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26 de nov. de 2014

É Ele quem converte o nosso coração

Por Vinícius Corrêa

"E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.” 

Ezequiel 36:26-27

Esse é um dos textos elencados no antigo testamento que me traz mais alegria e esperança. Toda vez que leio esse texto meu coração se enche de alegria, pois me mostra que a salvação não depende de nós, mas do soberano Deus.

Onde está o livre arbítrio? Onde está a decisão do homem?

Observe que o próprio Deus toma a iniciativa de ir até o pecador, e muito mais do que isso, ele arranca o coração de pedra, que não é capaz de se voltar a Deus, não sente nada, é incapaz de exercer volição positiva, e coloca um coração de carne, que é capaz de amar a Deus e guardar seus estatutos.

Observe que o homem natural possui um coração incapaz de amar, isso lhe é inato, esse homem está emaranhado em pecados, sua natureza lhe imputa essa situação; ele está caminhando a passos largos para o inferno, cumprindo a justiça de Deus, que puniu com a morte todos os filhos de Adão. Mas mesmo com todo furor de sua irá, Deus soberanamente escolheu trazer para seu lado algum desses homens que estavam caminhando em direção contrária a sua graça.

Mas como trazer esse homem de volta ao criador, se ele ama mais o mundo e seus rudimentos?

O próprio Deus, com sua potente mão retira o coração de pedra e coloca um coração de carne, muito mais do que isso, Ele coloca dentro de nós seu Santo Espírito, que é a garantia de nossa salvação, é o selo de nossa remissão, é aquele que nos sustenta e nos converte de nossos maus caminhos.

Mas esse homem pode se desviar?

De forma alguma!!! Todos aqueles que foram convertidos por Deus, e receberam o Espírito Santo estão seguros, pois o próprio Deus os faz andar em seus caminhos e guardar seus estatutos, é Deus quem preserva o pecador, do contrário fora, ainda com a conversão esse homem se desviaria do reto e digno caminho, e voltaria as suas antigas práticas.

Minha oração é que em sua vida toda glória da salvação seja dada a Deus, que você entenda que antes dEle arrancar seu coração de pedra, você era injusto e indigno de estar na presença dEle.

A glória da segunda casa: Uma interpretação cristológica

 
Por Alan Rennê Alexandrino Lima

“A glória desta última casa será maior do que a da primeira, diz o SENHOR dos Exércitos; e, neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ageu 2.9).

É com frequência que igrejas locais mudam de endereço, a fim de proporcionar melhorias aos seus membros, bem como em busca de maiores espaços, a fim de acomodar um maior número de pessoas. É frequente, também, que para promover esta busca e conferir uma grande importância a um espaço cúltico maior, muitos acabam usando a passagem de Ageu 2.9. A lógica é a seguinte: O primeiro “templo” comportava apenas 150 pessoas. Já este segundo possui a capacidade para 500 pessoas. Com isso, de acordo com eles, cumpre-se a Palavra do Senhor em Ageu, pois a glória da “segunda casa” é maior que a da primeira.

Meu propósito neste breve comentário é analisar a passagem citada em seu contexto, a fim de obter uma conclusão a respeito da maneira como a mesma é aplicada por aqueles que entendem que ela diz respeito a locais de culto cada vez maiores.

O Livro de Ageu

Ageu é conhecido como um dos profetas da restauração, o que significa que sua atuação profética se deu quando os judeus já haviam retornado à Terra Prometida. O livro tem início com a contextualização histórica: “No segundo ano do rei Dario” (1.1), ou seja, por volta de 520 a.C. Juntamente com Zacarias, Ageu profetizou durante o reinício da reconstrução do Templo, exatamente no ano 520 a.C. De acordo com O. Palmer Robertson, Ageu foi “a primeira voz profética a falar desde o tempo da restauração da nação”.[1]

O primeiro tema a receber destaque na profecia de Ageu é o da reconstrução da “Casa do SENHOR”:

Assim fala o SENHOR dos Exércitos: Este povo diz: Não veio ainda o tempo, o tempo em que a Casa do SENHOR deve ser edificada. Veio, pois, a palavra do SENHOR, por intermédio do profeta Ageu, dizendo: Acaso, é tempo de habitardes vós em casas apaineladas, enquanto esta casa permanece em ruínas? Ora, pois, assim diz o SENHOR dos Exércitos: Considerai o vosso passado. Tendes semeado muito e recolhido pouco; comei, mas não chega para fartar-vos; bebeis, mas não dá para saciar-vos; vesti-vos, mas ninguém se aquece; e o que recebe salário, recebe-o para pô-lo num saquitel furado.
Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Considerai o vosso passado. Subi ao monte, trazei madeira e edificai a casa; dela me agradarei e serei glorificado, diz o SENHOR. Esperastes o muito, e eis que veio a ser pouco, e esse pouco, quando o trouxestes para casa, eu com um assopro o dissipei. Por quê? – diz o SENHOR dos Exércitos; por causa da minha casa, que permanece em ruínas, ao passo que cada um de vós corre por causa da sua própria casa (Ageu 1.2-10).

O povo de Israel estava sendo negligente em reconstruir o Templo, o lugar da habitação de Deus no meio do seu povo. A ordem de Deus era no sentido de que o povo abandonasse seu egoísmo e passasse a se preocupar com a casa do Senhor. A ideia passada pelo povo com a sua atitude era a de que Deus era irrelevante. Eles não sentiam falta do Templo, do lugar onde o Senhor era adorado, onde o sacrifício tipológico era realizado e o perdão anunciado.

A “Segunda Casa” Comparada com a Primeira

A partir do versículo 12 vê-se que o povo atendeu à ordem do Senhor por intermédio do profeta Ageu: “Então, Zorobabel, filho de Salatiel, e Josué, filho de Jozadaque, o sumo sacerdote, e todo o resto do povo atenderam à voz do SENHOR, seu Deus, e às palavras do profeta Ageu, as quais o SENHOR, seu Deus, o tinha mandado dizer; e o povo temeu diante do SENHOR”. A profecia inicial de Ageu se deu no primeiro dia do sexto mês (1.1), ao passo que a reconstrução do templo teve início no “vigésimo quarto dia do sexto mês” (1.15).

Cerca de um mês após o início da reconstrução (2.1), os anciãos que ainda tinham em sua lembrança o esplendor do templo construído por Salomão, ao verem as construções do segundo templo lamentavam a sua inferioridade estética em relação ao primeiro. Por isso, o Senhor Deus perguntou por intermédio do profeta Ageu: “Quem dentre vós, que tenha sobrevivido, contemplou esta casa na sua primeira glória? E como a vedes agora? Não é ela como nada aos vossos olhos?” (2.3). “Comparado com o anterior, o templo que eles estão construindo terá pouco da primitiva grandeza e beleza. Parecer-lhes-á como nada”.[2] A comparação é feita entre a “glória” do primeiro templo e a aparente ausência de “glória” do segundo.

É importante recordar que o termo hebraico kabôd, traduzido como “glória” é usado em outros profetas com uma conotação diferente desta. Ezequiel, por exemplo, fala da kabôd para se referir à presença do Senhor no templo: “Como o aspecto do arco que aparece na nuvem em dia de chuva, assim era o resplendor em redor. Esta era a aparência da glória do SENHOR; vendo isto, caí com o rosto em terra e ouvi a voz de quem falava” (1.28). No capítulo 10, Ezequiel vê a kabôd do Senhor abandonando o templo, simbolizando que Deus não mais habitaria ali, não mais estaria presente de um modo especial e pactual: “Então, se levantou a glória do SENHOR de sobre o querubim, indo para a entrada da casa; a casa encheu-se da nuvem, e o átrio, da resplandecência da glória do SENHOR [...] Então, saiu a glória do SENHOR da entrada da casa e parou sobre os querubins” (vv. 4,18). Entretanto, Ageu “não aponta inicialmente para essa glória da presença de Yahweh. Antes, ele refere-se à beleza do templo de Salomão”.[3]

Já no versículo 7, o termo kabôd possui a mesma conotação da profecia de Ezequiel. A referência é à presença do Senhor no seu templo. Enquanto os anciãos se lembravam da beleza e esplendor do templo de Salomão, Deus promete que o segundo templo, menor em tamanho e riquezas, possuirá uma glória plena, pois, diz o Senhor “encherei de glória esta casa”. O Senhor estava ensinando ao seu povo que, “a glória do templo não dependeria de sua forma exterior. Ao contrário, a glória é vista na própria presença de Yahweh”.[4] A mensagem para aqueles que se encontravam chorosos e àqueles que concentram sua atenção na estrutura física do edifício cúltico, é que a beleza e o tamanho não influenciam ou diminuem a glória do local, mas sim a presença de Deus com o seu povo.

A Glória da Segunda Casa e Jesus Cristo

Deus prometeu que a sua presença encheria aquela casa de glória: “Ainda uma vez, dentro em pouco, farei abalar o céu, a terra, o mar e a terra seca; farei abalar todas as nações, e as coisas preciosas de todas as nações virão, e encherei de glória esta casa, diz o SENHOR dos Exércitos” (2.6-7). A grande questão é se a manifestação plena da glória de Deus estaria limitada àquele segundo templo que estava sendo construído na ocasião, ou se ela aponta apara algo além daquela edificação. A linguagem do profeta lembra o que aconteceu quando Davi se tornou rei de Israel. Várias nações reconheceram o seu reinado e enviaram presentes, coisas preciosas (2Samuel 5.11). O mesmo aconteceu com Salomão, filho de Davi (1Reis 5.8-10; 10.1-10). Não obstante, a referência é que as nações virão agora para contemplar a glória da casa do Senhor. Deus está falando de Cristo, que tanto era filho de Davi (Mateus 1.1) como a habitação permanente de Deus entre o seu povo (João 1.14). O. Palmer Robertson faz um comentário perspicaz a este respeito:

Este segundo abalo põe em destaque um único descendente de Davi, que possuirá poderes para agir com autoridade divina sobre todas as nações. Assim como o templo de Deus e o trono de Davi se fundiram no Monte Sião com a vinda da Arca para Jerusalém, assim também o profeta antecipa uma futura unificação gloriosa do culto divino e do domínio através de um monarca Davídico restaurado.[5]

A interpretação de Calvino também leva em conta o elemento messiânico da profecia:

Mas nós podemos entender o que ele diz de Cristo, virá o desejo de todas as nações, e eu encherei esta casa com glória. De fato, sabemos que Cristo era a expectativa de todo o mundo, de acordo com o que foi dito por Isaías. E pode ser dito apropriadamente que, quando o desejo de todas as nações vier, isto é, quando Cristo se manifestar, em quem os desejos de todos convergem, então, a glória do segundo templo será esplendorosa.[6]

Por esta razão é que o Senhor declara, no versículo 9: “A glória desta última casa será maior do que a da primeira”. A glória do segundo templo não possui nenhuma relação com o seu espaço físico ou com seus objetos de valor. A glória do segundo templo está direta e inextricavelmente relacionada com a vinda de Jesus Cristo. Por se tratar de um templo mais próximo da vinda do Messias do que o que fora construído por Salomão, o segundo seria mais glorioso. Diz o puritano Matthew Poole que, “o que Deus chama de glória deve ser bem melhor do que prata e ouro. Maior que a da primeira, verdadeiramente mais gloriosa, em muitos graus. O mínimo de Cristo tem glória maior que toda a magnificência de Salomão. Não existiram mais que duas casas erigidas por designação divina, e, na segunda, adentrou pessoalmente o Messias”.[7] Calvino afirma ainda que, não devemos imaginar, como alguns intérpretes “brutos”, que a glória futura do segundo templo dizia respeito às reformas empreendidas por Herodes, visando restaurar a suntuosidade do templo. Antes, de acordo com ele, “o que é dito aqui a respeito da glória futura do templo é aplicado à excelência daquelas bênçãos espirituais que apareceram quando Cristo foi revelado, e ainda continuam visíveis para nós através da fé”.[8]

A conexão entre a glória do segundo templo e Jesus fica mais evidente com a continuação do versículo 9: “e, neste lugar, darei a paz, diz o SENHOR dos Exércitos”. No Antigo Testamento a promessa de paz sempre estava ligada à vinda do Messias: “O SENHOR dá força ao seu povo, o SENHOR abençoa com paz ao seu povo” (Salmo 29.11). O conceito veterotestamentário de paz carrega “a noção positiva de bênçãos, especialmente a de um correto relacionamento com Deus”.[9] Isso fica evidente na bênção araônica, em Números 6.24-26: “O SENHOR te abençoe e te guarde; o SENHOR faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o SENHOR sobre ti levante o rosto e te dê a paz”.

Além disso, as passagens proféticas do Antigo Testamento olham adiante para um período de paz que seria inaugurado pela vinda do Messias: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9.6); “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta. Destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído. Ele anunciará paz às nações; o seu domínio se estenderá de mar a mar e desde o Eufrates até às proximidades da terra” (Zacarias 9.9-10). O profeta Ezequiel anunciou que através do Messias, Deus faria uma eterna aliança de paz com o seu povo: “Farei com eles aliança de paz; será aliança perpétua. Estabelecê-los-ei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles, para sempre” (37.26). Interessantemente, a ideia de um santuário, um templo ligado ao estabelecimento da paz também aparece na passagem de Ezequiel.

Isto posto, quando os discípulos estavam reunidos com Jesus no cenáculo, ouviram o seu Mestre dizer: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo” (João 14.27). Com toda certeza eles rememoraram as promessas escriturísticas a respeito do estabelecimento da paz pelo Messias, aquele que era o tabernáculo de Deus entre os homens.

É importante observar ainda que, Apocalipse 21.22 faz uma afirmação extraordinária a respeito da Nova Jerusalém: “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro”. G. K. Beale e Sean M. McDonough afirmam que, “João provavelmente entendeu estas profecias do Antigo Testamento como sendo cumpridas no futuro por Deus e Cristo substituindo o primeiro templo físico e a arca por sua gloriosa habitação, o que tornará a glória do primeiro templo diminuta”.[10]

Conclusão

A glória do segundo templo não dizia respeito ao seu tamanho nem ao esplendor do material usado na sua construção – até porque, em comparação com o primeiro templo, o segundo foi capaz de despertar o choro dos anciãos que viram o que fora construído por Salomão. A glória da segunda casa estava ligada à vinda do Messias, de Jesus Cristo, o verdadeiro templo de Deus, o Emanuel, o Deus conosco.

Usar a passagem de Ageu 2.9 para recomendar um enorme espaço cúltico, com capacidade para abrigar milhares de pessoas é cometer duplo erro. Em primeiro lugar, comete-se o erro de torcer o sentido da passagem de acordo com o contexto do livro do profeta Ageu. A segunda casa cuja glória seria maior era pequena e destituída de ornamentos em comparação com a primeira. Mas muitos usam a passagem para falar de uma segunda casa maior que a que usavam até então. Em segundo lugar, comete-se o erro de desconsiderar Jesus Cristo, de se apegar às sombras do Antigo Testamento em detrimento daquele que dá sentido a todo ajuntamento solene e que enche de glória todo e qualquer lugar onde o povo de Deus está reunido para adorá-lo em espírito e em verdade.

Soli Deo Gloria!
__________
Notas:
[1] O. Palmer Robertson. The Christ of the Prophets. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2004. p. 368.
[2] Gerard van Groningen. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 813.
[3] Ibid.
[4] Ibid. pp. 817-818.
[5] O. Palmer Robertson. The Christ of the Prophets. p. 383.
[6] John Calvin. The Minor Prophets: Habakkuk, Zephaniah & Haggai. Vol. 4. Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1986. p. 360.
[7] Matthew Poole. A Commentary On The Holy Bible: Psalms-Malachiah. Vol. 2. Peabody, MA: Hendrickson Publishers, 2010. p. 987.
[8] John Calvin. The Minor Prophets: Habakkuk, Zephaniah & Haggai. Vol. 4. p. 361.
[9] Andreas J. Köstenberger. “John”. In: G. K. Beale e D. A. Carson (Eds.). Commentary On The New Testament Use of The Old Testament. Grand Rapids, MI: Baker Academic e Apollos, 2007. p. 490.
[10] G. K. Beale e Sean M. McDonough. “Revelation. In: Ibid. p. 1153.

Existe ministério de louvor?




25 de nov. de 2014

Nós somos Igreja e nós não temos um mercado em potencial

Por Daniel Clós Cesar

Não muito tempo atrás, um pastor me perguntou o que eu achava de fazer uma pesquisa na região em torno da igreja para descobrir o que os vizinhos esperavam de uma instituição religiosa. O objetivo muito claro deste pastor era simples, ainda que não explicito. Saber o que seus clientes em potencial queriam, para que pudesse lhes oferecer um serviço sob medida, para que então eles passassem a consumir o produto dele e não mais o da concorrência.

A ideia não é apenas perversa, ela também claramente aponta uma falta de confiança em Deus de que Ele dará o crescimento quando e como Ele desejar, uma falta de maturidade espiritual pois, delega a pessoas que não conhecem a Cristo e não são nascidas no Espírito para dizer a igreja como ela deve agir; e por fim, uma falta de compromisso com a Palavra, buscando um compromisso profundo com o homem. Minha opinião na época foi de que, ir ao cemitério ouvir os mortos, não é uma prática cristã protestante.

Quando Jeosafá, rei de Judá, juntou-se a Acabe, rei de Israel, para enfrentar Ramote de Gileade, pediu ao rei de Israel que a Palavra fosse consultada, então foram chamados 400 profetas de Israel, e todos foram unânimes: “Sobe, porque Deus a entregará na mão do rei”. Jeosafá pede ao rei de Israel que traga um profeta verdadeiro do Senhor, afinal, profetas não profetizam benção, conforme ensinou Jeremias, profetizam guerras e destruição, mal e peste, não paz (Jeremias 28.8). Acabe, contrariado com o tal profeta que “nunca profetiza de mim o que é bom, senão sempre o mal” (2 Crônicas 18.7) manda vir o profeta Micaías, e esta é sua profecia:

“Vi a todo o Israel disperso pelos montes, como ovelhas que não têm pastor; e disse o SENHOR: Estes não têm senhor; torne cada um em paz para sua casa.” (2 Crônicas 18.16)

Acabe rejeitando as palavras do profeta o manda ao cárcere, segue para a batalha e lá é morto por uma flecha lançada a esmo.

O que você pode esperar de uma igreja onde seu pastor consulta os mortos? O que você pode esperar de uma congregação onde os homens e não Deus dizem como as coisas devem ser feitas, o que deve ser pregado, como deve ser pregado e como deve ser prestado o culto a Deus?

O cristianismo obteve uma grande vitória no século XVI com a Reforma Protestante. A constante reforma pregada pelos primeiros reformadores “ecclesia reformata, semper reformanda secundo verbum Dei” (“A igreja reformada, sendo sempre reformada de acordo com a Palavra de Deus”) é abandonada por um adágio do catolicismo romano medieval “semper idem” (“Sempre o mesmo”).

Se homens morreram para que o Evangelho fosse pregado em sua constante renovação que só é possível pela atuação sobrenatural do Espírito Santo, os pastores contemporâneos, em uma confusão que chamam de “renovação” ou “avivamento”, buscam seu suporte “teológico” nos cemitérios do mundo para “renovar” e “avivar” suas pregações, as mantendo sempre como a mesma coisa, comida fria e insípida para pessoas que não tem condições nem mesmo de comer, pois estão mortas em seus pecados e delitos.

Não há exposição da Palavra nas igrejas, a pregação segue o ritmo de declínio moral e espiritual secular. Pastores estão preocupados com a reunião para jovens solteiros, jantar para os casais, pipoca com cinema para os adolescentes e esquecem que a sua preocupação deveria ser passar horas e mais horas debruçados sobre a Palavra de Deus para quem sabe, apenas quem sabe, compreender o que Deus tem para a sua igreja no próximo sermão a ser pregado. E então, renovados pela Palavra, a expor para os ouvintes que, pelo ouvir a Palavra de Deus recebessem a Fé necessária para a Salvação.

No entanto, os pregadores amoldam a Palavra de Deus para disseminar seus conhecimentos, a Palavra não muda suas pregações, elas são sempre as mesmas, suas mentes não mudam pela Palavra, são absolutamente “semper idem”. Versículos são usados para ilustrar um ponto de vista, não para renovar mentes. E quando ocorre alguma “renovação”, trata-se apenas de uma inovação secular no meio da igreja, trata-se de uma secularização do culto, uma “atualização” descabida da liturgia que tem como único objetivo dar mais conforto e interatividade a pessoas de outro século, de outra época... o que esquecem esses pastores, é que os pecados deles são os mesmos de Adão.

Não precisamos fazer pesquisas no bairro e perguntar a pessoas que não conhecem a Deus o que elas esperam de Deus. Não precisamos promover eventos que atraiam as pessoas a igreja como peixes em um cercado, para que então lancemos uma rede de “bençãos” que os deixaram num emaranhado de promessas que nunca serão cumpridas, isto é no mínimo desonestidade, e se formos mais severos na aplicação da Palavra, é passível de morte os que tais coisas praticam. Precisamos sim lançar uma rede onde os fios são a própria Palavra de Deus, e os nós que os unem são a verdade, o arrependimento e a conversão.

O Evangelho ultrapassou dois mil anos em pleno crescimento sem nenhuma necessidade de inovação humana. Todas as inovações mostraram-se tempos mais tarde ser um fracasso, tanto que foram abandonadas e substituídas por outras que alguém julgou ser melhor... todas elas sem exceção mostraram que apenas uma pregação simples, mas centrada unicamente na Palavra, expondo-a dia após dia, geraram ovelhas saudáveis e sadias, que geraram mais ovelhas, e mais ovelhas, e mais ovelhas...

Sola Scriptura. Soli Deo Gloria.

A Palavra, a cerveja de Wittenberg e a expansão do Islamismo

Por Aaron Denlinger

“Eu não posso carregar ninguém ao céu, nem mesmo sob pauladas”. Assim observou Lutero em 11 de Março de 1522, em um sermão em Wittenberg. Apesar de ser um tanto óbvio, Lutero se sentiu compelido a dizer isso porque em sua ausência de Wittenberg nos dez meses anteriores, certas pessoas ficaram impacientes com o progresso da reforma na cidade e apelaram a meios legais compulsórios e/ou violência para trazer as mudanças na doutrina e na adoração que tanto desejavam.

Lutero tinha, na verdade, dito a mesma coisa em um sermão para a mesma audiência no dia anterior. Insistindo de forma clara sobre a necessidade da fé em Cristo para a salvação, de onde necessariamente vem a fé e o amor por Deus e pelos outros, assim como a verdadeira adoração, Lutero enfatizou no sermão anterior que essa mesma fé surge da proclamação das promessas de Deus, não do uso da força: “eu não poderia, nem deveria, forçar qualquer um a ter fé”. De fato, o uso da força é, em última instância, na opinião de Lutero, desnecessário e infrutífero para o sucesso da expansão do reino de Deus, porque a palavra divina – encontrada na Escritura e proclamada pelos ministros ordenados de Deus – é quem realiza essa tarefa.

“A Palavra criou céus e terra e todas as coisas; a Palavra é quem vai realizar [a conversão dos homens], não nós, pobres pecadores”. De nossa parte, “devemos deixar a Palavra correr livre, sem adicionar nossas obras” – isso é, sem usar nossos meios de coerção. Assim, “devemos pregar a Palavra, mas os resultados devem ser deixados unicamente à vontade de Deus”.

Lutero descobriu um exemplo perfeito da habilidade da Palavra de expandir o reino de Deus sem um taco de baseball em sua própria experiência nos anos anteriores. “Eu me opus às indulgências e aos papistas, mas nunca pela força. Eu simplesmente ensinei, preguei e traduzi a Palavra de Deus; fora isso, não fiz mais nada. E enquanto eu dormia ou bebia a cerveja de Wittenberg com meus amigos Phillip e Amsdorf, a Palavra enfraqueceu o papado de tal forma que nenhum príncipe ou imperador jamais seria capaz. Eu não fiz nada; a Palavra fez tudo”.

É questionável se Lutero manteve sua posição sobre a prerrogativa exclusiva da Palavra para avançar o reino de Cristo nos anos seguintes. Cada vez mais alarmado pelos esforços extremos dos anabatistas para implementarem sua própria versão de um reino civil/espiritual pela força (o que significa, ainda bem, que nunca a possuíram em grandes quantidades), Lutero parece ter tolerado cada vez mais o uso de força recíproca para manter os anabatistas na linha, civil e (possivelmente) religiosamente. Porém, é possível, talvez, argumentar que sua posição se manteve consistente, e que a força contra os anabatistas endossada por ele era puramente por questões de restrição civil, não de uniformidade religiosa.

De qualquer forma, a disposição que Lutero demonstrou mesmo nos anos de 1520 perante o uso de meios legais e militares para reprimir desobediência civil nos lembram que sua doutrina do poder da Palavra dizia respeito especificamente ao ponto teológico de como o reino de Cristo é sustentado e expandido, não um endosso genérico de persuasão pacífica em qualquer contexto possível. Uma mão forte é necessária algumas vezes para manter cidadãos – ou, porque não, crianças – rebeldes na linha. Apenas a Palavra, entretanto, pode produzir fé genuína, esperança e amor por Deus em um homem, uma mulher ou uma criança.

Lutero encontrou um exemplo bíblico do poder exclusivo da Palavra de trazer renovo e reforma no relato da obra missionária de Paulo em Atenas em Atos 17. “Quando Paulo chegou em Atenas, uma cidade poderosa, encontrou no templo muitos altares antigos, e foi andando entre todos eles, mas não derrubou nenhum deles a chutes. Pelo contrário, se levantou no meio do mercado e disse que eles não eram nada além de objetos de idolatria, e pediu que as pessoas os abandonassem; veja, ele não destruiu nenhum pela força. Quando a Palavra tomou conta de seus corações, eles mesmos os abandonaram por conta própria”.

Lutero poderia, se quisesse, usar outra ilustração desse ponto na história da igreja, ao considerar o crescimento do cristianismo nos primeiros séculos. Os cristãos dos três primeiros séculos espalharam o evangelho exclusivamente por meio da proclamação. Na verdade, eles tinham pouca escolha. Como sua religião recém descoberta era considerada ilegal, eles eram consistentemente marginalizados de posições de influência política, social ou militar, e eram, pelo menos ocasionalmente, vítimas de intensa perseguição. Eles testemunhavam da realidade de que Deus, em Cristo, estava reconciliando o mundo consigo mesmo por meio de seus lábios e, às vezes, com suas vidas. Pela própria natureza da situação, eles não poderiam promover o reino de Cristo por meio de estabelecerem nações “cristãs” ou manobrando o aparato legislativo ou jurídico dos estados existentes. Notavelmente, esse foi o maior período de crescimento que a igreja cristã já experimentou, mesmo na ausência do fator da cerveja de Wittenberg.

A expansão inicial do cristianismo contrasta fortemente com a expansão inicial do Islamismo, nesse sentido. Desde o começo, Maomé e seus seguidores empregaram qualquer meio militar que tinham para avançar a expansão de sua religião. Em menos de uma década depois da morte de Maomé, os muçulmanos já haviam se espalhado de sua base na Península Arábica para conquistar a Palestina. Em menos de um século, já haviam conquistado a Síria, a Pérsia, o norte da África e muito da Península Ibérica. Tudo isso, claro, era pela força, mesmo que as “conversões” forçadas fossem diminuindo conforme o Islã se distanciava de sua base geográfica. Tais conquistas militares foram notáveis, mas não sem precedentes (pense em Alexandre, o Grande, por exemplo) e, assim, não foram sinal certo de favor divino. A rápida expansão do cristianismo sem os meios da força (e, na verdade, na presença de muita perseguição), por outro lado, é notável, e é possível argumentar que aponta para uma bondade providencial direcionada à doutrina defendida pelos cristãos primitivos.

Cristãos tem sido um tanto vagarosos para aprender a lição que Lutero, a Escritura e a história da igreja nos ensinam em conjunto sobre esse assunto. A tentação de confiar na força – seja pessoal, política ou financeira – para a expansão do reino de Cristo, mesmo quando ela não é propriamente usada, é constante. É o outro lado da moeda de não acreditar que a Palavra de Deus pode, de fato, no tempo perfeito de Deus, trazer pecadores para seu Reino, ou trazer esse Reino à sua realização escatológica. Um bom medidor de onde nossa confiança para o sucesso do evangelho está pode ser o otimismo/pessimismo que sentimos em relação ao resultado de eleições ou pontos específicos de legislações. Há, é claro, muitas razões para participar dos processos políticos para buscar o melhor estado civil possível para nós e nosso próximo, crentes e descrentes. Há, igualmente, muitas razões para não se preocupar demais com o sucesso ou fracasso desses esforços; somos, afinal de contas, herdeiros de um reino que não será alcançado por meio de processos políticos, mas irá florescer por meio da proclamação da promessa de Deus e o poder dessa proclamação de gerar verdadeiros cidadãos (isso é, justificados, santificados e eventualmente glorificados) desse reino.
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Fonte: Reforma 21

Batendo um papo sobre namoro

Por Thomas Magnum
Ao tocarmos nesse assunto em pleno século 21 estamos tratando de um fato desafiador em relação à vida cristã. Costumeiramente ao falar para jovens e adolescentes sou questionado com a mesma pergunta inicial: Como sei se ele ou ela é a pessoa de Deus para mim? Muitas vezes posso ver até certa angústia no coração de muitos jovens em relação a isso. Algo evidente que vivemos em nossa época é que os jovens crentes estão namorando mais, ou melhor, a quantidade de pessoas que se enamoram tem sido maior do que em outras épocas. Em muitos casos jovens dizem que oraram pedindo orientação de Deus e “Deus confirmou” e posteriormente o relacionamento termina e duas semanas depois já se está namorando novamente. Isso se dá comumente por alguns fatores que podemos enumerar aqui, claro que não tenho a pretensão de esgotar o assunto nem agir de forma absolutista, mas vejamos alguns critérios utilizados para a escolha de um namorado ou namorada, usados por muitos crentes:
1-Uma boa condição financeira – Pessoas que tem uma boa condição material dada pelos pais.
2-O Status – Outro fator que tristemente observamos no meio cristão, pessoas que namoram por uma necessidade de admiração da comunidade, familiares ou igreja.
3-Atração Física – Fato incontestável, boa parte dos jovens cristãos namoram e casam somente por sentirem forte atração sexual pelo parceiro.
4-Carência – Muitas pessoas também namoram porque “não conseguem” ficar sozinhas; “Todos tem namorado ou namorada então tenho que ter também”.
5-Compensação afetiva – Outros namoram para compensar uma estabilidade no relacionamento familiar, muitas vezes um relacionamento conturbado com os pais é um fator decisivo para a busca de “um amor”.
Como sei que “aquela pessoa” é a correta para mim?
Primeiramente devemos esclarecer algumas coisas. Deus não precisa mandar um anjo do céu ou arrebatar alguém ao terceiro céu para mostrar de forma “espiritual” que aquela pessoa é a certa. É claro que tudo que realizamos na vida cristã devemos fazer na dependência de Deus e lhe pedir a direção para nossas decisões, mas, as evidências iniciais da aprovação de Deus para um relacionamento entre duas pessoas é:
1-A Fé comum – O pretendente ou a pretendente deve ser um cristão regenerado, uma pessoa que produz frutos de justiça, que tem um compromisso evidente com Deus e com sua igreja.
2-O Amor – Os dois devem gostar-se, deve existir uma atração sadia entre ambos. Devem ser agradáveis um ao outro e sentirem amor. Esse amor não está relacionado meramente a uma atração física, mas, a vontade de casar e construir um lar juntos.
3-A Perspectiva para o futuro – Como foi dito antes, uma pessoa não deve estar de olho no dinheiro da outra, e daí estabelecer um relacionamento. Com isso não estamos descartando a importância de um planejamento do casal que futuramente irá unir-se através do casamento. Eles devem ter planos para o futuro e lutarem para alcançar seus objetivos. Vemos muitas pessoas que se casaram com pessoas que não tinham perspectivas e que hoje sofrem no casamento porque não observaram isso durante o tempo de namoro.
4-A Pureza do casal – Vivemos dias de libertinagem e liberalidade sexual em que os padrões cristãos têm sido desprezados. A Bíblia ensina a castidade, e que o sexo é uma bênção de Deus única e exclusivamente dada para o casamento. Um casal de namorados que professam a fé em Jesus e mantem relações sexuais está em pecado contra Deus e sua palavra. E o fato da pureza não está unicamente atrelado as relações sexuais, mas, também a atos libidinosos como beijos indecentes e caricias que promovam a lascívia. Outro fato que precisamos pontuar é a responsabilidade que o casal que namora tem diante de Deus, da família, da igreja e da sociedade como cristãos. A sensualidade, atos libidinosos fora do casamento também são um desvio do propósito de Deus para o sexo, isso é resguardado para o casamento.
Alguns Conselhos
Ao contrário do que muitos tem defendido, a Bíblia exige santidade dos crentes e santidade em seus relacionamentos. A Bíblia nos ensina a vivermos de forma que Deus seja glorificado, o namoro também deve ser um instrumento para glória de Deus, é um período de conhecimento entre duas pessoas, é o momento que os dois se examinam e se descobrem no que se refere ao caráter, à fé, a vida comum em família, como o outro é com os amigos e quais são seus amigos. Esses fatores são muito importantes para um futuro casamento. O namoro cristão não deve ser uma loja em que quando não se gosta de um, compra-se outro. Tenha um namoro abençoado por Deus, mas, escolha uma pessoa santa, temente a Deus. Para as moças, observem se o jovem é esforçado, estudioso, trabalhador, que se ele ama a Deus acima de todas as coisas. Para os rapazes, observem se a jovem é uma mulher pura, temente a Deus, se ama a Deus e sua palavra e deseja construir uma família, observe se ela tem comportamentos libidinosos e gosta de ser sensual, isso é um fator negativo para o futuro casamento. Como frisamos, a sensualidade deve ser restrita ao casamento. Deus deseja o bem de seus filhos e lhes deu capacidade para tomarem as decisões corretas. Pense nisso!

24 de nov. de 2014

A Ceia do Senhor

Por James Boice 

O segundo dos sacramentos protestantes é a Ceia do Senhor, que Jesus instituiu na noite anterior à sua crucificação. Este acontecimento está registrado em cada um dos evangelhos sinópticos (Mt 25:17-30; Mc 14:12-26; Lc 22:7-23), porém o melhor relato e o mais completo, encontramos em I Coríntios em uma passagem em que Paulo está procura corrigir alguns abusos que os crentes estão praticando na igreja de Corinto durante a Ceia do Senhor. A passagem é a seguinte:

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice” (I Co 11:23-28).

A Ceia do senhor é similar ao batismo, pois possui todos os elementos de um sacramento. Porém se diferencia do batismo visto que o batismo é um sacramento de iniciação (é o testemunho de uma identificação primária com Cristo, identificação sem a qual não é possível se ser cristão), enquanto que a Ceia do Senhor é um sacramento contínuo que deve ser observado vez após vez (“Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice”) no transcurso da vida cristã. Esta natureza da ceia do Senhor se vê em seu significado passado, presente e futuro.

O significado passado

Este significado passado da Ceia do Senhor claramente é resultante do uso da palavra “memória”. Na Ceia do Senhor olhamos até o passado, até a morte do Senhor. Antes de tudo, recordamos Seu sacrifício expiatório como nosso substituto. O pão partido representa o corpo partido de nosso Senhor, e o vinho, representa Seu sangue derramado. A expiação está relacionada com nosso ser que agora está bem com Deus. A substituição significa que a expiação foi conseguida pela morte de um outro em nosso lugar.

Por que Jesus morreu? A Bíblia nos ensina que todos que já viveram até hoje são pecadores, pois quebraram a Lei de Deus e o pagamento pelo pecado é a morte. A Bíblia nos diz: “Como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3:10-12). Nos diz: “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6:23). Esta morte não é só física, se bem que o é de fato, mas também é espiritual. A morte implica em uma separação. A morte física é a separação da alma e do espírito do corpo. A morte espiritual é a separa da alma e espírito de Deus. Merecemos esta separação como uma conseqüência de nosso pecado. Porém Jesus se converteu em nosso substituto quando experimentou a morte física e espiritual em nosso lugar.

Uma ilustração viva deste princípio vemos nos primeiros capítulos de Gênesis. Adão e Eva haviam pecado e tinham agora medo de suas conseqüências. Deus os havia advertido dizendo: “E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2:16-17). É possível que tivessem uma idéia muito clara do que significava a morte, porém sabiam que deveria tratar-se de algo muito sério. Em conseqüência, quando pecaram por sua desobediência, e logo escutaram a voz de Deus que se aproximava no jardim, tentaram se esconder.

Porém ninguém pode se esconder de Deus. Deus lhes falou e chamou para que saíssem de seu esconderijo e começou a tratar a sua transgressão. Que deveríamos esperar que sucedesse como resultado dessa confrontação? Aqui está Deus que havia dito aos nossos primeiros pais que no dia que pecassem nesse dia morreriam. Aqui estão Adão e Eva caídos em pecado. Dadas as circunstâncias, cabia esperar a execução imediata da sentença de Deus. Se Deus os houvesse matado nesse mesmo momento, tanto física como espiritualmente, colocando-os fora de Sua presença para sempre, haveria feito o que era justo.

Mas não foi isto que sucedeu. Ao contrário, Deus primeiro os admoestou por haverem pecado e logo ofereceu um sacrifício. Como resultado, Adão e Eva foram vestidos com pele de animais mortos. Foi a primeira morte que alguém já presenciou. Foi Deus que realizou. Enquanto Adão e Eva presenciavam, deviam estar aterrorizados. No entanto, enquanto se escandalizavam pelo sacrifício, ao mesmo tempo estavam maravilhados. Porque o que Deus lhes mostrava era que era embora merecessem morrer, no caso destes animais, eles morreram em lugar deles. Os animais pagaram o preço do seu pecado e eles foram revestidos com as peles dos animais como recordação do fato.

Este é o significado da substituição. É a morte de um em lugar de outro. No entanto, devemos dizer que segundo o ensino da Bíblia, a morte de animais nunca pode pagar o castigo do pecado (Hb 10:4). Este acontecimento era só um símbolo sobre como o pecado haveria de ser pago. O sacrifício real foi realizado por Jesus Cristo, e isso vemos no culto quando é celebrada a Ceia.

Também olhamos para trás e vemos algo que Jesus sugeriu quando falou do vinho: “o sangue da aliança” (Mc 14:24) e “da nova aliança no meu sangue” (1 Co 11:25). Olhamos até trás para essa vitória em cuja base Deus tem estabelecido uma nova aliança de salvação com seu povo redimido. Um pacto é uma promessa solene confirmada por um juramento ou um sinal. Foi assim quando Cristo falou do cálice como comemorando comemoração de um novo pacto. Ele estava sinalizando para as promessas de salvação que Deus nos havia feito sobre a base da Sua morte. Isso nos vem unicamente por sua graça.

O Significado Presente

A Ceia do Senhor tem um significado presente. Primeiro, o sacramento é algo que participamos repetidas vezes, recordando a morte do Senhor repetidas vezes até que Ele venha. Segundo, é uma oportunidade para examinar nossas vidas à luz de nossa profissão de fé em sua morte. Paulo disse: “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (1 Co 11:28-29).

No centro do significado presente da Ceia do Senhor está nossa comunhão em Cristo. Daí a expressão: “Culto de Comunhão”. Ao participar deste culto o crente crê que vai encontrar-se com Cristo e ter comunhão com Ele porque está sendo convidado por Ele. O exame tem lugar porque seria uma hipocrisia aparentar estar em comunhão com o Santo e manter algum pecado em nossos corações.

O modo como Jesus está presente no culto de Comunhão tem sido tema de controvérsias e divisões na igreja cristã. Há três teorias. A primeira delas é que Jesus não está presente, pelo menos não está mais presente da forma como está presente em todo lugar. Para quem sustenta este ponto de vista, a Ceia do Senhor tem exclusivamente um caráter recordatório. É só um memorial da morte de Cristo. A segunda teoria é a sustentada pela Igreja Católica Romana. Segundo esta teoria se supõe que o corpo e o sangue de Cristo estão literalmente presentes sob a forma de pão e vinho. Antes da missa os elementos são simplesmente pão e vinho. Porém durante a missa, mediante as administrações que realiza o sacerdote, estes elementos são modificados para que, ainda que os adoradores percebam apenas o pão e o vinho, estão sem dúvida comendo e bebendo o corpo e sangue de Jesus. Este processo chama-se transubstanciação. A terceira teoria, a que sustentava João Calvino em particular e outros reformadores, é que Cristo está presente no culto de Comunhão, porém espiritualmente e não fisicamente. Calvino chamou a isto de “a presença real” para indicar que uma presença espiritual é tão real como uma presença física.

Que temos de pensar sobre estas teorias? Para começar devemos dizer que não pode haver nenhuma oposição à teoria recordatória, já que é correta. A questão é se há algo mais envolvido além da memória., além da lembrança, apenas. A divisão fundamental consiste entre as posições da maioria dos reformadores e a doutrina da Igreja Católica Romana. Os que estão a favor de uma presença física, literal (e Lutero foi um deles, se bem que não aceitou a doutrina da transubstaciação) argumentam que esta é a interpretação literal das palavras de Cristo “Este é o meu corpo” (Mc 14:22). Porém isto não é suficiente para elucidar este assunto, porque ditas expressões ocorrem com freqüência na Bíblia em sentido evidentemente figurativo ou como representação de outra coisa. Por exemplo:

“As sete vacas são sete anos” (Gn 41:26)
“Tu eras a cabeça de ouro” (Dn 2:38)
“O campo é o mundo” (Mt 13:38)
“A Rocha era Cristo” (1 Co 10:4)
“Os sete candeeiros são as sete igreja” (Ap 1:20)
“Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10:7)
“Eu sou a videira verdadeira” (Jo 15:1)

Que Jesus estava usando uma linguagem figurada e não realizando um milagre de transubstanciação se evidencia do fato de que seu corpo estava presente enquanto falava a seus discípulos. Agora, seu corpo ressuscitado está no céu.

Um motivo para tomar a presença de Cristo no sacramento como sendo uma presença espiritual é que este é o sentido em que se deve entender cada uma das promessas sobre a presença de Cristo conosco nesta época em que vivemos. Bannerman escreveu:

“As promessas tais como ‘Eis que estou convosco até o fim do mundo’; ‘Onde estiver dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles’; ‘Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei a ele e cearei com ele e ele comigo’; e outras similares, dão pé para afirmar que Cristo mediante seu Espírito, está presente nas práticas de fé do crente transmitindo sua bênção e sua graça espiritual. Porém não há nada que nos leva a fazer uma diferença ou distinção entre a presença de Cristo na Ceia e a presença de Cristo em outras práticas, no que diz respeito a dita presença. A eficácia da presença do Salvador pode ser diferente no modo de distribuir mais ou menos graça salvadora, de acordo com a natureza da prática, e a medida da fé do crente. Porém a forma que assume a dita presença é a mesma, sendo realizada mediante o Espírito de Cristo e a fé do crente”.

Há alguns versículos muito conhecidos no capítulo 6 de João que também nos falam sobre a fé em Cristo e sobre nos alimentamos espiritualmente dele, se bem que não falem literalmente sobre a Ceia do Senhor, já que dito sacramento não havia sido instituído. “Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6:53-55).

Se desejamos sinônimos para “comer” e “beber”, os encontramos em João 6 na idéia de crer (vs. 29, 35, 47), vir (v. 35), ver (v. 40), escutar e aprender dele (v 45). Todos estão indicando uma resposta a Jesus. Os termos comer e beber enfatizam que esta alimentação tem de ser por uma fé tão real como comer literalmente.

O Significado Futuro

O terceiro significado da Ceia do Senhor é futuro. Paulo disse: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1 Co 11:26). O Senhor sugeriu o mesmo quando lhe disse a seus discípulos que estavam comendo a última ceia com ele: “Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus” (Mc 14:25).

Falamos sobre a presença real do Senhor Jesus Cristo no culto tal como o conhecemos agora e buscamos responder a seu chamado e servi-lo. Estamos prontos a admitir que há momentos em que isto é difícil e parece ser como que o Senhor não está presente. E seja por causa do pecado, da fadiga ou simplesmente por falta de fé, Jesus as vezes parece estar distante. Mesmo que continuemos em nossa vida cristã e no serviço, anelamos esse dia em que o veremos face a face e seremos como Ele (1 Jo 3:2). O culto de Comunhão serve para lembrarmos esse dia. É um vislumbre da grande ceia matrimonial do Cordeiro. É para nos animarmos na fé e para nos impulsionar cada vez mais alto na santidade.
                                                                  

Francis Schaeffer: "Levando Cativo todo o Pensamento"

Por Franklin Ferreira

A crença prevalecente na segunda metade do século 20 é que o homem está morto — e o próprio Deus também morreu. A vida se tornou uma existência sem significado, e o homem não passa de uma roda na engrenagem cósmica. O único escape passa por um mundo de vazio existencial, drogas, absurdo, pornografia e loucura. Mas, a responsabilidade da igreja não é apenas confessar as doutrinas básicas da fé cristã — é seu dever comunicar essas verdades à sua geração.

Cada geração de cristãos se defronta com o problema de aprender como falar ao seu tempo. É um problema que não se pode resolver sem o entendimento do tempo presente, em constante mudança, com que a igreja também se defronta. Para que consigamos comunicar a fé cristã de modo eficiente, portanto, temos de conhecer e entender o pensamento da nossa geração.

Francis Schaeffer foi um dos principais pensadores evangélicos contemporâneos que procurou compreender a cultura secular.

Compromisso com as Escrituras

Francis August Schaeffer nasceu em 30 de janeiro de 1912, em Germantown, Pensilvânia, nos Estados Unidos. Em 1930, ele se tornou cristão, depois de ler a Bíblia por aproximadamente seis meses, começando em Gênesis. Casou-se com Edith Sevilha, em 26 de julho de 1935 — Edith nascera na China, em 3 de novembro de 1914, filha de missionários presbiterianos. Ela afirmou depois que, se alguém quisesse saber por que Schaeffer se preocupa tanto com a Bíblia, bastaria saber que ele, aos 17 anos de idade, com toda a sua sede de respostas aos questionamentos da vida, começou a descobrir, por si mesmo, respostas adequadas e completas diretamente na Bíblia.

Em setembro de 1937, Schaeffer entrou no Seminário Teológico Westminster, ligado à igreja presbiteriana ortodoxa, sendo profundamente influenciado pelos escritos de J. Gresham Machen, Cornélius Van Til, Herman Dooyeweerd e Hans Rookmaaker. Schaeffer recebeu a graduação no Seminário Teológico Faith, que ele tinha ajudado a fundar, depois de uma divisão no Westminster, em 1937. Nesse seminário, ele foi bastante influenciado por Allan MacRae. Foi ordenado em 1938, como pastor da Igreja Presbiteriana Bíblica, e serviu como pastor na Pensilvânia e no Missouri durante dez anos.

Durante três meses, em 1947, a família Schaeffer viajou pela Europa, para avaliar o estado da igreja por lá, como representantes da Junta Independente para Missões Estrangeiras Presbiterianas. Em 1948, Schaeffer se mudou para Lausanne, na Suíça, com Edith e suas três filhas, para serem missionários. O trabalho deles era principalmente de evangelização de crianças. Em 1949, eles se mudaram para o Chalé les Frênes, na aldeia montanhosa de Champéry, na Suíça.

No inverno de 1951, Schaeffer entrou numa profunda crise espiritual. Nesse período, ele reconheceu que algo estava bastante errado e buscou reconsiderar com muito cuidado seu compromisso cristão e as prioridades em sua vida. Ele emergiu dessa experiência — que chamou de "um pequeno vislumbre da glória de Deus" — com uma nova certeza sobre sua fé, uma nova ênfase na santificação e na obra do Espírito Santo, e uma nova direção para sua vida, que se desdobraria durante os próximos quatro anos.

Entre 1953 e 1954, eles viajaram pela região rural dos Estados Unidos, falando sobre espiritualidade cristã — foram mais de 300 palestras ao longo de 500 dias. Durante esse tempo, Schaeffer apresentou as ideias que cresceram durante sua crise espiritual e que depois se tornaram o fundamento para seu importante livro, Verdadeira espiritualidade. Em 1954, eles retornaram a Champéry, na Suíça. Nesse mesmo ano, Schaeffer se uniu à Igreja Presbiteriana Reformada, uma pequena denominação presbiteriana já existente. E em 1956 foi fundado o Seminário Teológico Covenant — onde, desde 1989, funciona o Francis Schaeffer Institute, que em meados de 1990 contava com mais de 500 alunos.

Missionários na Europa

Em abril de 1955, a família Schaeffer (com mais um filho) se mudou, então, para o Chalé lês Mélèzes, em Huémoz, nos Alpes da Suíça, depois de receber o dinheiro necessário para comprar essa propriedade, numa série de circunstâncias milagrosas — isso marcou o começo informal da comunidade L’Abri (que significa refúgio, em francês).

O vilarejo situa-se a mil metros acima do vale do Rhône, na estrada que vai a um famoso centro de esqui. Na maioria, as pessoas que iam para L’Abri estavam descontentes com suas idéias e buscavam respostas reais às próprias indagações. Havia também muitos evangélicos que iam para lá com o desejo de ter mais influência como cristãos na segunda metade do século 20. Em L’Abri viviam jovens de todas as nacionalidades: japoneses, holandeses, africanos, alemães, indianos, ingleses, sul-africanos, americanos, sul-coreanos e muitos outros. Havia também ateus, agnósticos, existencialistas, além de hindus, judeus praticantes e não praticantes, católicos, protestantes liberais, budistas e todos aqueles que receberam influências do relativismo moderno. Como Schaeffer disse:

Edith e eu nos dedicamos a Deus com um propósito. Não desejávamos iniciar um ministério evangelístico, [tampouco] um ministério entre jovens, ou para intelectuais ou na área de dependentes de drogas. Nós simplesmente nos oferecemos a Deus e pedimos que ele nos usasse para demonstrar que ele continua existindo na nossa geração. Isso é tudo que o L'Abri representa; foi assim que tudo começou.

Em 1968, foi publicado O Deus que intervém, o primeiro dos 23 livros de Schaeffer, baseado em conferências realizadas no Wheaton Collège, nos Estados Unidos, em 1965. Nesse livro, Schaeffer expôs o vazio do pensamento secular e da moderna teologia, mas, muito mais do que isso, ofereceu a esperança de que o homem pode encontrar de novo sua verdadeira personalidade e propósito, se voltar à Palavra vivificadora que Deus nos revelou nas Escrituras. Ainda em 1968, foi lançada A morte da razão. Nessa obra, Schaeffer ofereceu um panorama de como a arte e a filosofia têm sido o espelho do dualismo existente no pensamento ocidental desde o Renascimento. Hoje, esse dualismo se expressa no desespero que o homem sente diante do racional, na sua fuga para um mundo irracional e místico, que é o único que, aparentemente, oferece alguma esperança. Tal tendência pode ser vista na literatura, na arte e na música, no teatro e no cinema, na televisão e na cultura popular. Nas palavras de Schaeffer: "Hoje toda a nossa geração está presa ao irracionalismo, visto ter-se afastado do ensino da Palavra de Deus". Em 1970, foi lançada A igreja do final do século vinte, obra onde Schaeffer buscou descrever o ambiente social no qual a igreja se encontrava.

Francis e Edith Schaeffer realizaram, em janeiro de 1977, uma série de seminários em 22 cidades nos Estados Unidos, e nesse mesmo ano Francis ajudou a fundar o Concílio Internacional sobre a Inerrância Bíblica, proferindo a palestra "Deus dá ao seu povo uma segunda oportunidade". O testemunho claro dos evangélicos reunidos no concílio foi que a doutrina da inerrância é a posição cristã histórica, afirmando que as Escrituras são a Palavra de Deus, sem erro, em todas as áreas que menciona. Ele disse em outro texto:

"É preciso que a Bíblia seja considerada a Palavra de Deus, em tudo o que ela ensina — tanto em questões de salvação quanto de história e ciência e moralidade. E, se for fraca em qualquer uma dessas áreas, o que infelizmente se aplica a muitos que se chamam evangélicos, estaremos destruindo o poder da Palavra de Deus e colocando-nos a nós mesmos nas mãos do inimigo."

Em outubro de 1978, foi diagnosticado um câncer em Francis Schaeffer, pela clínica Mayo, em Rochester, Minnesota. Em dezembro de 1983, Schaeffer viajou em condições críticas de saúde, da Suíça para a clínica Mayo. Ele pregou, numa última excursão, em dez faculdades cristãs, durante março e abril de 1984, morrendo em sua casa, em Rochester, Minnesota, em 15 de maio. No leito de morte, ele fez esta oração final: "Querido Deus Pai, eu terminei meu trabalho. Por favor, leve-me para casa. Estou cansado".

Em 1985, foi publicado postumamente o Manifesto cristão, onde Schaeffer buscou apontar direções para uma postura política equilibrada, centrada na Palavra de Deus.

Um novo modelo de defesa da fé

Cornélius Van Til foi o grande responsável pela tentativa de mudar o foco do debate com pensadores não-cristãos sobre a existência de Deus e a validade das reivindicações cristãs, focalizando-o na viabilidade e na coerência das posições não-cristãs. Ele argumentou que o pensamento não-cristão não consegue responder aos problemas fundamentais da vida e da filosofia, e que toda filosofia não-cristã não passa de uma tentativa de fugir de Deus. Van Til era um apologista proposicional. Essa abordagem reconhece que nenhum fato, histórico ou não, pode ser interpretado de maneira coerente sem pressupor a fé no Deus trino — infinito e pessoal —, como revelado na Escritura.

Por exemplo, ao lermos as Escrituras avançamos a partir das pressuposições reveladas na Escritura, através das proposições das Escrituras até as conclusões da Escritura. Isso não é neutro nem objetivo. Mas, metodologicamente, não podemos esperar que sequer entendamos, e muito menos que aceitemos a mensagem da Escritura se impusermos pressuposições estranhas a ela. Devemos, portanto, permitir que nosso pensamento, pelo menos temporariamente, seja moldado pelas pressuposições da Escritura, a fim de entendê-la.

Colin Brown considera que existem lacunas no pensamento de Van Til. Mas que, mesmo assim, ele deu passos importantes em direção a uma apreciação filosófica da religião bíblica. Sua discussão de pressupostos e sua lembrança de que os homens não precisam da comprovação da existência de Deus, por já terem consciência dele, são de máxima importância.

Schaeffer, que em grande medida estava seguindo Van Til, procurou demonstrar a necessidade de pressupor a existência e a realidade de Deus, visto que negar sua existência significa negar tudo o que é verdadeiro e significativo. Como ele disse: "Portanto, para nós agora, mais que em qualquer época, a apologética pressuposicional é imperativa". Ele argumentou que os não-cristãos não vivem — e não podem viver — de modo inteiramente coerente com suas pressuposições ateístas, que são inadequadas para justificar a existência humana. Somente o cristianismo "pode ser vivido [coerentemente], tanto na vida cotidiana como na busca da erudição". Ele entendia que nenhum fato é auto-evidente: todos os fatos são interpretados e podem ser entendidos de modo adequado apenas no contexto de uma cosmovisão. O papel da não-contradição também foi enfatizado, já que ele faz parte da imagem de Deus com a qual fomos criados. Ele acreditava que as pessoas procuravam uma fuga da razão. Como consequência, todas as cosmovisões não-cristãs são incoerentes.

O seguinte incidente ilustra esse modelo apologético: certo dia, Schaeffer estava conversando com um pequeno grupo de estudantes no quarto de um aluno sul-africano, na Universidade de Cambridge, quando um jovem hindu começou a atacar veementemente o cristianismo, sem, no entanto, "entender os problemas reais relacionados às suas próprias convicções". Schaeffer voltou-se para o estudante indiano e disse: "Não é verdade que, se admitirmos o seu sistema, não fará nenhuma diferença, em última instância, se sou ou não sou cruel, pois não há diferença essencial entre as duas?". O estudante concordou que isso era verdade. Os outros alunos ficaram chocados com essa ideia. Mas o aluno em cujo quarto eles estavam reunidos pensou rápido; pegou uma chaleira com água fervendo e inclinou-a, de forma ameaçadora, sobre a cabeça do estudante indiano. Quando o hindu quis saber o que ele pensava estar fazendo, o estudante simplesmente respondeu: "Não há diferença entre crueldade e não-crueldade". Em silêncio, o jovem hindu se levantou e saiu do quarto.

Todas as pessoas têm alguma consciência de Deus (Rm 1.18-32). Como Schaeffer disse: "Toda pessoa com quem falamos, seja a balconista ou o universitário, tem um conjunto de pressuposições, quer os tenha analisado ou não". Consequentemente, quando evangelizamos, podemos saber que, no fundo do coração, eles têm consciência da existência de Deus. Não existem ateus genuínos, pois os que assim se dizem desejam convencer-se de que Deus não existe.

Tanto para Van Til como para Schaeffer, a apologética começa no momento em que o incrédulo levanta objeções e dúvidas à palavra pregada. O apologista deve responder e refutar as objeções com amor e erudição, primeiro para dar respostas honestas às dúvidas do incrédulo, e, segundo, para evitar que elas atrapalhem a fé dos cristãos. Contanto que as dúvidas do incrédulo sejam sinceras e honestas, deve-se responder. Os dois usavam a apologética para mostrar ao incrédulo que a sua vida sem Cristo é irracional e sem sentido e que ele deve entregar-se a Jesus. Quando as objeções do não-crente se tornam obstinadas e insinceras — quando ele não quer respostas de verdade, mas usa as objeções como desculpa para fugir da verdade —, é melhor terminar a discussão e deixá-lo com o comando de Deus para se arrepender e crer no evangelho. Não obstante, mesmo nesse caso, é bom refutar os argumentos do incrédulo para benefício do povo de Deus, para que não permaneça nenhuma dúvida quanto ao fato de que o cristianismo é a única opção que não destrói toda racionalidade e significado da vida do ser humano.

Ser cristão no final do século 20

Francis Schaeffer teve uma compreensão especial da mentalidade do século 20, identificando-se com as pessoas influenciadas por tal mentalidade. Ele buscou demonstrar como as novas filosofias e teologias se encaixavam na complexa história do pensamento e da cultura moderna. Em outras palavras, ele buscou oferecer uma visão panorâmica do pensamento ocidental e oriental, e em como ele afetava o pensamento cristão e não-cristão. Isso era algo que poucos evangélicos faziam: explicar as respostas que a fé cristã oferece aos maiores dilemas do homem.

A grande força do pensamento de Schaeffer é que não foi produzido num gabinete de estudos, mas durante uma constante exposição às dúvidas e perplexidades de indivíduos provenientes dos mais variados meios. J. I. Packer lhe rendeu o seguinte tributo:

"Que importância terá Schaeffer para a causa cristã a longo prazo? [...] Meu palpite é que os seus esboços verbais e visuais, que me parecem simples porém brilhantes, sobreviverão a tudo o mais, mas eu posso estar enganado. O que é certo para mim, entretanto, é que eu não estaria totalmente errado em homenagear Francis Schaeffer, o pequeno pastor presbiteriano [...], como um dos verdadeiramente grandes cristãos do meu tempo."
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