipo de igreja sempre terá seus templos cheios demais, um inchaço que torna o pastoreio uma tarefa impossível. É triste que esse modelo seja tão imitado em algumas igrejas evangélicas hoje, igrejas que confundem audiências lotadas e música animada com um culto agradável a Deus.
No modelo bíblico, que é humano e pessoal, há um termo que resume perfeitamente nossas identidades como servos, filhos e amigos, enunciado pelo próprio Cristo em João 4.20: adoradores. São esses que Deus busca para cultuá-lo. Reconhecimento do verdadeiro ser de Deus, só possível pelo Espírito, a adoração é o alvo de toda a Escritura. Fiel a essa centralidade, o Catecismo maior de Westminster1  declara que o fim supremo e principal do homem é “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. É importante lembrar o tempo todo a prioridade que devemos atribuir à glória de Deus, pois nossos inimigos — o mundo, a carne e o diabo — procuram nos desarraigar de Cristo, e é pelos pontos principais da fé que conseguirão fazê-lo mais profundamente.
Na Conferência Fiel intitulada Evangelização & Missões, a que assisti por internet em outubro de 2011, o pastor Mauro Meister trouxe no dia 4 uma palavra essencial para quem se interessa pelo tema, identificando um erro corrente entre nós: as missões não são a razão principal da igreja; a glória de Deus vem em primeiro posto. Por que temos a tendência a considerar as missões (campanhas de evangelização, pregações em estádios, implantação de igrejas em terras distantes, o próprio pastorado etc.) como A missão? Respondo que um dos aspectos que subjazem a esse ponto de vista invertido consiste no desprezo, deliberado ou não, ao reino da interioridade — um dos pecados da cultura. E que, ironicamente, não é privilégio do pastor-empresário.
Senão, vejamos. Quando se fala em “missão da igreja”, muitos formam a imagem mental de algo público e notório, relacionado ao agir para fora, à comunicação do Evangelho aos povos. De fato, esse é o conteúdo do ide de Jesus: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Mas o ide não se contrapõe a todo autoexame contínuo, diante de Deus, que o Evangelho também pede. O ide é reflexo externo do que já ocorreu no interior, não a evitação de uma vida mais interiorizada. O ide, em suma, não significa “ide correndo como loucos e não presteis atenção a mais nada”. Mas é interpretado inadvertidamente por muitos dessa maneira, por causa dos tempos frenéticos em que vivemos. Mergulhados no ativismo que caracteriza nossa época, não damos o devido valor ao aprendizado pontual, à contemplação, à oração a portas fechadas, à reflexão ponderada, à leitura, ao cultivo dos relacionamentos, ao diálogo. Isso não é novidade do capitalismo, como muitos pensam: Jesus já chamava a atenção de Marta para a “melhor parte” escolhida por Maria, que é aprender aos pés do Senhor. E aprender aos pés do Senhor deveria ser algo cotidiano, priorizado pelo estudo da Palavra, claro, mas também vivido no dia a dia, em conversas abençoadoras, em momentos de oração e comunhão. Porém, mentes agitadas demais, sempre preocupadas com o cumprimento de uma agenda cheia, ainda que com o objetivo de abençoar pessoas, dificilmente obterão a tranquilidade necessária para ouvir a Deus e crescer na fé, exercendo o processo contínuo e vital, sempre evocado aqui, de reconhecimento de pecados, arrependimento, clamor pelo perdão divino e santificação. É preciso restabelecer a prioridade aí: a ausência de reflexão, autoexame e meditação atenta na Palavra — ou seja, tirar das vistas o próprio coração, como se somente o coração dos outros devesse ser alcançado — é algo que não glorifica a Deus.
Tudo se complica quando o evangelista, missionário ou pastor é casado. Se não for estabelecida a glória de Deus como prioridade (porque no coração glorificamos a Deus em primeiro lugar, pois dali é que procede todo o mais: Mc 7.21; Mt 12.34), só nos sentiremos “cumpridores da vontade divina” quando envolvidos em atividades sem fim; como resultado, não conseguiremos a quietude necessária para ouvir os pecados, os anseios e as necessidades dos que estão mais perto: a esposa, o filho, o neto, e até a ovelha que precisa de uma atenção individual. Se o foco é atingir o mundo lá longe, é falar às multidões e converter auditórios sem rosto, os de perto (que dependem de nós mais diretamente!) são os que mais sofrerão. O efeito disso tudo é o desastre familiar: adultério, divórcio, filhos revoltados e fora da igreja, solidão dentro de casa, ressentimento, falta de comunicação, discórdia. No entanto, como pode o pregador falar da boa-nova do Evangelho aos outros se, enraizado nessa mesma boa-nova, não toma conta de suas primeiras responsabilidades?
Ainda há dúvidas de que a prioridade não é Deus, “missões” (entendidas exclusivamente como evangelismo para as massas e pregação para povos distantes) e família, nessa ordem, mas sim Deus, família e todo tipo de serviço na igreja? Ora, é a própria Palavra que informa: a liderança eficaz do homem no lar é um requisito para o serviço na igreja. Se é requisito, é porque deve vir em primeiro lugar. E o que seria uma liderança eficaz na família? Em 1Timóteo 3.2-13, Paulo lista esses requisitos, que são ao mesmo tempo muito amplos e muito específicos. Primeiro, o candidato à liderança deve ser irrepreensível, ou seja, deve ter uma boa reputação de forma geral. Isso não está relacionado à hipocrisia, como se o que dizem sobre nós fosse tudo o que somos, mas sim a esses pecados que acabam se tornando públicos (e que caracterizam alguém, por exemplo, como um trabalhador leviano ou desonesto, um mau pagador, um homem que não cumpre a palavra, que não cuida dos pais na velhice, etc.). Esses pecados muito revelam sobre cada um e sobre em que estágio se encontra na caminhada com Deus. As qualidades que se seguem são: ele deve ser equilibrado, modesto, hospitaleiro, com aptidão para o ensino, não dado a bebedeiras, não violento, cordato, avesso a brigas, generoso e já com certo tempo de convertido, para não se orgulhar de seu posto. Pelas qualidades, podemos depreender tudo o que o líder não pode ser: descontrolado, soberbo, antissocial, sem talento para ensinar, viciado em bebidas ou algo pior, agressivo (violência verbal e não verbal), maleducado, brigão, avarento e novo convertido. E eu pulei de propósito a descrição mais longa de um dos requisitos: “Deve governar bem a própria casa, mantendo os filhos em sujeição, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?)”. Eis a prioridade claramente estabelecida: cuide primeiro da sua família. Se esse cuidado for eficaz, você poderá responsabilizar-se pela igreja.
Quão distantes estamos disso! Se pudéssemos publicar aqui testemunhos de coração aberto de esposas e filhos de pastores, será que haveria muitos relatos felizes? Geralmente, a família é preterida pelo pastor ou líder, seja movido por sentimentos legítimos, como a preocupação com as atividades da igreja, seja por ilegítimos, como é o caso de alguns que são carreiristas ou tosquiadores e só se interessam por poder e dinheiro. Ora, ambos estão pecando do mesmo jeito quando invertem as posições e colocam o cargo pastoral, com suas ocupações às vezes assoberbantes, acima do pastoreio de sua própria casa.
O trecho também fala diretamente de disciplina filial. Para que um pai discipline o filho, é necessário que o conheça bem, que passe tempo com ele, que esteja atento a seus pecados, que ande com ele em firmeza e amor. 2 Disciplinar não é pôr de castigo de vez em quando e de modo aleatório (se for assim, talvez seja melhor nem fazer nada), mas agir de forma consistente (punindo sempre o mesmo pecado e deixando claro o motivo) de modo a preparar o coração do filho para uma vida de santidade, ajudando-o a enxergar suas tendências pecaminosas e facilitando seu processo futuro de arrependimento e mudança. A criança indisciplinada é a criança que foi praticamente abandonada pelos pais (ou por um dos pais) que, em desobediência à Palavra de Deus (o livro de Provérbios também fala muito sobre a disciplina), terão falhado em uma de suas mais importantes tarefas. Criado sem autoconhecimento suficiente e sem parâmetros claros de certo e errado, o filho terá de tropeçar muito até que perceba por si só, em meio a muitas dores, os pecados de que precisa se arrepender. No meio do processo, porém, talvez se perca de modo definitivo, e nenhum pai deveria expor seu filho a isso.
“Missão” é primordialmente oferecer-se a Deus, todos os dias, para ser santificado. Também é guiar espiritualmente a família e os mais próximos, em um trabalho lento, cotidiano e interior. Quando as “missões” são consideradas apenas em uma dimensão exterior, em que não se contempla a interior, somos como pobres legalistas pragmáticos, orientados somente para o fazer, imprestáveis para adorar a Deus e pôr em prática o amor ao próximo, algo só possível com paciência e olhos atentos. Porém, quando privilegiamos o alvo correto, não somos tão ativistas, mas vivemos a missão primordialmente onde deve ser vivida: dentro de nós, em nossos corações, onde está o trono de Deus; e, dali, espraiando-se para fora. É nesse reino da interioridade, habitação do Espírito Santo, que serão esmagados, pela graça de Deus, todos os pecados graves que nos impedem de ter a disposição para amar. É ali que tudo começa; se não começar ali, não terá começado de modo algum (e precisa recomeçar a cada dia!). De fato, amar é o principal de todos os mandamentos, de acordo com Jesus: em primeiro lugar, amar a Deus com todo o coração, toda a alma, todo o entendimento e toda a força; em segundo, amar o próximo como a si mesmo (Mc 12.30-31). Não é amar a “obra de Deus”, entenda! É amar como em círculos concêntricos que se propagam: primeiro, Deus, o único a ser adorado; segundo, o seu lar, esposa e filhos; terceiro, os mais próximos, e dali em diante. Os desconhecidos necessariamente virão depois. Mas, se conseguimos nos convencer de que amamos primeiro o “povo de Deus”, as “tribos inalcançadas”, os “pobres”, os “oprimidos” ou qualquer outra abstração conveniente, por quem jamais poderemos ter uma responsabilidade direta e individualizada, não estamos demonstrando, prestes a deixar de lado os mais queridos e os dependentes reais, que temos um ídolo no coração? Um ídolo que, mascarado de amor, levará à destruição de nosso lar e da nossa alma.
A consciência de que a fé cristã pertence, em primeiro lugar, ao reino da interioridade é algo que se aplica de modo especial à vocação do pastoreio. Afinal, pastorear é, sobretudo, cuidar de gente. O pastor não deveria ser o que se inebria com o aplauso das multidões, mas o que se alegra em ver, em cada coração, que a Palavra de Deus fez a diferença fundamental.
Adaptado e ampliado de Norma Braga Venâncio, A mente de Cristo; conversão e cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 206-212.
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Notas:
1 Catecismo maior de Westminster. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. Há versões disponíveis para consulta na internet.
2 Sobre a disciplina filial que visa não ao comportamento exterior, mas ao coração, sugiro o excelente livro de Tedd Tripp, Pastoreando o coração da criança. São José dos Campos: Fiel, 2000.