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18 de out de 2014

Desonestidade Sutil

Por Rubem Amorese

“Você, que murcha a barriga para tirar foto: cuidado, Deus está vendo!”.
Tropecei nessa divertida frase no Facebook. Ela apareceu em plena repercussão das minhas confissões sobre honestidade do Ponto Final 347. Deu pano pra manga. Houve gente compreensiva (não há um justo sequer!), gente misericordiosa (temos um advogado junto ao Pai), gente inconformada (dado ao tempo transcorrido, devíeis ser mestres…) e gente chocada, quase escandalizada (como, desonesto?! Você?!).
Acabou sendo um bom tempo de conversas sobre mentiras inocentes (quando o telefone toca e você pede para dizer que não está, ou quando você, com medo de encarar a briga, diz à esposa que ela está apenas, hã “cheiinha”) ou desonestidades inofensivas (que “não fazem mal a ninguém”).
Em algumas conversas, o assunto se estendeu para verdades cruéis (que acabam sendo usadas como armas), amor destrutivo (que “passa a mão na cabeça” do filho delinquente ou que nunca abre a portinha da gaiola de ouro) etc., como versões leves de desonestidade.
De todas essas conversas anotei exemplos do que chamamos de desonestidades sutis, porque sua tipificação (ou reconhecimento) no comportamento das pessoas é tão difícil que crente algum deveria se atrever a julgar. Mas pensamos que, por outro lado, não devem ser excluídas do ensino na igreja, porque precisam ser denunciadas, de modo que cada um tenha referenciais em relação aos quais examinar as próprias faltas, para crescer.
Eis algumas situações comuns de desonestidade sutil.
Quando se “pede oração” pelo pecado confesso de um irmão, temos o caso de intercessão ou uma desonestidade? Seria uma atitude espiritual ou simples fofoca?
Quando eu me esqueço de citar a fonte de uma ideia ou de um conceito-chave, ao escrever, estou sendo desonesto? Ou apenas esquecido?
Quando “disponibilizo” na internet a versão digitalizada de um livro que não é meu (portanto, apenas uma cópia, “que não tira pedaço de ninguém”), sem autorização do autor ou da editora, sob pretexto de incentivar o estudo e o conhecimento bíblico, estou, de fato, “colaborando com a divulgação do evangelho”?
Quando eu “baixo” um aplicativo, e também seu número serial (sem o qual o aplicativo não roda), estou sendo moderno e descolado? Ou levemente desonesto, ao me apropriar de uma cópia de algo que não é meu?
Brasília tem uma feira dos importados, vulgo “feirinha do Paraguai”. É uma feira com infra-estrutura montada pelo governo. Não me lembro o que fui comprar lá, mas encontrei um irmão da igreja. Ao me ver, ele exclamou: “Você aqui?!”. Senti que havia escandalizado o irmão. Felizmente, na conversa, sob pretexto de esclarecer uma dúvida, pude mostrar a nota fiscal da minha compra. Ufa!
Uma prática comum das conversas por email é a expressão: “só agora vi seu email”. É normal as mensagens se perderem em caixas postais movimentadas ou desorganizadas. Em especial, se a pessoa não mantém um bom filtro de SPAMs. Mas pode ser que essa frase queira dizer: “só agora li seu email”. A pessoa “só” trocou “vi” por “li”. Então, ela pode ter visto e não lido. Mas a circunstância a obrigou a se manifestar. A saída levemente desonesta é fazer a troca: só agora vi seu email. Sai justa.
Como julgar? Tantas podem ser as desculpas e atenuantes, verdadeiras, para essas situações: ignorância, desconhecimento, imperícia ao falar ou escrever, desleixo, “desligação” etc. Como lidar com essas situações de penumbra, em que todos os gatos são pardos? Penso em duas abordagens possíveis. Na primeira, estamos olhando para os outros; na segunda, para nós mesmos.
Quando percebemos uma possível desonestidade sutil em outra pessoa, é melhor não julgar (no sentido de um rito sumário, que desemboca em um veredito condenatório). É pensar o melhor dela. Como gostaríamos que pensassem de nós, se a situação de dúvida nos fosse desfavorável. Se houver intimidade (e oportunidade) para uma conversa, talvez seja edificante esclarecer, a partir de perguntas (de quem deseja saber). Então, se for o caso, pode ser útil uma respeitosa exortação em tom genérico. Jamais para condenação, mas para ensino.
Quando, entretanto, desconfiamos que é o nosso próprio coração que nos está enganando com convincentes desculpas e argumentos, esgotados os recursos da oração e da leitura devocional das Escrituras, a solução é a igreja. A amizade espiritual dos irmãos nos ajudará. É procurar gente de confiança e “confessar”. Não conheço nada mais honesto que a confissão da desonestidade. Em especial para irmãos de fé. Eles nos ajudarão a descobrir se estamos sendo sutilmente desonestos ou se não há nada de mais no que fazemos ou fizemos. Em tudo isso, avultam duas palavras: obediência e submissão.
Agora, cá entre nós: você murcha a barriga para tirar foto? :-)
Fonte: Ultimato Online