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14 de out de 2014

O Corrosivo Ócio


Por Thiago Azevedo 


A história está repleta de exemplos que nos mostram de forma notória o perigo do ócio – estagnação das atividades – o relaxamento e a negligência para com práticas que antes eram vistas como de suma importância é, de fato, um risco eminente. O exemplo que mais vem a calhar é o do atleta, ou seja, tal pessoa necessita de uma pesada disciplina que o manterá em plena forma. Uma boa alimentação regularmente, dormir nos horários corretos, evitar os excessos etc. Com isso, determinado atleta estará mais que apto a competir na sua respectiva modalidade. Não é muito diferente com o cristão, este precisa se manter em forma – espiritualmente falando – para que possa ter também êxito nas suas atividades cristãs e espirituais. A ociosidade constante é um perigo eminente em quaisquer áreas. E se tratando da área espiritual e cristã é que os cuidados devem ser mais que redobrados. Não me atenho aqui aquela ociosidade salutar que se faz necessária ao longo da caminhada cristã, mas àquela ociosidade perene que leva o indivíduo à ruína. Logo, um atleta que abandona sua rotina de treinamentos estará fadado ao fracasso como atleta. Do mesmo modo ocorre com o cristão que negligência a prática de suas atividades espirituais.

Um bom exemplo de tudo isso repousa nos mitos arturianos. Durante muitos anos o rei Artur, junto com seu séquito, lutou para impor a paz em toda Grã-bretanha, além de ter conseguido estabelecer seu reinado nesta região. Toda sua corte estava finalmente desfrutando de momentos de paz tão almejados. Seus principais cavaleiros – Peredur, Guinglan e Lancelote – estavam tranqüilos e pacíficos. Mas havia um problema aparente, estes mesmos cavaleiros estavam, nada mais nada menos, impacientes com a calmaria e com a ociosidade bélica. Estes homens eram acostumados a estarem sempre guerreando e agora estavam na mais pacata calmaria. Isso trazia sensação de agonia por não estarem desempenhando o que eles mais sabiam fazer. A mulher do rei Artur, a rainha Guinevere, se encontrava mais que preocupada e chegou a tecer a seguinte frase: “A paz é uma tapeçaria feita de pequenas guerras”. Ela mesma percebia que os cavaleiros estavam desaprendendo a arte do manejo das espadas e dos cavalos. As práticas bélicas, conseguidas com tantos esforços, estavam escoando como água na vala. Tudo isso fora solucionado por meio de uma ideia que veio à mente da rainha: o forjar de uma guerra pelo próprio rei Artur. O rei estimulou tio e sobrinho a competirem com suas espadas – Lancelote e Lyonel. O mito arturiano nos mostra o perigo do ócio, com ele vem o despreparo, desinteresse, abatimento e outros. 

Nas escrituras sagradas não é muito diferente. O primeiro rei da história de Israel se portou de tal forma quando começou a desprezar e a negligenciar os imperativos divinos. Saul teimava em descumprir as ordens da parte de Deus que o profeta Samuel o comunicava. Com isso, foi se tornando um negligente, um ocioso-espiritual e um desobediente. Infelizmente estas têm sido as características de muitos líderes e ex-líderes, pastores e ex-pastores que teimam, ou teimavam, em fazer a obra de Deus a seus respectivos moldes. Em I Sm 7:23 há uma recomendação específica – obedecer é melhor que sacrificar – e esta, funciona como um dos principais crivos para se avaliar o que tem sido feito no ambiente do evangelho. Alguns têm se munido do argumento da hipocrisia para alegar que estão obedecendo a Deus. No caso de Saul, em I Sm 7, a recomendação era acabar com tudo que houvesse no arraial dos filisteus. Mas, alguns dos soldados de Saul trouxeram como despojos, animais, além do próprio Saul ter preservado o rei – Aguague – como troféu. Logo, após ser repreendido pelo profeta Samuel, Saul faz uso do argumento da hipócrita – “trouxemos os melhores animais para sacrificar a Deus”. Samuel o reate dizendo: “Obedecer é melhor que sacrificar”. A ordem era para acabar com tudo e não trazer troféus. 

Uma ociosidade na vida cristã-espiritual conduz a estes males: ceticismo, hipocrisia, revoltas... Como se não bastasse, conduz também a ingratidão e ao “clube dos hereges” que é tão frequentado ultimamente. Quando há ociosidade na vida cristã há uma tendência natural a descontroles, excessos e a abandono da fé. Tudo isso foi visto na vida de Saul em atos – o principal deles foi consultar a pitonisa o que o levou à morte I Cr 10:13. Na história de Saul é possível ver que há possibilidade de estar envolvido com as coisas de Deus, mas não está envolvido com o Deus das coisas, há possibilidade de se tornar um ocioso-espiritual mesmo com um profeta ao lado ditando os imperativos divinos. É esta ociosidade que tem corroído líderes e pastores... É esta ociosidade que corrói o senso de Deus na vida, corrói não somente a sensação de estar sendo direcionado por Deus, mas também, a sensação de que a história dos homens foi traçada por um autor justo e soberano – o que nos traz um perene conforto. 

Portanto, é possível observar, e até citar, na atualidade, bons exemplos de ociosos-espirituais, estes que já foram completamente corroídos –por dentro e por fora– e que já adentraram para o clube dos hereges e blasfêmicos da atualidade. Não conviria listá-los neste pequeno texto, por motivos óbvios. Mas, se pode mencionar o principal destes, aquele que encabeça a lista dos negativados na pura teologia. Ou melhor, todos nós o vimos no programa do Danilo Gentili na semana passada. Ali sim, um bom exemplo de um ocioso-espiritual corrompido e corroído!