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14 de set. de 2016

9 Marcas de um Presbitério Saudável

Por Sinclair Ferguson[1]

Quero fornecer 9 marcas de um presbitério saudável. Presbíteros podem avançar ou retardar a saúde espiritual de uma congregação. A seleção deles, portanto, é vital. Os poucos comentários abaixo são limitados à questão: Como reconhecer quem deveria servir como presbítero?

1. Ao passo que nos arrependeremos de colocarmos a medida abaixo dos padrões das Escrituras em reconhecer homens chamados para o presbitério, podemos também, em nosso zelo, coloca-la artificialmente acima das Escrituras, e falharmos em reconhecer que alguns dos melhores dons crescem no ministério.

2. Lembre-se especialmente que “estar apto para ensinar” (1Timóteo 3.3), com seu corolário de ser apto para “repreender” (Tito 1.9, isto é, usar as Escrituras para os fins aos quais são dadas, 2Timóteo 3.15-16) não especifica a arena. Alguns que são “aptos para ensinar” não se encaixam na pregação pública regular.

3. Busque homens que exibam o espírito, assim como o apego intelectual, da doutrina saudável. Ortodoxia com aproximação é uma grande aspiração em um presbítero (aproximação como o sentido mínimo de “hospitalidade”, Tito 1.8).

4. Exponha a questão mais negligenciada – “Os de fora pensam bem dele?” (1Timóteo 3.7) – e pondere por que essa questão é importante.

5. Escolha aqueles que já estão “entre” o rebanho e o rebanho “entre” eles (1Pedro 5.2). Tendo conhecido as qualificações morais, domésticas, ocupacionais e didáticas, pergunte: “Esse homem ama o rebanho e é amado por ele?”. O comprometimento para com a oração corporativa é geralmente o papel de tornassol.[2]

6. Evite apontar aqueles que se comprometeriam a amar o rebanho se eles fossem chamados para ser presbíteros. É bem melhor ter homens que amam as ovelhas do que homens que amam serem pastores.

7. Procure por homens que são simultaneamente gentis, mas preparados para serem corajosos e preparados para sofrer se necessário – colocar-se na frente para proteger, como também se colocar atrás para seguir! Um presbítero deve ser capaz tanto da repreensão bíblica quanto da restauração gentil (Gálatas 6.2). Homens quietos, com corações quietos, são dignos do seu peso em ouro e podem nos surpreender por sua sabedoria.

8. Faça a pergunta: “Nossa igreja teria vontade, se necessário, de pagar a esse homem um salário para trabalhar entre nós como um presbítero?”. A resposta pode dizer muitas coisas sobre seu ministério no rebanho e a estima que ele tem diante dos olhos deles.

9. Considere quão bem a vida de um homem ecoa os princípios do pastoreio do Senhor no Salmo 23.

***
[1] Esse texto é parte de um fórum, onde diferentes pastores compartilham suas experiências na escolha de seus presbíteros. Você pode ler o fórum completo no excelente blog Voltemos Ao Evangelho

[2] papel de tornassol é um teste feito para diferenciação das propriedades de acidez de um composto químico.

28 de fev. de 2015

A Fé como um dom

Por Sinclair Ferguson

Isso é ainda mais enfatizado no Novo Testamento pelo fato de a fé ser um fruto do ministério do Espírito e ser vista no Novo Testamento como um dom de Deus. Aqui, também, há uma evidente tensão entre a atividade do Espírito e a resposta humana. Paulo provê para nós uma importante perspectiva neste aspecto, delineando uma analogia ulterior entre crer e sofrer: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo, e não somente de crerdes nele” (Fp 1.29). O sofrimento, como a fé, é um dom da graça na experiência cristã. Mas o dom do sofrimento não nos é dado convenientemente como um fait accompli. Quem sofre somos nós, não Deus. Não obstante, esse sofrimento é um dom procedente dele. De uma forma paralela, a fé não é um pacote posto em nossas mãos. É a atividade do homem como um todo, direcionada pelo Espírito para Cristo. Deus não crê por nós, nem em nós; nós é que cremos. Todavia, é somente pela graça de Deus que cremos. Seu dom é simultaneamente ato nosso.

O texto clássico em relação a isso é Efésios 2.8: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”. Há aqui um problema exegético bem notório: qual é o antecedente de “isto”, e, portanto, o que exatamente constitui o dom?

Para o leitor casual, “fé” se lê como o antecedente natural (é o antecedente imediato). Mas “isto” (touto) é neutro, enquanto ambos os antecedentes prévios são femininos (charis, “graça”, e pistis, “fé”); assim também “salvação” (soteria), que pode ser entendida como o antecedente não escrito: “e isto (ou seja, a salvação) não vem...”.

É um princípio há muito reconhecido que em linguagens onde o gênero gramatical de um pronome não pode concordar com o gênero do próprio antecedente, também não pode concordar com o gênero da palavra que o denota.[1] Neste contexto específico, visto que tanto pistis como charis não são gênero neutro, tampouco podem servir de antecedentes.

Três considerações sugerem que o antecedente (ou seja, a coisa que é o dom de Deus) é a fé (pistis).

(1) Ela é o antecedente imediato e, portanto, o mais natural.
(2) Seria uma tautologia não usual (porém admissivelmente não impossível, como Rm 2.24 e 5.15 indicam) falar da graça como um dom de Deus, já que, por definição, a graça é um dom de Deus.
(3) Ela fornece uma redação coerente do pensamento padrão de Paulo, o qual pode ser parafraseado assim:

Deus nos vivificou – pela graça sois salvos (2.5).
Deus nos ressuscitou – para mostrar sua graça (2.6-7).
E é deveras pela graça que tendes sido salvos (2.8)!
Esta graça, porém, não só não nos envolve como também ignora nossa ação
(a salvação é pela fé, ou seja, envolve nossa resposta ativa).
Não obstante, esta  ativa, de nossa parte, não prejudica a graça.
Pois até mesmo a capacidade de crer não é nossa independentemente.
A fé (também) é o dom de Deus.
Portanto: a salvação que é pela graça é também pela fé.
Mas, como agora se torna claro, esta salvação,
embora recebida por nossa ação (fé),
não é desse modo “pelas obras”.
Ela envolve nossa atividade,
mas não deixa espaço para nossa vanglória (2.9).
Daí:
a salvação não é obra nossa;
ao contrário, somos feitura de Deus (2.10).

Mesmo que adotemos o ponto de vista de que “ser salvo através da fé” é que forma o antecedente (ponto de vista favorecido por Calvino e outros), haveria ainda um indício de que a fé é um dom da graça. Que a fé, em qualquer caso, é vista por Paulo como um dom, é confirmado em Efésios 6.23, quando ele ora pela “fé, da parte de Deus o Pai e do Senhor Jesus Cristo”. Haveria pouca importância orar pelo que procede do Pai e do Filho, a menos que a fé seja, em algum sentido, conferida por eles. Semelhantemente, Pedro se refere aos crentes como quem “obtiveram fé igualmente preciosa na justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 1.1), o que parece ser uma referência ao conteúdo da fé (fides quae creditur), não do ato (fides qua creditur). Além do mais, no Novo Testamento, o arrependimento (do qual a fé é inseparável) é visto como um dom (At 5.31; 11.18; 2Tm 2.25); não surpreende, pois, se a fé é também vista como um dom da graça. Aqui, pois, se dá prioridade à soberania divina (ela é o sine qua non da fé) sem minimizar a realidade e a significação da atividade dos crentes.

Além do mais, o exercício ativo da fé (quem crê somos nós, não Deus) não compromete a graça da obra do Espírito na implicação da salvação. É da natureza da fé que por meio dela recebamos ativamente a Cristo e a justificação nele, sem contribuir para isso. Acima de tudo, fé é confiança em outro. É a antítese de toda autocontribuição e autoconfiança.

Paulo faz alusão a isso quando diz que a promessa da salvação é pela fé para que a mesma pudesse ser pela graça e ser garantida aos crentes (Rm 4.16). Fé envolve graça sem transformar a salvação em mérito humano.

Warfield expressa isso de um modo pitoresco, quando diz:

O poder salvífico da fé reside, portanto, não nela mesma, mas no Onipotente Salvador em quem ela repousa. Nunca, na Escritura, por causa de sua natureza formal como um ato psíquico, se concebe a fé como sendo salvífica – como se essa disposição mental ou a atitude do coração fosse em si mesma uma virtude que reivindicasse de Deus sua recompensa ... Não é a fé que salva, mas a fé em Jesus Cristo... Estritamente falando, não é nem mesmo a fé em Cristo que salva, mas é Cristo quem salva pela instrumentalidade da fé. [2]

Somos salvos por Cristo através da fé. O poder salvífico da fé não reside nela mesma, mas no objeto de sua confiança. Como G. C. Berkouwer escreve em outra conexão: “A fé não possui um único momento construtivo e criativo; ela repousa única e exclusivamente na realidade da promessa”.[3] Há um envolvimento total do crente; ao mesmo tempo, porém, a graça não é comprometida. O caráter da salvação pela graça é que ela envolve o homem sem prejudicar a gratuidade da salvação recebida. Otto Weber o expressa bem: “A fé, segundo a compreensão bíblica, consiste não em ser o homem excluído, mas em ser o homem envolvido ao máximo”.[4]
__________
Transcrito do livro O Espírito Santo, pp 171-175; Editora Os Puritanos
[1] Cf. Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit, tr. H. De Vries (Nova Iorque: Funk & Wagnalls, 1900), p. 412; Robert E. Countess, “Thank God for the Genitive”, Bulletin of the Evangelical Theological Society 12 (1969), pp. 117-122.
[2] Warfield, op. cit., p. 504.
[3] G. C. Berkouwer, The Sacraments (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1969), p. 147.
[4] Otto Weber, Foundations of Dogmatics, tr. Guder (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1983), vol. 2, p. 147.

22 de dez. de 2014

Cristo Noel?

Por Sinclair Ferguson

Peguei a mão do meu filho pequeno (isso foi há algumas décadas), enquanto caminhávamos até uma loja local numa pequena e remota ilha Escocesa, onde, no início daquele ano, eu tinha sido instalado como pastor. Era semana de Natal. A loja estava bem decorada e um ar de entusiasmo estava em toda a parte.

Sem qualquer aviso, as conversas dos clientes foram interrompidas por uma voz questionadora ao meu lado. Meu filho, levantando o dedo indicador, apontou para um grande desenho do Papai Noel. “Papai, quem é aquele homem de aparência engraçada”, ele perguntou.

Espanto espalhou-se pelos rostos dos compradores, olhares acusadores eram dirigidos a mim. Que vergonha, o filho do pastor não reconheceu o Papai Noel! Qual a probabilidade, então, de ouvir algo bom em sua pregação nessa época festiva?

Essas experiências podem nos fazer chorar ao perceber como o mundo ocidental se dá todos os anos ao Papai Noel e ao comércio. Nós acabamos celebrando uma festa pagã retrabalhada, em que a única ligação com a encarnação é semântica. Noel é adorado, e não o Salvador; peregrinos vão às lojas com cartões de crédito, não para a manjedoura com presentes. É a festa da indulgência, e não da encarnação.

É sempre mais fácil lamentar e criticar o novo paganismo do secularismo idólatra flagrante do que ver a facilidade com que a igreja – e nós mesmos – distorcemos ou diluimos a mensagem da encarnação a fim de satisfazer os nossos próprios gostos. Mas sendo criteriosos, infelizmente, temos várias maneiras comuns em que transformamos o Salvador em uma espécie de Papai Noel.

Cristianismo Papai Noel

Por um lado, em nossa adoração no Natal, podemos envernizar a verdade espantosa da encarnação com uma roupagem visual e auditiva esteticamente agradável. Nós confundimos prazer emocional – ou pior, sentimento – com verdadeira adoração.

Por outro lado, podemos denegrir o nosso Senhor com uma cristologia de papai noel. Infelizmente, é comum a Igreja fabricar um Jesus que é o reflexo do Papai Noel. Ele torna-se um Cristo Noel.

Esse Cristo Noel é, por vezes, um Jesus pelagiano. Como Papai Noel, ele simplesmente pergunta-nos se temos sido bons. Mais exatamente, uma vez que o pressuposto é que todos nós somos naturalmente bons, Cristo Noel pergunta-nos se temos sido “suficientemente bons”. Assim como a ceia de Natal é simplesmente o jantar que realmente merecemos, Jesus torna-se uma espécie de bônus que faz nossa vida ainda melhor. Ele não é visto como o Salvador dos pecadores desamparados.

Ou o Cristo Noel pode ser um Jesus semi-pelagiano – um Jesus um pouco mais sofisticado, que, como o Papai Noel, dá brindes para aqueles que já tenham feito o melhor que podiam! Assim, a mão de Jesus, como o saco do Papai Noel, só abre quando conseguimos dar uma boa resposta  para a pergunta não muito pesada, “Você fez o seu melhor este ano?” A única diferença da teologia medieval aqui é que nós não usamos mais a fraseologia Latina: facere quod in se est (fazer o que se é capaz de fazer por conta própria, ou, na linguagem comum, “Deus ajuda aqueles que se ajudam”).

Ou então, o Cristo Noel pode ser um Jesus místico, que, como Papai Noel, é importante devido às boas experiências que temos quando pensamos sobre ele, independentemente da sua realidade histórica. Realmente não importa se a história é verdadeira ou não, o importante é o espírito do Cristo Noel. Na verdade, seria ruim contar isso para as crianças, mas todos podem fazer o seu próprio Cristo Noel. Contanto que nós tenhamos esse espírito, está tudo bem.

Mas Jesus não pode ser identificado com o Papai Noel. Por mais que ao falarem de Papai Noel as pessoas empreguem uma linguagem religiosa, não se deve confundir isso com a verdade bíblica.

O Cristo do Natal

As Escrituras sistematicamente retiram o verniz que cobre a verdadeira história de Natal. Jesus não veio para aumentar o nosso conforto. Ele não veio para ajudar aqueles que já estavam ajudando a si mesmos ou para preencher a vida com mais experiências agradáveis. Ele veio em uma missão de libertação, para salvar os pecadores, e para isso ele tinha que destruir as obras do Diabo (Mt 1:21; 1 João 3:8b).

Aqueles cujas vidas estavam intimamente ligadas com os acontecimentos do primeiro Natal não acharam seu nascimento uma experiência tranquila e agradável.

Maria e José tiveram suas vidas reviradas de cabeça para baixo.

A noite dos pastores foi assustadoramente interrompida e aquilo mudou a rotina deles.

Os magos enfrentaram todos os tipos de separação e transtorno familiar.
O próprio Senhor Jesus, concebido antes do casamento, nasceu provavelmente em uma caverna, e passaria seus primeiros dias como um refugiado do sanguinário e vingativo Herodes (Mateus 2:13-21).

Há, portanto, um elemento nas narrativas do Evangelho, que salienta que a vinda de Jesus é um evento perturbador das maiores proporções. Tinha que ser assim, pois Ele não veio apenas para acrescentar algo mais à vida, mas para lidar com nossa falência espiritual e com a dívida de nossos pecados. Ele não foi concebido no ventre de Maria para aqueles que fizeram o seu melhor, mas para aqueles que sabem que o melhor que podem fazer é “como trapo imundo” (Isaías 64:6), estão longes de serem bons o suficiente e que, em sua carne não habita nenhum bem (Rm 7:18). Ele não foi enviado para ser a fonte de boas experiências, mas para sofrer as dores do inferno, a fim de ser o nosso Salvador.

Um Natal Cristão

Os cristãos que primeiro comemoraram o nascimento do Salvador viram isso. Natal para eles não foi (ao contrário do que é às vezes erroneamente se diz) simplesmente temperar com pitadas de cristianismo uma festa pagã, a Saturnália romana. Eles fizeram o que mais tarde outros cristãos fariam na marcação Dia da Reforma (que acabou sendo também o Dia das Bruxas), ou seja, comprometendo-se com uma alternativa radical à Saturnália do mundo romano, recusando-se a se encaixar em um molde socialmente aceitável. Eles estavam determinados a fixar a mente, o coração, a vontade e a força exclusivamente no Senhor Jesus Cristo. Não houve confusão no seu pensamento entre o mundo e o evangelho, Saturnália e Natal, Cristo Noel e Jesus Cristo. Eram cidadãos de outro império completamente diferente.

Na verdade, tal era o ultraje evocado por sua devoção a Cristo nessa festa que, durante as perseguições sob o imperador Diocleciano, alguns crentes foram assassinados enquanto se reuniam para celebrar o Natal. Qual foi a sua ofensa grave? A adoração ao verdadeiro Cristo – encarnado, crucificado, ressuscitado, glorificado e prestes a retornar. Eles celebraram a Jesus naquele dia porque Ele se deu completamente por eles, então, queriam dedicar tudo a Jesus.

Numa véspera de Natal na minha adolescência, eu abri um livro que um amigo havia me dado de presente. Eu estava tão emocionado com a doutrina do meu Salvador recém encontrado que comecei a tremer de emoção com o que tinha me dado conta: o mundo não tinha comemorado a Sua vinda, ao contrário, o haviam crucificado.

Isso não deveria causar-nos tremor? O fato de que “eles crucificaram meu Senhor.” Ou será que é verdade apenas em música, não na realidade? Não estamos lá quando o mundo ainda o crucifica em suas próprias maneiras, muitas vezes sutilmente?

A verdade é que, a menos que o significado do que Cristo fez no primeiro Natal nos sacuda, dificilmente podemos dizer que tenhamos entendido o que essa história significa, ou quem ele realmente é.
Não confundamos Jesus Cristo com Papai Noel.
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Fonte: iPródigo.
Traduzido e adaptado por Gustavo Vilela | iPródigo.com | Original aqui