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24 de out de 2014

Somente as Escrituras

Por Morgana Mendonça dos Santos

Quinque Solae é como tornou-se conhecido os cinco pilares da Reforma Protestante, ou seja, os cinco pontos fundamentais do pensamento da Reforma Protestante. São esses: Sola Fide, Sola Scriptura, Sola Gratia, Solo Christus e Soli Deo Glória. Nossa ênfase nesse texto é Sola Scriptura, somente as Escrituras. O grito latino para combater a situação desviada que vivia a igreja no século XVI. Poderia me ater a toda questão histórica, política, filosófica, social e religiosa do tempo, mas preferir nesse pequeno ensaio enfatizar a natureza das Escrituras Sagaradas. Paulo na sua carta ao jovem Timóteo declara um dos pontos centrais da doutrina que tem como reflexo a Reforma Protestante.

"Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra." 2 Timóteo 3.16-17

Paulo afirma a divindade, inspiração, suficiência das Escrituras. A Reforma Protestante não foi um movimento criado pelo homem, o próprio Deus em Sua soberania e providência em um momento tão crítico por onde a igreja caminhava levantou o monge agostiniano Martinho Lutero, para no dia 31 de outubro de 1517 fixar nas portas do Castelo de Wittenberg suas 95 teses, contra aquilo que a Igreja Católica Romana estava pregando. O papa Leão X querendo reconstruir a basílica de São Pedro, cria as indulgências como um meio para arrecadar fundos financeiros de forma ilegítima e antibíblica para a construção. Lutero ao deparar com esse desvio, conclama o Somente as Escrituras, desejando não dividir a igreja nem desvia-la da verdade, pelo contrário levar a igreja de volta ao antigo evangelho, ao verdadeiro evangelho, as Escrituras Sagradas, a doutrina dos apóstolos.

Portanto no que se refere a natureza das Escrituras, de forma bem objetiva temos cinco pontos:

1. As Escrituras são INSPIRADAS:  A palavra grega para “inspirado” significa literalmente “respirado por Deus para fora”.

2 Pedro 1.20-21 "sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade dos homens, mas os homens da parte de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo."

Na Confissão de Fé de Westminster [1] lemos sobre o conceito de inspiração das Escrituras: "O Antigo Testamento em hebraico (língua original do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus, e pelo seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são, por isso, autênticos, e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal; mas, não sendo essas línguas conhecidas por todo o povo de Deus, que tem direito e interesse nas Escrituras, e que deve, no temor de Deus, lê-las e estudá-las, esses livros têm de ser traduzidos nas línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a Palavra de Deus, permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam a esperança pela paciência e conforto das Escrituras."

2. As Escrituras são INERRANTES:  “Inerrante” significa simplesmente “sem erros” ou “verdadeiro”.

Mateus 5.17-18 "Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só jota ou um só til, até que tudo seja cumprido."

Salmos 119.140 "A tua palavra é fiel a toda prova, por isso o teu servo a ama."

"Inerrância" trata-se de um conceito estreitamente relacionado, mas é um termo mais recente e menos largamente, aceito. Traz a conotação de que a Bíblia não contém nenhum erro de ação (erros materiais), nem contradições internas (erros formais). No entanto devemos compreender que tratamos aqui com referência aos originais e não as cópias. Na baixa crítica, isto é, na manuscritologia bíblica entendemos a questão sobre erros voluntários ou involutarios dos copistas, ou seja, na cópia dos manuscritos por diversos fatores. Os conceitos de inerrância e infalibilidade sur­giram em discussões teológicas concernentes à inspiração das Escrituras. 

Provavelmente, os dois acontecimentos mais significativos no tocante à doutrina da infalibilidade e da inerrância foram a declaração sobre as Escrituras na Aliança de Lausanne (1974) e a Declaração de Chicago (1978) do Concílio Internacional da Inerrância Bíblica.

3. As Escrituras são INFALÍVEIS: "Infalibilidade" pode ser chamada de conseqüência sub­jetiva da inspiração divina, isto é, define a Escritura como confiável e fidedigna para aqueles que se voltam para ela em busca da verdade de Deus. Como fonte da verdade, a Bíblia é "indefectível" (ou seja, não pode falhar ou insurgir-se contra o padrão da verdade). Conseqüentemente, nunca falhará ou decepcionará qualquer um que confie nela.

Mateus 1.22 "Ora, tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito da parte do Senhor pelo profeta:"

4. As Escrituras são AUTORITATIVAS: É divina, logo, não pode ser igualada a tradição, nem muito menos ao magistério. Nem aos pronunciamentos "ex cathedra" do sumo pontífice. As Escrituras tem origem e caráter divino, ou seja, está acima irrevogavelmente.

1 Tessalonicenses 2.13 "Por isso nós também, sem cessar, damos graças a Deus, porquanto vós, havendo recebido a palavra de Deus que de nós ouvistes, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo ela é na verdade) como palavra de Deus, a qual também opera em vós que credes."

Paulo Anglada [2] no seu livro Sola Scriptura nos traz uma boa definição: 

"A autoridade da Bíblia decorre da sua origem divina. Ela é reconhecida pelo crente plenamente pelo testemunho interno do Espírito Santo, e não pode ser limitada de forma alguma. (...) Devemos ter cuidado com os grandes usurpadores da autoridade das Escrituras: o tradicionalismo, o emocionalismo e o racionalismo. (...) A fé reformada repudia a teologia liberal racionalista, que nega a autoridade das Escrituras; rejeita a neo-ortodoxia existencialista, que torna subjetiva a autoridade da Bíblia; e se recusa a aceitar a posição neo-evangélica, que limita a autoridade da Palavra de Deus ao seu conteúdo salvífico".

5. As Escrituras são SUFICIENTES: O próprio Apóstolo Paulo falando a Timóteo enfatizou a suficiência das Escrituras. Apontando para o seu proveito no ensino, na repreensão, na correção, na instrução em justiça, dessa forma o cristão esta preparado para toda boa obra.

Deuteronômio 12.32 "Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás."

Deuteronômio 4.2 "Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando."

Gálatas 1.8 "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema."

Na Confissão Belga [3], de forma uníssona concordamos e afirmamos:

"Cremos que a sagrada Escritura contém perfeitamente a vontade de Deus e que ensina suficientemente tudo aquilo que o homem precisa saber para ser salvo. Nela está detalhado e escrito cabalmente o modo de adoração que Deus requer de nós. Por isso, não é lícito a ninguém, nem mesmo a apóstolos, nada ensinar que seja diferente daquilo que agora nos ensina a Sagrada Escritura.; sim, nem que seja "um anjo vindo do céu", como afirma o apóstolo Paulo (Gl 1.8). A proibição de acrescentar ou retirar qualquer coisa da Palavra de Deus (Dt 12.32), é evidência que a doutrina nela contida é perfeitíssima e completíssima em todos os sentidos. Não nos é permitido considerar quaisquer escritos de homens, por mais santos que tenham sido, como de igual valor ao das Escrituras Divinas; nem devemos considerar que costumes, maiorias, antigüidade, sucessão de tempos e de pessoas, concílios, decretos ou estatutos tenham o mesmo valor de verdade de Deus, porque a verdade está acima de tudo."

E diante desse contexto onde a igreja já não valorizavam as Escrituras, que os reformadores bradaram o Sola Scriptura e Tota Scriptura, lutaram e viveram com esse ardor, essa chama que não apagava dia após dia. Martirizados, ou levados às últimas instâncias, marcaram seu tempo e sua época com a sua vida. A piedade acompanhava a práxis. Para nós, um grade exemplo de fé e prática, sejamos desafiados a restaurar as antigas verdades, um dever de cada geração.

Tiago 1.22-25 "E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Pois se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante a um homem que contempla no espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo e vai-se, e logo se esquece de como era. Entretanto aquele que atenta bem para a lei perfeita, a da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas executor da obra, este será bem-aventurado no que fizer."
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[1] Confissão de Fé de Westminster capítulo I-VIII.
[2] ANGLADA, Paulo. Sola Scriptura. p. 188-189.
[3] As Três Formas de Unidades das Igrejas Reformadas. Confissão Belga artigo 7. p.16.