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23 de dez. de 2016

O Exemplo de Amor e Humildade vistos na Encarnação de Cristo

Por Thiago Oliveira*

Introdução

Mesmo em decorrência da celebração do Natal, gostaria de continuar com a exposição de Filipenses que começamos em nossa igreja, dando início ao segundo capítulo, que não por acaso fala sobre a encarnação de Cristo, ou seja, do seu nascimento. Fiquemos atentos à palavra que o Senhor nos entregou e que toda meditação seja orientada pelo Santo Espírito, para que esta palavra se aplique em nossos corações.

A Deus toda glória!

Exposição (Filipenses 2.1-11)

1-4 Se por estarmos em Cristo, nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.

O começo do capítulo 2 dá continuidade ao que foi dito anteriormente, no final no capítulo 1. O apóstolo Paulo continua exortando a igreja em Filipos a permanecer unida. A união fraternal em Cristo é um indicativo de que aquela igreja goza de saúde espiritual, pois, existe uma impossibilidade de se estar em Cristo e viver em desunião com nossos irmãos de fé. A motivação e a exortação em amor para que vivamos em unidade são procedentes do próprio Senhor. Ele encoraja cada crente a viverem as benesses da vida em comunidade, exercitando conjuntamente a fé que temos nele. E o Espírito Santo, que habita dentro de todo aquele que por Deus foi salvo em Cristo Jesus é o condutor da comunhão entre os membros da igreja.

Notem que a Trindade é responsável para que o amor fraterno seja vivenciado. O encorajamento que Cristo oferece para vivermos juntos, somado ao agir do Espírito na Igreja, é o que torna possível a comunhão, isto é, o amor de uns para com os outros. Paulo ainda menciona que este amor deve ser experimentado em profunda afeição e misericórdia. O termo profundo remete as entranhas, algo que os filipenses, por terem uma cultura helênica, conheciam. Nós costumamos dizer que amamos do fundo do coração, os gregos diziam amar do fundo de suas entranhas. Já o termo misericórdia (ou compaixão - como traduz a NVI) remete a nos colocarmos no lugar de outrem e sentir as suas dores e aflições como se fossem nossas dores e nossas aflições.

Então, se estamos em Cristo, como raciocina o apóstolo, devemos ter uma unidade de pensamento e atitude. Pois, estamos ligados no mesmo amor e no mesmo Espírito. Na prática, isso deveria extirpar todo egoísmo e vaidade do meio do povo de Deus. Paulo afirma que o correto é considerar os outros acima de nós mesmos e assim, pautar a nossa vida para não focar apenas na busca das realizações pessoais. Uma vida cristã genuína e saudável é altruísta. O cuidado com o próximo e o interesse do seu bem estar devem ser uma prioridade.

Mas aí vêm os queixumes: “é difícil proceder dessa maneira. Como faremos isso?”. O modelo a quem Paulo vai apelar é o de Cristo, e aqui veremos como que o Senhor dos Senhores se humilhou, e o fez por amar a sua Igreja e zelar por sua unidade.

5-8 Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!

Paulo sempre apela para figura de Cristo ao nos exortar sobre o que devemos fazer. E aqui ele insta para que a nossa atitude seja a mesma do nosso Redentor. Devemos imitá-lo, não na sua tarefa redentiva e vicária, apenas o Cristo foi imbuído com esta missão salvadora. Todavia, devemos imitar o espírito de humildade e abnegação que levaram o Filho de Deus a abrir mão de seu estado de glória para se fazer o servo sofredor que pagaria pelos nossos pecados.

Cristo, nesse maravilhoso texto doutrinário, é apresentado como Deus. Antes de sua encarnação ele já era divino, igual ao Pai, desde a eternidade. A sua forma, isto é, a sua essência, é de um ser não-criado. Na verdade, ele é o Criador de todas as coisas e por meio dele e para ele, tudo subsistindo nele (Cl 1.16-17). Mas, Cristo não se valeu desta condição de uma maneira egoísta. Ele não se apega ao fato de que por ser Deus tinha muitos privilégios para gozar, satisfazendo a si mesmo. O esvaziamento do Filho de Deus, termo usado por Paulo para deixar claro o grande referencial de humildade significa que Cristo abdicou, não de sua essência, mas da glória e dos privilégios correspondentes à sua divindade. Ele se fez servo e assumiu uma forma humana. Não trocou a divindade pela humanidade, mas aderiu a sua natureza divina, uma natureza humana e dentro de um útero se desenvolveu como qualquer criança. Isto é assombrosamente lindo!

Outro fator importante é que Jesus não veio ao mundo como alguém que pertenceu à elite de sua época. Não foi um homem que viveu em palácios e se valeu de poder temporal. Cristo foi pobre, sem ter onde reclinar a cabeça. Nasceu num estábulo que não era dele e nem de sua família terrena. E assim foi até seu sepultamento, quando o túmulo que recebeu seu corpo também era emprestado. Ele veio a este mundo para morrer na cruz, e foi obediente a este plano.

Logo, notemos que tendo todo o direito de desfrutar da sua majestade celestial, servido e venerado pelos anjos, Cristo abre mão desta condição, pois não é egoísta. Para salvar os seus eleitos, Cristo não podia salvar a si mesmo e não experimentar do cálice da ira divina. Ele foi para cruz e se entregou sacrificialmente num ato de amor. Este deve ser o nosso parâmetro ético. Ao invés de nos inflamarmos vaidosamente, devemos nos despojar de tudo que nos torna orgulhosos. Devemos nos esvaziar de nós mesmos, sacrificando o nosso ego. Viver só para si não é a vida que Cristo viveu e nem é a que ele quer que vivamos.

9-11 Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

Após ter se humilhado, Cristo não ficou relegado a uma posição de pobre coitado. Sua breve vida terrena e sua morte considerada vexatória na cruz não consistiram num fim trágico de um homem bom. Cristo não foi derrotado na cruz e o sepulcro não o segurou. O que se seguiu após ter sido crucificado foi a demonstração da maior de todas as vitórias e conquistas. Cristo venceu sobre os principados e potestades e foi exaltado por Deus Pai, colocado acima de tudo e de todos. Seu nome ganha proeminência e toda a humanidade, até mesmo os governantes desta terra, são seus súditos, estando debaixo de seu poderio.

Quando Cristo for visto entre as nuvens, no advento de sua vinda definitiva, todos verão um ser distintamente glorioso. Seu aspecto será inigualavelmente majestoso e diante de toda demonstração visível de seu estado de glória, toda a humanidade se curvará reconhecendo que ele é o soberano Senhor. Alguns farão este reconhecimento para sua própria condenação, pois não creram em sua mensagem e zombaram do Evangelho. Outros - os que foram remidos - professarão com alegria o que já diziam antes pela fé, pois, não apenas falavam, mas viviam como servos do Senhor dos Senhores. Quem tem ouvidos ouça: em Cristo está a salvação para vossas almas! É preciso crer e confessar que ele detém o senhorio de todas as coisas. Se esta confissão não for feita antes de sua vinda, depois dela será feita de todo jeito, mas a aplicação da confissão não será para a vida, será (de maneira justa) para a morte.

Conclusão/Aplicação

Gostaria de concluir, e ao mesmo tempo, aplicar esta mensagem elencando alguns pontos:

1. Em meio a um estilo de vida materialista, buscamos satisfazer os apelos midiáticos e consumistas. E nisso, a vaidade e o orgulho são fisgados pelas propagandas que estimulam a competitividade. Mas será que esta vida esta é conformidade com o que Cristo nos ensinou? O que você tem feito com seus dias? Tem corrido atrás de realizar seus sonhos materiais e esqueceu de que importar-se com o próximo é seu dever como cristão? Cuidado com a ganância, os que ambicionam riquezas caem em muitas tentações e podem se desviar da fé (1 Tm 6.9-10).

2. Ter a atitude de Cristo e ser humilde é algo que precisa ser demonstrado na prática. Quando Paulo afirma que devemos considerar os outros superiores a nós mesmos, isso remete a honrarmos essas pessoas. Ora, você não pode honrar a ninguém de um modo secreto. Você tem demonstrado amor na prática? Tem buscado a auto-glorificação ou busca honrar os outros? Aproveite esse tempo de festas de fim de ano para honrar alguém fazendo-lhe uma visita especial, convidando para cear em sua casa, dando-lhe algum singelo presente ou até mesmo um cartão, externando o quanto essa pessoa é importante para você.

3. Considerando que Jesus Cristo é o Senhor, que possamos conduzir as nossas vidas debaixo de seu senhorio. Como isso pode ser feito? Buscando viver em conformidade com a sua Palavra. E como dito pelo apóstolo Paulo, buscando a unidade fraternal da igreja. Invista seu tempo em estudar a Bíblia, doutrina é importante e toda ela tem sua aplicação prática. Hoje mesmo vimos que Paulo através de um tratado teológico sobre a divindade e a encarnação de Cristo aplicou estas verdades para exortar a igreja a viver em plena união.


4. Agora me direciono aqueles que não professaram a fé em Cristo. Gostaria de dizer que a mensagem foi clara o suficiente para que vocês saibam que quem não crê no Filho de Deus está condenado (Jo 3.18). Dobrem agora, não apenas os vossos joelhos, mas também os vossos corações para que Cristo reine e os salvem da ira vindoura. Se hoje ele nascer dentro de vocês, confessem isso publicamente. Saibam que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. (Ro10.13). Um novo nascimento é uma bela forma de se celebrar o natal. 

_______

* Esse texto foi base do sermão pregado por Thiago Oliveira na igreja em que pastoreia: Ig. Evangélica Livre em Itapuama -PE. 

17 de jun. de 2016

A perigosa interpretação de Mateus 24.36 feita pelo Pr. Marcos Granconato

Por Thiago Oliveira

Recentemente deu-se uma polêmica envolvendo o pastor batista Marcos Granconato, devido a um vídeo em que o mesmo fala que Jesus não é onisciente quando se considerado as relações intratrinitárias, limitando sua onisciência às relações extratrinitárias. Em outras palavras, Granconato disse que Jesus só seria onisciente na relação da Trindade com as coisas criadas, pois, segundo o mesmo diz em sua mensagem, Deus-Pai guardou certas coisas apenas para si. Alguns o acusaram de heresia, já outros foram mais brandos, discordando de sua posição, todavia não o chamando de herege. O fato é que o Granconato foi infeliz em afirmações, ditas ao expor o difícil texto de Mateus 24.36, que diz o seguinte: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai”. Mais à frente voltarei a esse texto, mas antes gostaria de dizer o porquê considero o ensino do Marcos Granconato perigoso.

Dizer que Deus-Pai guarda coisas para si que não são reveladas ao Deus-Filho, inferioriza Jesus.  Ele não poderia ser uma divindade da mesma “estatura” do Pai, já que não seria onisciente por completo, sendo que a onisciência é um atributo divino. Mas, a máxima cunhada por Tertuliano, que foi reafirmada pela ortodoxia cristã diz “uma substância, três pessoas”. Por substância, devemos entender que é o elo incomum entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, no qual se baseia a unidade da Trindade. É devido à substância ser a mesma que não ocorre uma divisão entre as três pessoas da Deidade, gerando uma unidade na diversidade. Assim, Pai, Filho e Espírito Santo desempenham papéis diferentes no plano de salvação (Trindade econômica), sem que haja a perda dessa unidade.

Após Tertuliano, talvez Agostinho de Hipona tenha sido o teólogo que mais contribuiu com a doutrina trinitária, principalmente na tradição ocidental. Ele então afirma que não se pode subordinar (ontologicamente) as pessoas da Trindade. Na eternidade eles são iguais em atributos, poder e glória. Portanto, se afirmarmos, como fez o Granconato, que Deus-Pai retém algum conhecimento para si, logo, caímos no equívoco da subordinação eterna. Contudo, como defende Berkhof[1], a natureza divina é indivisível, isto é, seus atributos estão presentes de maneira igual entre todas as pessoas da Trindade. Franklin Ferreira até recomenda rejeitarmos a prática de enumerar os membros da Deidade (e.g. Jesus é a segunda pessoa da Trindade) e diz que a razão para não fazermos isso está na indivisibilidade da natureza divina, inexistindo subordinação entre elas. Logo, embora sendo três personas distintas, elas não se somam[2].

Granconato, frente ao que já foi exposto, ainda pode argumentar que isso não resolve a dificuldade presente no texto de Mateus 24.36. O que é verdade. Mas o ponto aqui deveria ser o seguinte: no afã de responder esse mistério, é válido prejudicar a doutrina trinitariana? Pois, se a Trindade é o cerne da adoração cristã, não podemos ter uma compreensão equivocada da mesma. Embora reconhecendo que o assunto é complexo, podemos subir “nos ombros de gigantes” e falar sobre a Trindade sem que a plena igualdade de seus membros seja distorcida. [3]

Para interpretarmos Mateus 24.36, a teoria da kenosis não seria a melhor resposta, como alguns deram ao Granconato em debates nas redes sociais. Pois, dizer que Cristo se esvazia, no sentido de deixar de ter seus atributos, seria o mesmo que afirmar que ele não mais teria a substância que concede unicidade à Trindade. O esvaziamento a que a Escritura se refere (vide Fp 2.6-8) não é referente a atributos, mas sim a posição de Cristo, que sendo igual a Deus-Pai em soberania e glória, encarna, e num estado de humilhação se coloca em condição de subserviência.

Então, para sermos coerentes com a doutrina reformada da unipersonalidade de Cristo, presente nas confissões e catecismos, que dizem existir no Salvador duas naturezas, divina e humana, na mesma pessoa, isto é, não são duas pessoas, mas apenas uma que comporta concomitantemente o status divino-humano, devemos observar a contribuição do extra-calvinisticum[4]. A contribuição em questão, que foi o ponto de discordância entre calvinistas e luteranos, diz, em suma, que os atributos divinos não devem ser limitados pela encarnação. Embora haja completa divindade no Verbo encarnado, pois a natureza divina se uniu a natureza humana numa mesma pessoa, seus atributos não estão confinados na carne, eles estão presentes dentro e fora do corpo de Cristo. Por isso que quando Cristo morre na cruz, a divindade não morreu, pois, a natureza divina não participa da fraqueza humana. Assim como também, as limitações da natureza humana não alcançam os atributos divinos. Por isso que Cristo foi limitado circunstancialmente, mesmo que na sua eterna essência ele nunca tenha deixado de lado a sua onisciência. Esta é uma posição que se enquadra com os postulados de Calcedônia e que faz jus ao fato de Cristo responder que não sabia o futuro, todavia sem deixar de ser onisciente.

Para ficar mais claro, tomemos outro atributo como exemplo: a onipresença. Quando Jesus, em sua forma corpórea deslocava-se de um lugar para o outro, não seria ele, como membro da Trindade, um ser onipresente?  O conceito extra-calvinisticum vai dizer que mesmo ele ascendendo aos céus corporalmente, e estando à destra do Pai, se faz presente na ceia. Logo, a encarnação não pode delimitar a divindade de Cristo. Vejamos o que nos diz o Catecismo de Heidelberg:

Pergunta 47- “Mas não está Cristo conosco até o fim do mundo, como nos prometeu?”

Resposta - “Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; quanto à sua natureza humana, agora já não está na terra; mas, quanto à sua divindade, majestade, graça e espírito, em nenhum momento está ausente de nós.”

Pergunta 48 – “Se a sua humanidade não está onde quer que esteja a sua divindade, então não estão as duas naturezas de Cristo separadas uma da outra?”

Resposta - “Certamente não. Visto que a divindade não está limitada e está presente em toda parte, fica evidente que a divindade de Cristo está certamente além dos limites da humanidade que ele tomou, mas ao mesmo tempo sua divindade está em e pessoalmente permanece unida à sua humanidade.”

Como bem observa o Dr. Heber Campos[5]Segundo o pensamento reformado, o Logos está no Cristo total, mas a natureza divina do Logos extrapola os limites físicos da natureza humana”. Pois, o infinito não cabe no finito. Se esta não é uma resposta totalmente  satisfatória, é de longe a melhor resposta para lhe dar com a dificuldade em questão, pelo simples fato de não trazer prejuízo a cristologia, e nem desembocar numa concepção equivocada da Trindade.

Concluo dizendo que entendo a complexidade do assunto e que todo teólogo está sujeito a dar suas “escorregadas”. O pastor Marcos Granconato é alguém teologicamente gabaritado e que possui anos e anos de labor ministerial, contudo, não está imune aos erros. No entanto, acredito que ele tenha escolhido muito mal a sua resposta frente a uma questão difícil. Talvez, diante da dificuldade de expor o texto, seria melhor apenas dizer que a questão da união hipostática é um mistério inefável, para usar palavras do próprio Calvino. E não negar a ontológica onisciência do divino Logos, como preferiu. Não apenas por sua imagem, mas por zelo pela sã doutrina, cairia bem uma revisão de sua concepção, reconhecendo que seu ensino abre um precedente muito perigoso que pode resultar em noções heréticas da doutrina trinitária. 

***
P.S. Gostaria de esclarecer três coisas: A primeira delas é que optei por fazer um texto breve, por achar mais propício devido à densidade do assunto. A segunda é que o Granconato é um irmão em Cristo, não o trato como um adversário. E por fim, não tenho a mínima intenção de gerar um debate cheio de desdobramentos, portanto, esse texto será o único em que exponho o que outros autores já expuseram com maestria. Destaco aqui o Dr. Heber Campos e suas obras sobre a união hipostática das naturezas de Cristo. 


[1] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Ed. Cultura Cristã, p.84.

[2] Franklin Ferreira usa como referência a obra de Basílio de Cesaréia para defender a plena igualdade entre a trindade. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=bfmLE6SjpLI.

[3] Mesmo havendo alguns teólogos renomados que defendem uma subordinação ontológica, como o Wayne Grudem e Bruce Ware, isso não pode ser tomado como argumento favorável. John Stott, um dos mais eminentes e profícuos teólogos do século XX, defendeu o aniquilacionismo, e nem por isso a ideia ortodoxa do castigo eterno foi flexibilizada apenas porque o Stott ensinou o oposto.

[4] Um ótimo texto sobre o Extra-Calvinisticum escrito pelo Rev. Alan Rennê Alexandrino está disponível em http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=370.

[5] CAMPOS, Heber Carlos de. A União das Naturezas do Redentor. Ed. Cultura Cristã, p.284. 

25 de mar. de 2016

O Corpo Partido de Cristo

Por Thomas Watson

Isto é o meu corpo (Mt 26.26)

O corpo partido de Cristo, que nos é exibido no sacramento, nos inspira a refletir:

O corpo de Cristo foi partido?

Então podemos visualizar o odioso pecado no espelho vermelho dos sofrimentos de Cristo. Na verdade, o pecado deve ser abominado por haver expulsado Adão do Paraíso e lançado anjos no inferno. O pecado é o interruptor da paz; é como um incendiário na família, o qual põe esposo e esposa em desavença; faz Deus ficar contra nós. O pecado é o ventre de nossas dores e o túmulo de nossos confortos.

Mas aquilo que pode mais que tudo desfigurar o rosto do pecado e fazê-lo parecer horripilante, é que ele crucificou nosso Senhor; ele se tornou um véu para a glória de Cristo e fez jorrar seu sangue.

Se uma mulher viu a espada que matou seu marido, quão odiosa ela será à vista dela! Acaso consideraríamos aquele pecado que fez a alma de Cristo “profundamente triste até a morte” (Mc 14.34)? Acaso nos seria motivo de júbilo aquilo que fez o Senhor Jesus Cristo “um homem de dores” (Is 53.53)? Acaso ele não clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mt 27.46)? Acaso esqueceríamos aquele pecado que fez Cristo esquecer-se de si mesmo? Oh, que olhemos para o pecado com profunda indignação!

Quando uma tentação vem trazer pecado, digamos como Davi: “Guarda-me, Senhor, de fazer tal coisa; beberia eu o sangue dos homens que foram com risco de sua vida?” (2Sm 23.17). então, digamos, acaso não é este pecado que derramou o sangue de Cristo? Que nossos corações se encham de fúria contra o pecado. Quando os senadores de Roma exibiram ao povo o manto ensanguentado de César, o povo se enfureceu contra aqueles que o mataram. O pecado dilacerou o alvo manto do corpo de Cristo e o tingiu da cor carmesim; busquemos ser vingados de nossos pecados. Sob a lei, se um boi chifrasse um homem, de modo que morresse, esse boi tinha de ser morto (Êx 21.28). O pecado transpassou e escorneou nosso Salvador: que ele seja morto. Que lamentável seria se ainda tivesse direito a viver aquilo que não permitiu que Cristo vivesse.

Façamos este uso de seu sofrimento na cruz, para aprendermos a não nos maravilharmos muito se nos depararmos com tribulações no mundo. Cristo sofreu quando “não conheceu nenhum pecado”? Acaso achamos estranho o sofrer de quem nada sabe senão pecar? Cristo sentiu a ira de Deus? Acaso é exagero sentirmos a ira dos homens? A cabeça seria coroada de espinhos e os membros jazeriam entre rosas? Desfrutaríamos de nossos braceletes e diamantes enquanto Cristo sentiu a lança e os pregos perfurando seu coração? De fato os que são culpados devem esperar os açoites, mas aquele que era inocente não pôde sair livre.

Um emprego adicional da doutrina do sacramento é o exercício da exortação. Ocupar-nos-emos das seções desta matéria em boa parte do que vem a seguir.

O precioso corpo de Cristo foi partido por nós? Deixemo-nos afetar com a imensa bondade de Cristo.

Quem pode esmagar estes carvões em brasa, sem que seu coração arda? Quem não bradaria com Inácio: “Cristo, meu amor, foi crucificado!”? Se um amigo morresse por nós, nosso coração não seria profundamente afetado por sua bondade? Que o Deus do céu morresse por nós, como esta estupenda mercê não nos influenciaria com a máxima ternura?

O corpo de Cristo partido é suficiente para quebrantar o coração mais empedernido. Na paixão de nosso Senhor, as próprias pedras foram fendidas: “fenderam-se as pedras (Mt 27.51). Aquele que não sentir-se afetado por isto tem um coração mais duro que as pedras. Se Saul não deixou de perceber a mercê de Davi em poupar sua vida (1Sm 24.16), como poderíamos não nos deixar afetar pela benignidade de Cristo, que poupou nossa vida com a perda da sua? Oremos para que, assim como Cristo foi “cruci-fixus”, também sejamos “cordi-fixus” – como ele foi “cravado” na cruz, igualmente seja ele “cravado” em nosso coração.

Jesus Cristo nos é espiritualmente exibido no sacramento? Então demos-lhe o máximo valor e estima.

Valorizemos o corpo de Cristo. Cada partícula deste pão da vida é precioso: “Minha carne é verdadeira comida” (Jo 6.55). É “o excelente Pão que transcende a substância”, no dizer de Cipriano.

O maná foi um vívido tipo e emblema do corpo de Cristo. O maná era doce: “era como semente de coentro branco, e seu sabor como bolos de mel” (Êx 16.31). Era um alimento delicioso; por isso foi chamado “comida dos anjos” (Sl 78.25), por sua excelência.Assim Cristo, o maná Sacramental, é doce às almas dos crentes: “seu fruto é doce ao meu paladar” (Ct 2.3). Tudo em Cristo é doce – seu Nome é doce, suas virtudes são doces. Este “Maná” adoça “as águas de Mara”.

Não só isso, a carne de Cristo excede o maná:

i. O maná era uma comida, porém somente física. Se os israelitas ficassem doentes, o maná não poderia curá-los; mas este bendito maná do corpo de Cristo é não só alimento, mas também medicina. “O corpo de Cristo é medicina para os doentes” (Bernardo).

Cristo traz “cura em suas asas” (Ml 4.2). Ele cura o olho cego e o coração empedernido. Leve esta medicina para bem perto de seu coração e você será curado de todos os destemperos espirituais.

ii. O maná era corruptível. Ele cessou quando Israel entrou em Canaã; mas este bendito maná do corpo de Cristo jamais cessará. Os santos se alimentarão com infinito deleite e satisfação da alma, em Cristo, para toda a eternidade. Os júbilos celestiais cessariam se este maná cessasse.

O maná foi posto na arca em um vaso de ouro, para que fosse preservado ali. Assim o bendito maná do corpo de Cristo, sendo posto no vaso de ouro da natureza divina, é depositado na arca celestial para os santos festejaram para sempre. Então, podemos dizer que o bendito corpo de Cristo “é verdadeira comida”.

“Na plenitude do corpo de Cristo, que desce da cruz, encontramos a pérola da salvação”.

***

Extraído da obra "A Ceia do Senhor", Editora Os Puritanos. 

8 de out. de 2015

Qual é o verdadeiro Jesus?

Por Thiago Azevedo

Muito embora um só Jesus exista, nem todos sabem vê-lo como é, filósofo, poeta ou comunista, ou mesmo hippie já se disse até”.

Esta é uma pequena porção da música cantada pelo grupo Vencedores por Cristo no álbum “Nada Melhor” (1973). A pequena porção da letra nos mostra a complexidade hermenêutica que gira em torno desta personagem histórica e divina chamada Jesus de Nazaré. Jesus já foi narrado como sendo apenas um profeta, um filósofo, um comunista, e até mesmo um hippie. Existe uma corrente que mostra Jesus como sendo um mero andarilho que, fugindo da morte da cruz, foi em direção à índia e lá viveu e morreu. Neste local, existe não só seguidores deste “Cristo”, mas a cama em que Jesus morreu e a casa em que viveu etc. Aqui temos um “Cristo” que renuncia sua morte para viver uma vida eremita, nesse tipo de cristianismo não há o principal fundamento doutrinário da morte na cruz do Salvador do mundo.

13 de mai. de 2015

Solus Christus: O Mediador

Por Thomas Magnum



Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.     

1 Timóteo 2:5

Minha proposta aqui não é adentrar pelos corredores da história em seus concílios, credos, confissões e resoluções eclesiásticas sobre as controvérsias cristológicas, talvez, em outro momento tratemos disso. O objetivo é trazer à tona a importância dos princípios da reforma ainda para nossos dias e como eles permanecem atuais e necessários à pregação e ensino no labor da igreja. Através de uma breve exposição do texto mencionado em 1Timóteo iremos refletir na importância desse assunto referente a pessoa do Senhor Jesus no ensino da igreja.

30 de abr. de 2015

Livre-se do fardo da culpa


Por Thiago Oliveira

Existem duas coisas que são prejudiciais em nossa jornada por esta vida passageira. A primeira é ser cínico ao ponto de achar que a prática do pecado é normal e não mais se importar com o ato de pecar, pecando assim constantemente e com uma mentalidade tão cauterizada ao ponto de não sentir culpa e não se confessar diante de Deus. A segunda está num outro extremo, é a culpabilidade exacerbada que não é capaz de reconhecer o alcance e a dimensão do perdão que Cristo oferece ao pecador arrependido. É sobre este último aspecto que eu tratarei neste breve texto.

27 de abr. de 2015

Cristo cumpriu os Dez Mandamentos

Por Mark Jones
Adão quebrou os Dez Mandamentos no Éden. Mas Cristo guardou os dez mandamentos no “deserto”, sob circunstâncias muito mais intensas do que aquelas às quais Adão foi submetido.
Guardou o primeiro mandamento. Ele trouxe glória a Deus o Pai enquanto esteve na terra (Jo 17.4). Temeu, creu, e confiou em seu Pai (Hb 2.13; 5.7; Lc 4.1-12). Cristo zelou pela glória de seu Pai (Jo 2.17) e foi constantemente grato ao seu Pai (Jo 11.41). Ele prestou completa obediência ao Pai em todas as coisas (Jo 10.17; 15.10).

20 de abr. de 2015

Cristo não se envergonha dos seus

Por Denis Monteiro

Texto base: Mateus 1.1-17

Quem de nós já parou para ler com afinco as genealogias que a Bíblia apresenta? O que há de tão importante em saber que alguém gerou tal pessoa e viveram tantos e tantos anos? Será que o autor bíblico colocou esses dados em alguns livros porque não havia outra coisa a ser colocada? 

Hoje nós veremos, tomando de exemplo a genealogia de Cristo, o porquê existe genealogia e o que podemos aprender com ela.

14 de abr. de 2015

Solus Christus: A Supremacia de Cristo

Por Thomas Magnum

"Dando graças ao Pai, que nos tornou dignos de participar da herança dos santos no reino da luz. Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados. Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, pois nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a supremacia".

Colossenses 1:12-18

Introdução
          
Somente o ato de ler o texto de Colossenses 1.12-18 já eleva os verdadeiros cristãos ao louvor e a adoração ao Cordeiro de Deus. Jesus é exaltado em sua sublimidade em sua majestade em sua glória. Ao falarmos da supremacia e dizermos que Cristo é supremo, não estamos apenas dizendo que Ele foi melhor que outros líderes religiosos. Não estamos dizendo apenas que ele foi moralmente superior aos homens mais idôneos que essa terra já teve, não estamos dizendo que ele foi o que teve mais sabedoria de todos dos sábios. Ao conclamarmos a supremacia de Cristo, estamos evocando sua majestade, sua soberania, sua glória, seu domínio, seu reino.
          

5 de abr. de 2015

Jesus Cristo Vive

Por Thiago Oliveira


“Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado; o qual também recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual também sois salvos se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão. Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também.

Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus. Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo.

Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido. Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos.

Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, e foi feito as primícias dos que dormem. Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo”.

1 Coríntios 15:1-22

INTRODUÇÃO

4 de abr. de 2015

Cristo é a nossa Páscoa

Por Thomas Magnum

Todos os anos quando entro em um supermercado ou quando vejo algumas propagandas na TV sobre a páscoa, penso como a sociedade moderna é consumidora de ideais e crenças puramente mercantilistas e elitistas. Ovos de páscoa, chocolates, coelhos, são os principais ícones da “nova páscoa”. O verdadeiro sentido da páscoa tem sido a cada ano enterrado e desprezado pelo homem moderno
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Por conta de tamanha segmentação de mercado, que abrange todos os públicos possíveis, iremos ainda que brevemente examinarmos alguns textos bíblicos sobre o sentido da páscoa cristã, o que é a páscoa? O que a Bíblia nos ensina sobre ela? Qual o significado da páscoa para a igreja de Cristo?

A Páscoa no Antigo Testamento

3 de abr. de 2015

A Sexta-Feira da Paixão

Por Morgana Mendonça dos Santos

"E disse-lhes: Tenho desejado ardentemente comer convosco esta páscoa, antes da minha paixão; pois vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus."

Lucas 22.15-16 

É inevitável durante essa semana não publicarem artigos sobre a Páscoa, os sites e páginas de facebook estarão em grande quantidade produzindo ou reproduzindo textos sobre o importante tema. Não tenho nenhuma pretensão de repetir ou ser redundante sobre o assunto, no entanto gostaria de meditar um pouco sobre momentos antes do grande dia da ressurreição de Cristo. E por que a ressurreição de Cristo? Ele sim é o nosso Cordeiro sem defeito, nosso cordeiro pascoal! Na tradição cristã a "sexta-feira" através da igreja católica foi denominada o dia da "paixão", sofrimento de Cristo que levou a Sua morte. A sexta mais significativa que define a agonia, os açoites, o sofrimento de Cristo antes que ressurgisse. No entanto, não quero me aprofundar no motivo pelo qual foi definido essa nomenclatura: a sexta da paixão.

O termo Páscoa tem origem que remonta a aproximadamente 1.445 anos antes de Cristo. No livro de Êxodo encontramos um povo sofrido, há mais de quatrocentos anos como escravos no Egito. Assim, Deus escolhe Moisés para cumprir Seus decretos (Ex 3-4), de praga em praga, Faraó endurecido pelo próprio Deus, permite e volta atrás. Libertar o povo da escravidão do Egito foi uma grande missão, ensinamentos marcantes, poder de Deus e maravilhas foi testemunhado por todos. Encontramos na décima praga e derradeira o caminho sem saída para os egípcios, não havia mais alternativa, os israelitas seriam lançados fora daquela terra. Deus mandou um anjo destruidor para terra do Egito com o propósito de eliminar “todo primogênito... desde os homens até aos animais” (Êx.12.12). A ordem divina foi sacrificar e isso resultaria em proteção. Daí o termo Páscoa, do hebraico "pesach", que significa “pular além da marca”, “passar por cima”, ou “poupar”. (Ex 12.11-14).

7 de mar. de 2015

A Dupla Natureza de Cristo

Por Thiago Oliveira

Discorrer sobre as duas naturezas de Cristo demonstra o quanto que esta doutrina é essencial para nossa compreensão do Evangelho. De fato, Jesus foi portador de uma natureza dupla e que não podia ser desassociada uma da outra. A Singularidade de Cristo está no fato dele ser totalmente homem e concomitantemente ser totalmente divino. Esse antinômio, gerou uma série de questionamentos e desembocou em muitas heresias, tais como o nestorianismo, docetismo e eutiquianismo.

Diante de uma vastidão de textos que abordam este assunto, escolhi apenas dois que evidenciam tanto a humanidade quanto a divindade de Cristo Jesus.

Colossenses 1.15-17: Cristo-Deus

O apóstolo Paulo contrariando os mestres heréticos que se infiltraram na igreja de Colossos, deixa claro aqui o ensino de que Jesus é um ser divino e que não é mais uma criatura que o Deus-Pai trouxe a existência. Quando se é dito que Jesus é a imagem (Gr. eikõri) do Deus invisível, a ideia é a de que Cristo não é uma simples figura representativa. Ele é a manifestação que contém a mesma substância daquilo que revela. Deus é invisível, e isso é corroborado por outros autores neotestamentários, e Cristo, num propósito revelacional é aquele que projeta Deus para que os homens possam vislumbrá-lo. Tudo que Deus é, igualmente Jesus é. Mas na frente, Paulo nos diz que “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”.

Para que não aja dúvida de sua divindade, nos é dito que Jesus é “o primogênito de toda a criação”. O termo que foi traduzido por primogênito não tem relação temporal. Prototokos é, na verdade, um título honorífico, e ao decorrer do discurso paulino fica evidente a honra que ele concedeu a Cristo: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele”. Jesus é o artífice da criação, tudo partiu dele e foi feito para ele. O que isso quer dizer? Que toda a criação se movimenta na direção de Cristo, ele é o alvo. Por isso que “ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”.

Cristo - nos ensina Paulo - não tem rivais dentre as coisas criadas. Ele está bem acima, exercendo seu governo no mundo. É a partir deEle que o mundo se formou ex nihilo. Ele é a fonte, o agente, o alvo e sustentador de todo o mundo criado. Ou seja: Jesus é Deus.

Romanos 5.12-19: Cristo-Homem

Nesse trecho da carta aos Romanos, o apóstolo Paulo equipara Cristo a um segundo Adão. Enquanto que Adão pecou e através da sua transgressão, foram encerrados debaixo do pecado – que é mortal – todo o gênero humano. Da mesma forma, através da morte de Cristo na cruz, muitos obtiveram o seu resgate e receberam a vida por graça e não a morte por salário. Se Adão é o cabeça dos homens decaídos, Jesus é o cabeça dos homens redimidos.

No versículo 15, é dito com todas as letras que Jesus Cristo é homem, e por meio dele, a graça superabundou o pecado. Usando um jogo de contrastes em sua argumentação, Paulo deixa claro que Jesus cumpriu aquilo que Adão tinha falhado. Essa é uma teologia pactual. Na medida que Adão desobedeceu a Deus e fez com que o pecado atingisse todo o cosmos, Jesus, como um servo totalmente obediente fez aquilo que era o dever do primeiro homem.

Desde o Antigo Testamento vemos que Deus utilizou-se alguns homens para realizar o trabalho dos antecessores que haviam falhado. Veja por exemplo Moisés e Josué e Saul e Davi. Quem então tomaria o lugar de Adão? O próprio Deus se encarregou disso ao assumir a forma humana. Como dizia Thomas Goodwin no século XVII: "Diante de Deus, há dois homens — Adão e Jesus Cristo, e todos os outros homens estão pendurados nos cinturões deles dois".

Conclusão

A crença da dupla natureza de Cristo nos dá segurança acerca da nossa fé, sabendo que a justificação é real, pois foi um homem que morreu pelos pecados dos homens, isto quer dizer, a substituição foi real. Ao mesmo tempo, tratando-se do Divino, a morte não pode deter o Cristo que foi morto. Ele ressuscitou por ser Senhor da vida e dos vivos. Porque ele ressuscitou, temos a garantia de que com ele, também triunfaremos sobre a morte.
Louvado seja Deus!
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REFERÊNCIAS

BRUCE. F.F. Romanos: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 2002.
HENDRIKSEN. Willian. Romanos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.
LOPES. Hernandes Dias, Colossenses: A suprema grandeza de Cristo, o cabeça da Igreja. São Paulo: Editora Hagnos, 2008.
MARTIN. Ralph P., Colossenses e Filemon: Introdução e Comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 2002.

24 de fev. de 2015

A serpente no poste e a cruz de Cristo

Por Nick Batzig

Quando Jesus explicou a natureza de sua morte expiatória na cruz para os israelitas de seus dias, Ele apelou para o que é, indiscutivelmente, um dos símbolos redentivos mais fascinantes da história da peregrinação de Israel pelo deserto: a serpente de bronze no poste (Números 21.4-9; João 3.14).

A serpente de bronze é o tipo mais claro da obra salvífica de Jesus no Calvário. De todos os tipos e sombras, não houve outro que tenha predito melhor a grande obra do Salvador do que esse. Jesus podia ter apontado para a páscoa ou para qualquer tipo de sacrifício que demonstrasse sua futura morte expiatória. Mas ele escolheu apontar para esse tipo em sua discussão com Nicodemos.

Aqui há 14 pontos retirados do livro “The Mystical Brazen Serpent with the Magnetical Virtue Therefore, or Christ Exalted Upon the Cross”, escrito por John Brinselym; do sermão “Moses and the Bronze Serpent”, feito por Tim Keller e do livro “Brief Exposition of the Epistles to the Seven Churches in Asia”, de Robert Murray M’Cheyne. Todos eles nos ensinam como Números 21.4-9 serve para nos aprofundarmos no entendimento do Evangelho:

1. A serpente de bronze foi o meio de salvação usado por Deus para os Israelitas que foram mordidos pelas serpentes no deserto. Jesus crucificado é o meio de salvação de Deus para todos aqueles que foram infectados mortalmente pelo veneno do pecado no deserto desse mundo caído.

2. A serpente de bronze era a única forma de salvação para os Israelitas. Jesus crucificado é o único meio de salvação para o judeu e para o gentio (considere a leitura histórico-redentiva de João 3.16 à luz de João 3.15. No Antigo Testamento, os israelitas eram amados por Deus, por isso receberam uma forma tipológica de cura; no Novo Testamento nos é dito que “Deus ama o mundo”, o que inclui judeus e gentios, de tal forma que ele deu Seu Filho para a redenção do Seu povo, que inclui pessoas de toda língua, tribo, nação e linguagem).

3. A serpente de bronze era uma representação visual da ira de Deus contra o povo murmurador. Cristo crucificado é uma representação visual da ira de Deus contra toda a impiedade e injustiça humana.

4. A serpente de bronze representava a propiciação da ira de Deus. Quem olhasse para a serpente saberia que a ira de Deus seria afastada. A cruz de Cristo demonstra a ira de Deus, assim como a afasta. A misericórdia e a verdade se encontram na cruz; justiça e paz se beijam na morte de Jesus.

5. A serpente de bronze era uma representação simbólica das serpentes venenosas que morderam o povo e trouxeram consequências mortais por conta do pecado. Cristo representa aqueles que foram arruinados pelo pecado, tomando para si um corpo em semelhança da carne pecaminosa – embora sem pecado – para que Ele pudesse, por meio de sua morte, salvar aqueles que foram envenenados pelos seus próprios pecados até a morte. Ele se fez maldição para que nós recebêssemos as bênçãos de Deus.

6. A serpente de bronze servia para lembrar os Israelitas da causa de seus pecados. Ela tinha por finalidade levar à memória deles para o Jardim do Éden, onde Satanás veio em forma de serpente para tentar seus primeiros pais. A punição para o pecado, trazido ao mundo por meio da tentação daquela antiga Serpente, foi colocada sobre Jesus na cruz. A penalidade do nosso pecado recaiu sobre Ele. Ele se tornou pecado por nós, para que, Nele, nos tornássemos justiça de Deus.

7. A respeito da serpente no deserto, a cura dependia da palavra de Deus a respeito de seu meio de salvação. Com Cristo crucificado, a salvação é dependente da palavra de Deus a respeito de seu meio de Salvação.

8. Assim como os israelitas envenenados foram chamados a crer no comando de Deus – e a serpente de bronze foi o objeto desse comando -, nós vemos que tanto o meio quanto o instrumento da salvação de Deus são tipificados. No relato da interação de Jesus com Nicodemos, tanto o meio quanto o instrumento de Deus para a salvação são apontados. O Salvador crucificado é o meio da salvação de Deus. A fé (ou “olhar para Ele”) é o instrumento da salvação.

9. Os israelitas infectado foram chamados externamente a olharem para a serpente de bronze para serem curados. Os pecadores são chamados externamente a olharem para o Filho de Deus crucificado para serem salvos.

10. A serpente foi levantada na frente dos Israelitas, no meio do campo, para que todos aqueles que fossem mordidos olhassem para ela e fossem curados. Cristo foi levantado – primeiro na cruz, depois em sua ressurreição, então em sua ascensão e, por fim, na pregação do Evangelho – para que os pecadores olhem para Ele e sejam salvos.

11. A serpente de bronze era o central e totalmente suficiente meio de cura dos Israelitas. A cruz é o central e totalmente suficiente meio da obra salvífica de Cristo para curar todo aquele que nele crer.

12. Assim como Deus escolheu um homem, Moisés, para levantar a serpente de bronze no poste para que as pessoas olhassem e fossem curadas, Deus escolheu ministros para proclamarem Jesus por meio da pregação de Cristo crucificado, para que todo homem possa contemplá-lo e ser salvo.

13. Assim como olhar para a serpente de bronze era um meio tolo de cura para os israelitas envenenados, olhar para o Salvador crucificado (um homem executado publicamente) é um meio tolo, aos olhos do mundo, para a salvação de pecadores condenados à morte.

14. A serpente de bronze foi levantada em favor de muitos, para a salvação da ira de Deus e das consequências mortais do pecado. Cristo foi levantado em favor de muitos, para a salvação da humanidade da ira de Deus e das consequências mortais do pecado. Somente aqueles que olham, em fé, para Cristo, são redimidos da mordida mortal do pecado.
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Fonte: Reforma21

30 de jan. de 2015

Rivais de Jesus

Por Francis Schaeffer

Tendo enfatizado que Jesus precisa ser o centro de nossa vida, quero mencionar quatro outras coisas que devemos cuidar de não pôr lá. A primeira é qualquer estado totalitário ou qualquer igreja totalitária. Se eu tenho a perspectiva que os discípulos foram instruídos a ter no Monte da Transfiguração – “este é meu filho amado...a ele ouvi” – então não há lugar nenhum para qualquer coisa totalitária! Nem uma igreja que se impõe entre o indivíduo e Deus, nem um estado que exige lealdade primária tem tal direito. Há um lugar legítimo tanto para o estado como para a igreja, mas não no centro. O centro precisa ser uma Pessoa.

Estados totalitários, autoritários, não estão longe de nós. Sentimos seu hálito em nossas nucas, a cada volta – não só em países comunistas, como também em elites modernas do mundo ocidental. O cristão sempre deve dizer: “Quero que o estado e a sociedade tenham o seu lugar apropriado. Mas se tentarem chegar ao centro da minha vida, sou contra, porque só Jesus deve estar lá”.

Esse perigo é mais sutil num cenário religioso, e especialmente em um cenário evangélico, quando manifestado na forma de uma liderança humana totalitária, autoritária. E porque isso também costuma fazer pressão sobre nós, devemos ter cuidado constantemente. Deve haver liderança humana na igreja, sob a liderança do Espírito Santo, mas é errado aos homens, mesmo os homens bons, assumirem para si o centro. A mentalidade de Paulo, como vimos, não era essa. Nem a de João Batista. Só o Deus triúno pode ser central. O perigo não precisa vir de um Hitler ou Stalin. Pode vir de um cristão que se empolga tanto com a mecânica da liderança que, inconscientemente ou não, põe-se no lugar onde só Deus deve estar.

Se vivêssemos num estado totalitário, estaríamos bem apercebidos disso. E mesmo numa igreja, uma liderança totalitária, autoritária, provavelmente nos faz sentir desconfortáveis, como um casaco muito apertado. Mais difícil de detectar, porém, é uma fase do trabalho cristão se tornar central em vez de Cristo e a Trindade serem centrais. Quando o trabalho cristão se torna o centro de integração, isso também é errado.

É curioso que nós podemos fazer coisas em nome de Cristo ao mesmo tempo que o empurramos para fora do palco. Consigo ver isso mais claramente quando uma igreja se empolga com um projeto de construção e move o céu e a terra para completá-lo. Uma cobertura sobre nossa cabeça é necessária, mas isso é só uma parte mínima do ministério da igreja. O edifício é apenas um instrumento.

Lutar pela evangelização e salvação de almas também não se deve tomar a importância primária; mas quantas vezes isso acontece! Outras pessoas, com razão, veem a igreja ameaçada por apostasia, mas também passaram a fazer a pureza da igreja visível o centro de sua vida. Em todos estes casos Jesus pode permanecer como tópico de conversa, mas sua centralidade verdadeira foi esquecida. Em nome de Cristo, Cristo é tirado do trono. Quando isso ocorre, mesmo o que é certo fica errado.

Mas sutil ainda é tornar certas doutrinas o ponto central. Por exemplo, podemos calcular: Eu sou presbiteriano, por isso vou dar ênfase acima de tudo à doutrina da predestinação. Sim, a soberania de Deus deve ser ensinada, mas alguns de meus amigos o enfatizaram tanto que a doutrina, e não Deus, tem se tornado o centro de seu ministério. Isso pode acontecer com outras doutrinas. Certamente você já conheceu pessoas que tanto enfatizaram o tipo de batismo que uma pessoa deve ter que isso se tornou o centro da conversação, o centro da batalha, realmente o centro da perspectiva. Logo que fazemos isso com qualquer doutrina, é como um pneu furado que faz o carro inteiro dar solavancos.

Na realidade só há um centro, não só como doutrina, mas na prática – Cristo e a Trindade. O que o Deus ´que está i tem a dizer sobre si próprio? logo que respondemos a essa pergunta e vivemos na base da resposta, tudo se encaixa no lugar, como um guarda-roupa belamente organizado ou uma linda seleção de música de Bach, em que cada voz tem seu lugar.
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Extraído do livro "Não há gente sem importância". p.159.