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7 de out de 2014

O Precioso Salmo 119


Por Morgana Mendonça dos Santos


Fico a meditar em que situação, com que sentimentos, por quais motivos o autor desse salmo entrega-se em oração ao Senhor. Um resumo ou uma compilação não seria tão simples, um exame minucioso dessa pérola nos faria refletir melhor sobre as emoções e sentimentos inspirados que nos trouxe a essa revelação tão sublime sobre o Ser de Deus e Sua Palavra. Questiono a falta de pessoas com um coração tão obstinado em desejar obedecer a Deus, em amar a Sua lei, em mergulhar no Seu conhecimento, em envolver-se tão inteiramente nos Seus mandamentos.


Um salmo, que em 176 versos, é repetido diversas vezes as palavras: lei, obedecer, mandamentos, meditar, ensinar, estatutos, decretos, promessas. O seu clamor para aprender seus mandamentos e por eles viver é uma verdadeira súplica pelo conhecimento divino. A sua exortação para que possamos viver uma vida piedosa e santa, a indicação de uma vida devota aos estudos da lei, a maneira como devemos cultuar ao Senhor, a incansável petição para viver em obediência aos seus mandamentos. Chamado por alguns do salmo octonário, porque, em cada oito versículos sucessivos, as palavras iniciais de cada linha começa com a mesma letra, na ordem do alfabeto hebraico. Um poema em acróstico com 22 estrofes, um cântico mencionando a cada verso os atributos da palavra de Deus.

De forma repetitiva e bem peculiar, o autor desse salmo introduz sistematicamente de forma inspirada a doutrina revelada por Deus, a estrutura do salmo revela a possibilidade de ensino sobre cada doutrina que é apresentada em cada estrofe. O maior capítulo da Bíblia concentra-se em fazer uma bela apologia sobre a Palavra de Deus. Abraçar o salmo 119, faz arder o coração numa devoção cristã autêntica, uma verdadeira exposição de como orar, glorificar e agradecer a esse Deus tríuno.

Salmos 119.1 "Bem-aventurados os que trilham com integridade o seu caminho, os que andam na lei do Senhor!"

Do início ao fim, o salmista não se desvia do seu objetivo de vida, isto é, viver em obediência ao Senhor.

Salmos 119.176 "Desgarrei-me como ovelha perdida; busca o teu servo, pois não me esqueço dos teus mandamentos."

Uma pérola, que precisa ser escavacada, quanto mais meditado mais encontrado seu profundo tesouro, suas características diversas, onde encontramos exortação, gratidão, exaltação ao único que é digno e devoção cristã. As Escrituras Sagradas, nossa biblioteca inspirada, inerrante e infalível, deve nos levar a uma vida cativa em obediência. O salmista nos adverte a obediência: Salmos 119.30 "Escolhi o caminho da fidelidade; diante de mim pus as tuas ordenanças". O salmista clama por sabedoria e conhecimento: Salmos 119.33-34 "Ensina-me, ó Senhor, o caminho dos teus estatutos, e eu o guardarei até o fim. Dá-me entendimento, para que eu guarde a tua lei, e a observe de todo o meu coração".

Durante séculos, o livro de salmos foi modelo de oração, cânticos e petições ao Senhor, nosso Deus. O salmo 119 exemplifica as várias atitudes do salmista em render-se ao senhorio divino: Salmos 119.58; 62; 132; 137; 142; 145; 146 "De todo o meu coração imploro o teu favor; tem piedade de mim, segundo a tua palavra. A meia-noite me levanto para dar-te graças, por causa dos teus retos juízos. Volta-te para mim, e compadece-te de mim, conforme usas para com os que amam o teu nome. Justo és, ó Senhor, e retos são os teus juízos. A tua justiça é justiça eterna, e a tua lei é a verdade. Clamo de todo o meu coração; atende-me, Senhor! Eu guardarei os teus estatutos. A ti clamo; salva-me, para que guarde os teus testemunhos".

O entendimento do Sola Scriptura e Tota Scriptura permeia esse salmo, o salmista descreve quão valioso é os Seus estatutos, testemunhos, mandamentos, ordenanças, lei, promessas. Discorre em amor e zelo pela verdade, em cada verso expõe a sede por viver uma vida cativa a palavra de Deus. Salmos 119.174 "Anelo por tua salvação, ó Senhor; a tua lei é o meu prazer". Salmos 119.167 "A minha alma observa os teus testemunhos; amo-os extremamente".

Salmos 119.97; 111; 113; 127; 139; 140; 159; 163 "Oh! quanto amo a tua lei! ela é a minha meditação o dia todo. Os teus testemunhos são a minha herança para sempre, pois são eles o gozo do meu coração. Aborreço a duplicidade, mas amo a tua lei. Pelo que amo os teus mandamentos mais do que o ouro, sim, mais do que o ouro fino. O meu zelo me consome, porque os meus inimigos se esquecem da tua palavra. A tua palavra é fiel a toda prova, por isso o teu servo a ama. Considera como amo os teus preceitos; vivifica-me, Senhor, segundo a tua benignidade. Odeio e abomino a falsidade; amo, porém, a tua lei".

O que questiono e ao mesmo tempo reflito, acerca do livro dos Salmos é sobre como vivemos distantes dessa essência voltada a devoção que ardia o coração do salmista de tanto fervor e amor pelas Escrituras Sagradas. Algumas palavras de Lutero [1] sobre o livro dos Salmos: “não coloca diante de nós somente a palavra dos santos, (...) mas também nos desvenda o seu coração e o tesouro íntimo de suas almas”, onde aprendemos a “falar com seriedade em meio a todos os tipos de vendavais”, e que o saltério “faz promessa tão clara acerca da morte e ressurreição de Cristo e prefigura o seu Reino, condição e essência de toda a cristandade – e isso de tal modo que bem poderia ser chamado de uma ‘pequena Bíblia’”. Ele também afirmou: “É muito benéfico ter palavras prescritas pelo Espírito Santo, que homens piedosos podem usar em suas aflições”. Em seu leito de morte, ele recitava continuamente: “Nas tuas mãos, entrego o meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade” (Sl 31.5).

João Calvino [2], que comentou todo o livro de Salmos, escreveu: "Tenho por costume denominar este livro – e creio não de forma incorreta – de ‘Uma anatomia de todas as partes da alma’, pois não há sequer uma emoção da qual alguém porventura tenha participado que não esteja aí representada como num espelho. Ou melhor, o Espírito Santo, aqui, extirpa da vida todas as tristezas, as dores, os temores, as dúvidas, as expectativas, as preocupações, as perplexidades, enfim, todas as emoções perturbadas com que a mente humana se agita. (...) A genuína e fervorosa oração provém, antes de tudo, de um real senso de nossa necessidade, e, em seguida, da fé nas promessas de Deus. É através de uma atenta leitura dessas composições inspiradas que os homens serão mais eficazmente despertados para a consciência de suas enfermidades, e, ao mesmo tempo, instruídos a buscar o antídoto para sua cura. Numa palavra, tudo quanto nos serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado neste livro".

Mesmo que de forma generalizada, esse dois reformadores, comentou a respeito do saltério, portanto, de forma simples e direta, convido meu caro leitor a meditação e exame desse salmo, que Deus em Sua eficácia e poder nos ajude, nos ensine a guardar os Seus mandamentos! Se nunca leu o salmo 119, deleite-se na palavra de Deus com o mesmo fervor que o salmista assim o faz.

A Deus toda Glória, Rm 11.36.
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[1] “Prefácio ao Livro dos Salmos 1545”, “Sumários sobre os Salmos e razões da tradução”, “Trabalhos do Frei Martinho Lutero nos Salmos apresentados aos estudantes de teologia de Wittenberg” e “Os sete Salmos de Penitência”, Martinho Lutero – Obras selecionadas, v. 8: interpretação bíblica, princípios (São Leopoldo: Sinodal & Porto Alegre: Concórdia, 2003), p. 33-37, 224-233, 331-492, 493-548.
[2] João Calvino, O livro dos Salmos, v. 1 (São José dos Campos: Fiel, 2009), p. 26-27.