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29 de out de 2014

Os Puritanos e a Primazia da Pregação

 
Por D.J. MacDonald

Os Puritanos entendiam por “primazia da pregação” que a pregação era a parte mais importante da vida de um ministro. Quaisquer dons, dotes ou conhecimentos que um ministro possuísse, eram para serem usados para o grande fim de fazer dele um pregador.

O Apóstolo diz, “Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar...” (I Co 1:17). Isso não significa que o batismo não seja importante, mas que a pregação é mais importante. O próprio Paulo assim afirma novamente, quando diz, “... ai de mim, se não pregar o evangelho!” (I Co 9:16). A importância da pregação e a preparação para tanto, como visto nos escritos e na prática dos Puritanos, é resumido sucintamente nas palavras de J. C. Ryle: “Alguns podem estar prontos a dizer, ‘Eu trabalhei para Deus durante a semana inteira. Eu fui à escola, visitei de casa em casa, distribuindo folhetos, e se meus sermões no dia do Senhor não são tudo o que poderiam ser, de maneira nenhuma tenho sido preguiçoso.’ Devemos nos lembrar que todas as obras nesta descrição, se interferem com a preparação dos nossos sermões, trata-se de trabalho em vão”.  Quantos de nós se contentaria em dizer, “Passamos a semana visitando de casa em casa distribuindo folhetos etc.”? Quão mundano é o que ocupa por demais a nossa mente durante a semana, como podemos fazer disso uma desculpa para a nossa falta de preparação de sermão?

Henry Smith (1550-1591), palestrante em St Clement Danes, em Londres, escreve, “Se você precisa tomar cuidado com o que ouve, então nós precisamos tomar cuidado com o que pregamos. Assim é que Paulo não apontou ninguém mais como pregadores, senão aqueles que ‘manejam bem a Palavra da verdade’ (II Timóteo 2:15), ou seja, em boas palavras e no método correto; e porque ninguém pode fazê-lo sem estudo e meditação, portanto ele ensinou a Timóteo a ‘apresentar-se à doutrina’, isto é, a fazer um estudo e batalhar por isso. Pois como Pedro disse que nas epístolas de Paulo há muitas coisas difíceis de serem entendidas, também nas epístolas de Pedro, de João e de Tiago há muitas coisas que Davi, antes, chamou de maravilhas da lei, e Paulo chamou de o mistério da salvação, e Cristo chamou de tesouro escondido no chão”. “O trigo é bom”, continua Smith, citando Amós 8:6, “mas aqueles que vendem o seu refugo são reprovados. Também a pregação é boa, mas esta recusa em pregar não passa de blasfêmia, pois um toma o nome de Deus em vão, o outro toma a Palavra de Deus em vão. Como nem todo som é música, assim nem todo sermão é pregação, mas pior do que quem o faz ler uma homilia. Pois se Tiago nos exorta a considerar o que pedimos antes de orarmos, muito mais deveríamos nós considerar antes que venhamos a pregar”.

Ao enfatizar a importância da pregação, diz Perkins, “O primeiro título de um ministro de Deus é mensageiro. Ele é o mensageiro do Senhor das multidões. Em Apocalipse os ministros de sete igrejas são chamados de anjos dessas igrejas; em outra passagem um ministro é um anjo do Senhor, e em outra, o anjo da igreja — isto é, um anjo ou mensageiro enviado por Deus à igreja. Este ponto tem ampla aplicação”:

Primeiramente, para os próprios ministros. Você deve compreender a sua tarefa. Ministros são mensageiros: esta é a própria natureza do seu chamado. Portanto você deve pregar a Palavra de Deus e entregá-la exatamente como a recebeu. Embaixadores não portam sua própria mensagem, mas a mensagem dos seus senhores e mestres, que os enviaram. Similarmente, ministros portam a mensagem do Senhor das multidões e são, portanto, obrigados a entregá-la como sendo a mensagem do Senhor, e não sua própria. A Palavra de Deus é pura. Deve ser, portanto, estudada e entregue de maneira pura. Que todos aqueles que são anjos de Deus — e desejam ser honrados como Seus anjos e Seus embaixadores — devem cumprir com a responsabilidade de um anjo de Deus, de forma que, como muitos homens desfiguram uma boa estória pela forma como a contam, eles não tirem o poder e a majestade da Palavra de Deus pela forma como a entregam!”.

“Em segundo lugar, se ministros são os anjos de Deus, eles devem pregar a Palavra de Deus de tal forma que ela expresse e demonstre o Espírito de Deus. Pregar na demonstração do Espírito de Deus é pregar com tal simplicidade, todavia com poder tal, que mesmo aquele menos dotado intelectualmente reconheça não ser um homem, mas Deus, quem o está ensinando. E ainda assim, a consciência do mais poderoso possa sentir que não um homem, mas Deus o está reprovando através do poder do Espírito. É tido com grande admiração aos olhos do mundo, quando dizem de um pregador: ‘Ele é um sábio de fato’, porque ele tem erudição, lê bastante, tem uma boa memória e uma boa exposição. Mas o que recomenda um homem ao Senhor seu Deus e à sua própria consciência é que ele prega com uma sinceridade adequada à habilidade, e tão poderosamente à consciência do pecador, que este percebe que Deus está presente no pregador”.

“Em terceiro lugar, há uma aplicação importante aos ouvintes. Eles são ensinados que se os seus ministros são anjos enviados a eles por Deus, então devem ouvi-los prazerosamente, de bom grado, reverentemente e obedientemente, porque eles são enviados por Deus, e é a Sua mensagem que eles entregam. Todos Cristãos devem fazê-lo, não somente quando a doutrina que é pregada os satisfaz, mas também quando ela corta de lado a lado nossa corrupção e é completamente contrária às nossas disposições. Pode ser altamente desagradável e ferir nossos desejos naturais, mas desde que seja uma mensagem do nosso Deus e Rei e o pregador seja o mensageiro daquele Deus, ambos, ele e a mensagem, devem ser recebidos com respeito e com uma obediência que venha dos nossos corações e almas. Esta é a razão porque respeito e honra devem ser prestados por todos Cristãos aos ministros de Deus, especialmente quando eles adornam o seu alto chamado com uma vida santa: eles são os anjos de Deus, entregando as mensagens e as cargas que eles receberam de Deus”.

“O ministro de Deus é também um intérprete. Ele é alguém que é capaz de entregar a reconciliação feita entre Deus e o homem; isto é, primeiro, ele é alguém que pode expandir e explicar o pacto da graça, e corretamente estabelecer como a reconciliação é alcançada. Segundo, ele é alguém que pode aplicar, precisa e apropriadamente, os meios do operar externo da reconciliação. Em Apocalipse, João recebe diretamente de Cristo. Ele deve tomar o livro — isto é, a Escritura — e comê-lo. Então, após tê-lo comido, ele deve ir e pregar aos povos, línguas e nações (Apocalipse 10:8 – 11). Através de João, Cristo ensina à Sua Igreja de forma permanente que ministros não são capazes de pregar a nações e a reis, até que tenham comido o Livro de Deus, ou seja, até acima e além de todo o aprendizado que o homem possa transmitir, eles também são ensinados pelo Próprio Espírito de Deus. É o seu ensino que faz de um homem um verdadeiro intérprete. Sem isso ele não pode ser um intérprete. Como pode alguém ser intérprete de Deus para o Seu povo, a menos que ele conheça a mente do Próprio Deus? E como pode ele conhecer a mente de Deus, exceto pelo ensinamento do Espírito de Deus?”.

“O que estou enfatizando é isto: um ministro deve ser um intérprete divino, um intérprete do que Deus tem a dizer. Portanto, ele não deve somente ler o livro, mas comê-lo. Ele deve não somente ter o conhecimento das coisas divinas fluindo em seu cérebro, mas gravado em seu coração e impresso em sua alma pelo dedo espiritual de Deus. Para tanto, além de todo o seu próprio estudo, meditação e uso de comentários e outros auxílios humanos, ele deve orar como Davi, “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da Tua lei” (Salmo 119:18).

“Além disso, uma vez que ministros são intérpretes, eles devem aspirar santificação e santidade em suas próprias vidas. Na profecia de Isaías, o Reino da Assíria é dito ser santificado, ou separado, para destruir os inimigos de Deus. Se um certo tipo de santificação é necessário para a obra de destruição, quanto mais é a verdadeira santificação necessária para a grande e gloriosa obra de edificação da Igreja de Deus ”.

Fonte: Revista Puritanos