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13 de abr. de 2016

Resenha Crítica da Obra Contra a Idolatria do Estado

Por Thiago Oliveira[1]
Introdução
O mais recente livro do teólogo e pastor Franklin Ferreira é uma obra de teoria política sob o viés bíblico-teológico. Seu título é Contra a Idolatria do Estado – O papel do cristão na política. O livro é editado por Edições Vida Nova, possui um número total de 280 páginas e foi lançado em Março do presente ano. Recebeu o endosso de renomados teólogos, como Solano Portela e Jonas Madureira, além de nomes como o da jornalista e âncora do principal telejornal do SBT, Rachel Sheherazade e do escritor e filósofo Luiz Felipe Pondé, que se denomina uma pessoa não agraciada com o dom da fé, ou seja, não é um cristão professo. Em seu endosso, Pondé escreve o seguinte: “O livro do Franklin Ferreira é exemplo de como a teologia pode dialogar com o pensamento político sem ter vergonha de dizer quem é, coisa rara hoje em dia”.
O livro apresenta a seguinte estrutura: Agradecimentos, Introdução e 8 capítulos divididos em 4 seções. Por fim, a Declaração Teológica de Barmen é colocada como apêndice. O conteúdo e o contexto histórico da declaração supracitada são trabalhados dentro dos capítulos, todavia, é publicada na íntegra após o capítulo que conclui a obra. Deixando de lado a introdução e o apêndice, esta resenha, em sua abordagem, contemplará apenas a substância dos capítulos desenvolvidos por Ferreira.
Primeira Parte: Fundamentos Bíblicos
Iniciando o livro com a história de Ester no Capítulo 1, Ferreira tenciona que a angústia do povo judeu, sob a ameaça do extermínio, e a atuação política de Ester e Mardoqueu para evitá-lo sirva de exemplo para a atuação política dos cristãos no momento crítico de nossa conjuntura sociopolítica. Ferreira destaca a oração e a dependência à Deus como características indeléveis do cristão que anseia atuar no serviço político. Para o autor, líderes que tenham as qualidades de servo, que sejam encorajadores e visionários devem compor a equipe do político cristão para bem assessorá-lo e ajudá-lo na construção de projetos que sejam agentes de transformação social.
Ferreira também argumenta que o conhecimento de diversas disciplinas acadêmicas é de muita utilidade para que o político cristão desenvolva uma cosmovisão robusta o suficiente para identificar os pressupostos filosóficos (e também religiosos) e assim, responder satisfatoriamente a sociedade, sem deixar de lado a sua base cristã. O autor parece endossar o conceito habersiano[2] da tradução cooperativa dos termos religiosos. Em suma, trata-se de tornar acessível os argumentos que mesmo oriundos de um credo, seriam transmitidos a uma sociedade plural através de uma linguagem desvinculada da terminologia religiosa. Ferreira nos lembra de que o livro de Ester não cita em nenhum momento o nome de Deus e sugere, a partir de uma explicação secundária, que a ausência nos remete a ideia de que a linguagem da fé não precisa e nem deve estar presente no âmbito das esferas políticas.[3]
No segundo capítulo, há uma interpretação política da Carta aos Romanos, interpretação que sofre uma influência direta do teólogo alemão Karl Barth. É um capítulo muito rico que demonstra o quanto que a mensagem do Evangelho confronta o culto a personalidade política. Nele somos informados que em nenhum momento o termo “poder” é usado para designar as autoridades governamentais. Apenas Cristo é o detentor do poder e, por isso, toda e qualquer autoridade política está debaixo do seu senhorio. Para Ferreira, embasado em outros comentaristas, o conteúdo da epístola paulina traz em seu bojo uma teologia subversiva, negando aos imperadores de Roma a deificação. A mensagem da carta é, em resumo, um encorajamento para que os crentes romanos mantenham a sua devoção exclusivamente à pessoa de Cristo e sejam leais ao evangelho.
É ainda no segundo capítulo que a passagem de Romanos 13.1-7 é analisada. Esta passagem foi e é vista por muitos como uma orientação conformista, pois, indica que os cristãos devem obedecer as autoridades, que são designadas por Deus. Acontece - como Ferreira bem demonstra - que a obediência é um dever desde que a autoridade seja legítima. O cristão fica desobrigado a obedecer a um governo que desconsiderou a designação divina da sua função. Quando uma ordem governamental entra em conflito com uma ordem de Deus, ou quando não exerce sua autoridade para cumprir o propósito de punir o mal e recompensar os que fazem o bem (Rm 13.3), cumpre ao cristão desobedecer tal governo. Assim sendo, diante do contexto em que a carta foi escrita, em que havia o culto ao Imperador, os verdadeiros cristãos foram martirizados por não sacramentar o poder de César e não reconhecer outro Senhor que não fosse Cristo Jesus.
Segunda Parte: Questões Conceituais
Esta seção é polêmica por questionar alguns conceitos repetidos alhures pela opinião pública. Uma das principais polêmicas é traçar um comparativo entre o nazismo e o comunismo, pois, para muitos o nazismo é conceituado como sendo conservador e de direita. Ferreira vai de encontro a esta concepção afirmando que os regimes totalitários sob a tutela de Stalin e Hitler, que respectivamente governavam a extinta União Soviética e a Alemanha, tratam-se de “irmãos gêmeos heterozigotos”. O autor se baseia em autores como João Pereira Coutinho e Hannah Aredent, citando apenas duas de um variado leque de outras fontes, para fundamentar o seu argumento. Este é o mote do excelente terceiro capítulo.
Tratando da divisão esquerda-direita, o capítulo seguinte traz uma apologia clara ao modelo político que tem por base a democracia e uma economia liberal, ideologia que ainda não é popular no Brasil, visto que - com a exceção do partido Novo - recém-criado, todas as outras legendas partidárias são de esquerda ou centro, isto é, em maior ou menor grau pregam uma regulamentação Estatal. Ferreira classifica a esquerda como sendo um modelo onde o Estado se agiganta, transcendendo a esfera que lhe é de direito governar. Ele continua demonstrando que a ideologia esquerdista e a sua aplicação nos regimes comunistas são de pouca ou nenhuma liberdade individual.
Analisando o contexto político brasileiro, Ferreira conclui que está arraigado no pensamento brasileiro um antiliberalismo, visto que todos os governos desde a proclamação da república adotaram medidas protecionistas e um Estado regulador. Aqui temos a idolatria estatal que é rechaçada logo no título da obra, pois, é na ideologia esquerdista que o Estado adquire contornos messiânicos. Ferreira salienta que a lealdade do cristão, assim como a sua esperança, não pode ser colocada em nenhum sistema de governo ou ideologia política. Nossa esperança e lealdade devem ser depositadas exclusivamente em Jesus Cristo.
Terceira Parte: Direções Teológicas
O capítulo 5, que dá início a terceira parte do livro, é uma recapitulação da “disputa pela igreja”, como ficou conhecido o embate entre os líderes da Igreja Alemã, que estavam cedendo aos postulados nazistas e a tutela estatal dentro das igrejas, e os teólogos e pastores que resistiram a esta interferência e fundaram o que veio a ser chamado de Igreja Confessante. Dois nomes se destacam entre os que resistiram, são eles o de Barth e o de Bonhoeffer, o primeiro exilado e o segundo sentenciado a morte. Relatando nuances da disputa e pinçando trechos da Declaração de Barmen que denunciou e repudiou a síntese entre o evangelho e a ideologia nazista, o objetivo do autor neste capítulo é demonstrar que a integridade do conteúdo da fé cristã é inegociável. Nem mesmo a unidade da igreja pode ser dada como desculpa para tolerar a falsa doutrina. Os pastores que aderiram a Igreja Confessante foram acusados de causar divisão na igreja alemã, mas como Ferreira observa, às vezes, é desta forma que a Igreja é purificada, através da perseguição. O capítulo é encerrado com um trecho da Declaração de Culpa de Stuttgart, em que os líderes da reconstruída Igreja da Alemanha reconhecem que erraram por não terem sido mais combativos contra o regime de Adolf Hitler.
Já o capítulo 6 endossa a perspectiva reformada da Soberania das Esferas, conceito desenvolvido pelo teólogo, jornalista e politico holandês Abraham Kuyper. Após analisar criticamente a visão dos “Dois Reinos”, comum entre os luteranos, e a perspectiva dispensacionalista, Ferreira passa a tratar da concepção reformada que pode ser esboçada através do seguinte gráfico:

Como pode ser visto, Deus transcende toda instituição terrena, que tem a sua autoridade subsidiada nEle. Não há nenhuma esfera que teve o seu poder derivado de outra. Todas derivam de Deus e tem uma área de influência delimitada, apesar de serem interligadas, elas não estão submissas a nenhuma outra, são autônomas entre si. A soberania derradeira que abarca todas as esferas pertence somente a Deus.
Concluída a exposição do conceito kuyperiano da Soberania das Esferas, Ferreira diz que os valores republicanos estão historicamente vinculados aos cristãos, que os defendem por ver neles concordância com o ethos do cristianismo. Esta conclusão é obtida através de inferências da Escritura.
Quarta Parte: Aplicações Práticas
Chegando aos dois capítulos que encerram a obra, lemos sobre a ineficiência estatal, sobretudo do governo petista em zelar pela segurança dos cidadãos brasileiros. Ferreira nos mostra números alarmantes do aumento da violência. Ele critica os altos impostos que não são revertidos para a segurança e nem para o deleite da sociedade. Outra questão bastante criticada é a ideologização promovida pela esquerda no debate sobre a violência. Ao dizer que o bandido é vítima da sociedade, esta ideologia vitimiza o criminoso ao invés de puni-lo. Ferreira expõe a deficiência do sistema prisional brasileiro e a instrumentalização dos Direitos Humanos pela intelligentsia a serviço do Estado.
E qual seria a atuação da igreja frente ao aumento da violência? Ferreira sugere que ela ore e que permaneça fiel a pregação expositiva das Escrituras, pois esta gera vida e é marca da igreja verdadeira. O livro é finalizado com dez pontos elencados a respeito de uma agenda cristã para um voto consciente.
Considerações Finais
Contra a Idolatria do Estado é leitura que deveria ser cobrada a todo pastor. O livro deveria ser endossado nos seminários, pois, temos uma carência no segmento cristão evangélico brasileiro referente a uma visão política que esteja embasada numa cosmovisão escriturística. A obra é bíblica, mas não apenas isso, ela é riquíssima em matéria de referencial teórico. Ferreira se apoia em diversos autores e fontes, colocando a teologia no cerne da esfera pública. São 19 páginas de bibliografia, demonstrando a profundidade da pesquisa realizada pelo autor.
A obra também se destaca por não ter equivalentes. Até então, nenhum teólogo brasileiro havia se lançado a escrever um livro sobre política tecendo críticas pontuais direcionadas a um governo ainda vigente e defendendo um modelo político-econômico que fosse liberal[4]. Embora existam alguns artigos em periódicos e na blogosfera, nada que se compare a proposta da obra de Ferreira, que preenche uma lacuna de nossa literatura teológica. É importante que mais teólogos lancem luz a este tema, produzindo outros escritos que sirvam de referência para a construção de uma cosmovisão cristã no âmbito político.
Àqueles que não têm familiaridade com obras políticas podem ler Contra a Idolatria do Estado, fazendo desta obra uma introdução ao assunto. Embora existam conceituações que possam parecer estranhas ao leitor primário, Ferreira preocupou-se em estruturar o livro de uma maneira bem didática, permitindo aos iniciantes nos estudos da política adquirirem uma compreensão geral de seu argumento basilar.


[1] Thiago Oliveira é pastor da Igreja Evangélica Livre em Itapuama-PE. Graduado em História pela Fundação de Ensino Superior de Olinda com especialização em Ciência Política. É casado com Samanta Oliveira.

[2] Termo derivado do nome do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, que dedicou a sua vida a estudar a democracia e desenvolveu em suas obras o conceito de “Esfera Pública”.

[3] A explicação primária para a ausência do nome de Deus no livro de Ester seria o nível de assimilação cultural. Ester e Mardoqueu representam uma parte dos judeus que preferiram continuar vivendo no centro da Pérsia ao invés de regressar a Jerusalém nos tempos de Ciro II, que era avô do rei Xerxes, o governante que desposou Ester.

[4] É preciso entender que liberal neste caso significa a posição que defende as liberdades individuais e o mínimo de interferência estatal, não tendo nenhuma relação com o liberalismo teológico e nem se referindo à frouxidão dos padrões morais bíblicos. 

11 de abr. de 2016

Culto segundo as Escrituras

Por Morgana Mendonça dos Santos 

"Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional".

Romanos 12.1.

No primeiro verso do capítulo 12 da carta à igreja de Roma, o apóstolo Paulo nos mostra a forma do culto racional e diário, assim como Moisés escreve o segundo mandamento (Ex 20.4-6; Dt 4.15-19) como regulamento do mesmo. A Bíblia revela do começo ao fim como devemos adorar a Deus e a forma como foi constituída essa adoração. O culto segundo as Escrituras provém da prórpia Escritura. É a Palavra escrita que determina o culto solene. Não parece ser tão óbvio assim, devido a real situação do culto na maioria das igrejas. É tanto urgente como necessário oferecer o conceito de culto para que o culto seja devidamente estabelecido. Culto poderia ser definido como: ajuntamento solene com o propósito de glorificar a Deus de forma reverente e com muito temor. O povo da aliança é convocado de forma santa a cultuar a Deus de acordo com Hebreus 12.28-29, lembrando assim que Deus é fogo consumidor:

"Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e temor; pois o nosso Deus é um fogo consumidor."

Tanto no Antigo como no Novo Testamento a estrutura do culto é abastecida de temor ao Senhor. Perceba que Hebreus 12 tem ecos do Salmo 50.3-4, como exemplo disso temos o que aconteceu no Monte Sinai. Deus exige um culto conforme Ele deseja e somente o aceita dessa forma. A exigência divina deve ser percebida, Ele exige um culto santo, pois é fogo consumidor. Nas palavras do Rev. Kenneth Wieske [1] sobre o caráter do culto solene:

Desde o Antigo Testamento já era necessário obedecer e atender à santa convocação do Senhor. Quando Deus convocava seu povo diante do Monte Sinai que fumegava, relampejava, trovejava e via-se a presença dos anjos (At 7.53; Hb 2.2; Dt 33.2), quem ousaria dizer “não, não posso ir ao culto, pois tenho outros compromissos? Acho que papai e mamãe irão, mas eu tenho alguma coisa a comprar no shopping”. Que nada! Deus estava convocando seu povo e ai daquele que não obedecesse ao seu chamado! Se naquela época era impensável se desprezar a santa convocação, quanto mais hoje?.

Eis o que a Confissão de Fé de Westminster (CFW) diz a respeito no capítulo XXI sobre o assunto do culto solene [2]: 

A luz da natureza mostra que há um Deus, que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de todas as forças; mas, a forma aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituída por Ele mesmo, e é tão limitada pela sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.

O culto segundo as Escrituras deverá ter características fundamentalmente bíblicas. Ele deve ser unicamente e devidamente bíblico, evangélico, pactual, histórico, alegre, litúrgico e reverente [3]. O culto bíblico que o Senhor instituiu tem implicações nos dez mandamentos. Encontramos esses princípios nos primeiros mandamentos, onde Deus estabelece quem deve ser adorado, como deve ser adorado e a reverência dessa adoração. No primeiro mandamento (Ex 20.3; Dt 5.7) há uma ordem, "não terás outros deuses diante de mim", aqui aprendemos a quem unicamente devemos adorar. No segundo mandamento (Ex 20. 4-6; Dt 5. 8-10) observamos a maneira que Ele instituiu essa adoração e nos deixou avisados da forma que Ele mesmo abominaria se fizéssemos.

“Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem aos meus mandamentos.” Êxodo 20. 4-6.

No terceiro e quarto mandamento, de forma contínua é pressuposto o dia e a reverência dessa adoração (Ex 20.7-11; Dt 5.11-15). Nem as especulações humanas, nem muito menos a sinceridade de um coração é suficiente para celebrar o Deus Triuno no culto solene. A exemplo disso temos Caim (Gn 4.5), Nadabe e Abiú (Lv 10.1-2) e Uzá (2 Sm 6.6-7) que tentaram da sua própria forma realizar um culto e/ou oferecer um serviço na presença de Deus.  

O culto deve ser bíblico pelo inequívoco fato de que Deus em Sua palavra já ter regulado os elementos do culto e seus princípios que são segundo a sua vontade (Dt 12.29-32). Deus revela em Sua sagrada Palavra tudo o que precisamos para cultuá-lo com zelo pela sua glória e reverência pelo seu nome. Desejo sincero não significa culto aceitável, cumprimento bíblico sim. Oferecer um culto ao Senhor sem ser prescrito pela Sua palavra é uma profanação a sua pessoa. Um culto à si mesmo é condenado pela própria Escritura (Cl 2.23). Não há desculpa para se apartar da regra, a regra é clara. O que não é proferido não pode ser oferecido. Segundo Daniel Hyde, em poucas palavras [4]: "Em tempos de analfabetismo bíblico, precisamos de um culto cheio das Escrituras, com uma linguagem escriturística em cada aspecto, das leituras responsivas e cânticos, às orações e leituras bíblicas propriamente ditas." Importa que estejamos aptos para compreender que o culto segundo as Escrituras precisa ser cheio das Escrituras.

O culto deve ser evangélico, isto é, alicerçado nas boas novas de salvação em Cristo Jesus. O culto deve ser cristocêntrico, deve ter o evangelho ressoando do começo ao fim. O culto deve ser evangélico devido à obediência ativa e passiva de Cristo, Ele mudou tudo. Temos livre acesso a presença de Deus, o evangelho - Cristo nos garantiu esse caminho novo à presença do Criador (Ef 2.11-22; Hb 10.19-22). Temos um grande sacerdote sobre à casa de Deus, o autor aos Hebreus afirma com clareza que através do sangue de Cristo podemos confiantes nos aproximar humilhados além do véu. “Assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada e os nossos corpos lavados com água pura.” Hebreus 10.22. Assim como Abel (Hb 11.4), podemos nos aproximar com plena convicção de fé e um coração sincero, um culto superior, pois, é segundo as Escrituras. O culto é evangélico porque o evangelho é o reflexo daquilo que é pregado, orado e cantado. O povo do pacto é alimentado pelo evangelho e o Espírito Santo atrai os incrédulos para ouvir as boas novas de salvação. A grande questão é que nos nossos dias os cultos foram divididos por temas. E com isso há grandes prejuízos. Me parece que o que temos hoje são fatias de um bolo que não poderia ser ratificado. Culto de adoração, culto da consagração, culto evangelístico, culto de oração e/ou doutrina. Acredito que o culto deverá conter esses elementos, não há culto solene sem oração ou exposição da sã doutrina. Não poderá haver culto sem o evangelho ou sem consagração. Todo culto deverá conter elementos prescritos na Palavra, como disse Timothy Keller [5], em resumo:

se o culto de domingo visa em primeiro lugar o evangelismo, aborrecerá os santos. Se visa principalmente a instrução, confundirá os incrédulos. Mas se visa louvar o Deus que salva pela graça, isso vai instruir os de dentro e desafiar os de fora. A boa adoração corporativa será naturalmente evangelística.

Complemento dizendo que, todo esforço não será útil para somente abastecer os santos ou atrair os incrédulos, o culto deve ser bíblico e conter elementos que glorifiquem o Senhor, que é santo e soberano sobre todos os corações.

O culto deve ser pactual, significa não ser tradicional ou moderno. Essas formas culturais de culto não são apropriadas ao contexto teológico segundo as Escrituras. Manter a distância das formas contextualizadas de culto segundo as especulações humanas deve ser o dever do cristão. O culto deve ser pactual pelo fato de ser baseado na aliança de Deus com o seu povo. De acordo com a continuidade do Antigo e Novo Testamento, conforme prescrito na lei. O culto deve ser pactual porque possui um caráter legal e íntimo como um casamento, a comunidade dos eleitos com o Deus Triuno (Ef 5), uma verdadeira aliança. Muitos podem objetar dizendo que precisamos de um culto contemporâneo, com a intenção de atrair uma nova geração de crentes que vivem numa outra forma cultural de adoração. Engano! Nosso culto deve ser guiado pelo padrão das Escrituras, não é a cultura que dita a forma da santa convocação nem os elementos oferecidos na adoração. Outros podem destoar do conceito de culto pactual, devido não ser uma linguagem acessível. No entanto, como disseram os reformadores devemos falar no vernáculo, ou seja, numa linguagem compreensível. A ordem da pactualidade do culto solene não despreza uma linguagem acessível, nem muito menos a suficiência do texto sagrado. A estrutura que predomina nas Escrituras é o pacto, a Bíblia é um documento pactual, deve ser necessário essa compreensão para não restar dúvidas sobre essa forma de culto. Há um diálogo entre Deus e o Seu povo no culto, vejamos essa citação: "Deus nos diz: “Eu serei o seu Deus” e nós respondemos: “Nós seremos o seu povo”. Deus nos chama à adoração e respondemos em cântico. Deus nos fala a sua Lei, nós lhe respondemos com a confissão dos nossos pecados. Ele nos absolve dos nossos pecados, nós respondemos em oração. Ele nos fala pela Palavra e nos sacramentos, nós respondemos com dádivas de gratidão e doxologia. Isto é o que realmente significa dizer que o nosso culto é pactual." O culto é a renovação da promessa pactual que Deus fez em Cristo conosco, esse pacto da graça é renovado a cada semana na exposição da Palavra e nos Sacramentos.

O culto deve ser histórico porque é necessário que seja coerente com a doutrina dos apóstolos, que tenha continuidade com a história da igreja e que realce a maneira que os nossos antigos cristãos cultuaram solenemente o Deus Triuno. Deve ser um culto histórico e unido a tão grande nuvem de testemunhas (Hb 12.1). Quando nos reunimos no dia do Senhor, devemos ter em mente que estamos de forma coerente afirmando aquilo os antigos cristãos também afirmaram sobre a solenidade e simplicidade do culto. Seguindo o modelo básico da igreja primitiva sobre o culto, conforme testemunho dos pais da igreja, dos reformadores e seus escritos. Como afirma o Hyde [6]

em resumo, seguimos este modelo básico da Igreja primitiva de culto, no qual a Palavra é lida e pregada, os sacramentos são celebrados com ação de graças, orações de confissão, intercessão, graças são dadas, e as ofertas do povo de Deus coletadas para o ministério da misericórdia.

O culto deve ser alegre e reverente, e isso quer dizer cheio de temor ao Senhor. Não espontâneo e sem entendimento. Aqui, chegamos num ponto controverso. Quem disse que um culto recheado de risos, gritos e danças é um culto alegre? Quem disse que um culto silencioso, harmonioso, sem expressões extravagantes é um culto triste? A liquidez dos cultos perde completamente o sentido de alegria sólida e perseverante. Segundo os Salmos, o culto é extremamente alegre e reverente (Sl 100.1-3). Percebemos o salmista enfatizando extrema alegria e temor. A questão é que a falta de percepção de quem nós somos não permite-nos entender o que significa verdadeira alegria no culto ao Senhor. Não seria a hora de entender o que de fato é, e o que não é alegria? Alegria não quer dizer ter liberdade para fazer o que quiser, também não quer dizer oferecer ao Senhor o seu culto do seu jeito conforme seu bem parecer. Um culto alegre significa uma grande expectativa que Deus irá lançar sobre nós a Sua graça quando diante dEle estivermos reverentes com tremor e temor (Sl 2.11). O culto alegre é um deleite na bondade do Senhor e em resposta manifestamos nossa gratidão diante do seu favor. A alegria é a condição de um coração que foi profundamente convicto dos seus pecados diante de um Deus Santo que foi compassivo e misericordioso. A alegria de um culto é a qualidade de um coração que foi livre da condenação e aceito por um supremo e justo redentor. Alegria e agitação não são sinônimos, emoções desenfreadas e extravagantes na verdade só enfatizam falta de reverência e temor diante de Deus que é fogo consumidor. Nas palavras do Robert Godfrey [8],

Devemos lembrar que reverência nem sempre significa calma, e alegria nem sempre significa ruído. Alegria e reverência são, antes de tudo, atitudes do coração para as quais procuramos manifestações apropriadas no culto. A alegria pode ser intensa no canto de uma canção muito tranquila. A reverência pode ser manifesta no cantar alto.

Devemos a exemplo dos santos no AT e NT oferecer ao Senhor um culto alegre e reverente, “grandes coisas fez o Senhor por nós e por isso estamos alegres” (Sl 126.3).

O culto deve ser litúrgico, organizado e estruturado. Isso não quer dizer mecânico ou seco como se não houvesse vida. O culto deve ser compreensível e simples, seguido conforme o rito (Lv 9.16 cf. Lv 10.1; Dt 12.29-32), isso não quer dizer cheio de rituais antropocêntricos. Liturgia ou ordem de culto significa um serviço, Cristo e o Seu povo como num banquete santo, uma atividade pactual. Nos é devido adorar ao Pai em espírito e em verdade (João 4.24), todavia, existe uma estrutura para que essa adoração seja oferecida. A necessidade da liturgia não é transformar o culto em ritos idolátricos, a ausência da liturgia não quer dizer que o culto torna-se dirigido pelo Espírito Santo. É necessário cautela, precisamos ser fiéis ao padrão divino que está prescrito em Sua Palavra. Uma estrutura litúrgica biblica de culto não será enfadonha ou cansativa, será sim, de grande ensinamento e isso apontará a glória de Deus em Cristo. O centro da liturgia é a Palavra de Deus lida e proclamada, como também os Sacramentos administrados corretamente. A congregação entoa cânticos, faz orações e confissões, declara a confissão de fé e ajunta ofertas para os necessitados finalizando com uma benção desafiando os cristãos a seguirem firmes e com fé na proclamação do evangelho. Os elementos do culto, conforme prescritos nas Escrituras, precisam enfatizar e anunciar o Senhor Jesus Cristo e seu supremo e perfeito sacrifício. A igreja precisa compreender que a cultura não tem autoridade sobre o culto ao Senhor. O Culto conforme e como o Evangelho é contra e supra cultural. A adoração deve ser segundo as Escrituras, o sermão expositivo deve ser compreensível, os sacramentos devem ser administrados corretamente, as orações e ações de graça no culto precisam ser rendidas segundo a vontade soberana e a renovação pactual estabelecida. Combatemos o culto místico, louvores que exaltam o homem, uma liturgia idólatra, confissões positivas, apelos compulsivos, orações que obrigam Deus satisfazer desejos ególatras. Juntamente com as Escrituras precisamos priorizar o culto solene abastecido de sermões expositivos, liturgias confessionais, sacramentos biblicamente administrados e orações humilhadas. Nas palavras de Calvino temos uma ótima advertência [9]: 

Exortamos os homens a que não adorem a Deus de modo frígido e descuidado, e enquanto apontamos o modo, não podemos perder de vista o fim, nem omitir qualquer coisa que diga respeito àquilo que apontamos. Proclamamos a glória de Deus em termos muito mais elevados do que estávamos acostumados a proclamar antes, e com todo vigor trabalhamos para tornar as perfeições nas quais a glória de Deus brilha mais e mais conhecidas. Exaltamos tão eloquentemente quanto podemos seus benefícios a nós, ao tempo em que conclamamos outros a reverenciar sua majestade, render a devida homenagem à sua grandeza, sentir a devida gratidão por sua misericórdia, e nos unirmos em seu louvor.

Portanto, concluo que devamos rejeitar todo e qualquer culto a si próprio. O culto do ego, das habilidades, das conveniências. Rejeitemos com força a hipocrisia dos fariseus e a religiosidade dos líderes dos judeus. Rejeitemos toda influência cultural e que a cada semana seja a nossa doxologia oferecer ao Senhor um culto segundo as Escrituras.

“Apliquem-se a fazer tudo o que eu ordeno a vocês; não acrescentem nem tirem coisa alguma.” Deuteronômio 12. 32.

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NOTAS:

[1] Prefácio do livro - Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[2] Confissão de Fé de Westminster, capítulo XXI.1.  

[3] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[4] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[5] Timothy J. Keller, “Reformed Worship in the Global City,” in Worship by the Book, p. 219.

[6] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[7] Hyde, Daniel R. O que é um culto reformado? Os Puritanos, 2014.

[8] W. Robert Godfrey, Pleasing God in Our Worship (Wheaton, IL: Crossway Books, 1999), p. 24.


[9] João Calvino, The Necessity of Reforming the Church (Audubon, NJ: Old Paths Publications, 1994), p. 25–26.

8 de abr. de 2016

Uma Preciosa Exortação à Igreja (1 Jo 2.12-17)

Por Thiago Oliveira

12. Filhinhos, eu lhes escrevo porque os seus pecados foram perdoados, graças ao nome de Jesus.

13. Pais, eu lhes escrevo porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu lhes escrevo porque venceram o Maligno.

14. Filhinhos, eu lhes escrevi porque vocês conhecem o Pai. Pais, eu lhes escrevi porque vocês conhecem aquele que é desde o princípio. Jovens, eu lhes escrevi, porque vocês são fortes, e em vocês a Palavra de Deus permanece e vocês venceram o Maligno.

15. Não amem o mundo nem o que nele há. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.

16. Pois tudo o que há no mundo — a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens — não provém do Pai, mas do mundo.

17. O mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.

Introdução

Após o apóstolo João falar do mandamento do amor e advertir os crentes de que a ausência do amor é a ausência de luz, ele passa a falar sobre o mundanismo. João vai se dirigir a toda a Igreja. Ele não segmenta a sua fala a um grupo, mas exorta toda a congregação dos santos. Uma das coisas que vale a pena ressaltar é o caráter multi-geracional do Corpo de Cristo. A Igreja é composta de crianças, jovens, adultos e idosos. Quando fala que escreveu aos seus filhos no versículo 12, João usa uma linguagem fraterna, que lhe é particular. Ele, por ser idoso, considerava as ovelhas de seu rebanho filhos, e por elas tinha um afeto paternal. Após o termo generalizado, no versículo 14 ele parece falar com os filhos dos pais mencionados no versículo anterior. Podemos deduzir que sua fala alcançava aos jovens, citados diretamente nos versículos 13 e 14, mas também crianças, que podem preencher o espaço existente entre os “pais e filhos” a quem o apóstolo se dirige.

Antes de exortar a Igreja para que ela não seja seduzida pelo sistema maligno que assola o mundo desde a Queda, João a encoraja e lhe faz lembrar as bênçãos que vem do Senhor Jesus para sua amada noiva. Ele enfatiza que escreveu, justamente porque a escrita é um registro de algo que é dito. Louvado seja Deus que inspirou tais homens santos e deixou registrada as suas Palavras, assim, nós hoje temos acesso a este banquete espiritual e podemos desfrutar deste maná.

Bênçãos em Cristo (12-14)

Ao dirigir-se ao Corpo de Cristo e falar alguns motivos de ter escrito a sua epístola, João fala das bênçãos que o Senhor Jesus concede a sua igreja. A primeira delas é o perdão dos pecados. Isto se dá por graça e graças ao nome de Jesus. Ao falar do “nome”, o apóstolo tenciona falar daquilo que ele representa, que é a pessoa e o ofício de Cristo como sendo o enviado de Deus para salvar a humanidade do pecado e da morte. Esta é a dádiva maior que herdamos de Cristo. Ser perdoado é não ter mais empecilho ao nos relacionarmos com Deus. Está escrito: “Mas as suas maldades separaram vocês do seu Deus; os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele, e por isso ele não os ouvirá”. Isaías 59:2. Todavia, quando perdoados, nossos pecados são lançados fora e estamos livres e podemos atender ao convite feito pelo autor do livro de Hebreus: “Sendo assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada e tendo os nossos corpos lavados com água pura”. Hebreus 10:22. Maravilhoso é saber que antes erámos inimigos do SENHOR por causa de nossa rebeldia para com suas santas ordenanças, mas que purificados por Cristo somos íntimos do Deus triúno e podemos gozar de sua presença e infinita bondade.

A segunda benção é o conhecimento de Deus. Este se dá por meio da revelação. O Soberano se revelou aos homens e num sentido geral fez-se conhecido através da natureza (Rm 1.20). Mas aos seus filhos Deus se revela de uma forma especial. Pois, através do Espírito que habita em nós, temos discernimento daquilo que é espiritual e o que antes enxergávamos embaçado, agora vemos com nitidez. Obviamente que o nosso conhecimento de Deus não é exaustivo, pois muita coisa ainda é mistério para nós, todavia, conhecemos o suficiente para nos prestarmos em adoração diante do nosso Senhor, sabendo que Ele é o único e verdadeiro Deus, e fora dEle não há outro. Este conhecimento não é apenas teórico, ele é também relacional. Conhecemos a Cristo de andarmos com Ele. Ao dirigir-se aos pais, isto é, aos mais velhos, o apóstolo apela para que eles transmitam este conhecimento para os mais jovens. A fé precisa dos pais precisa ser transmitida aos filhos. Isto se dá em casa, no ambiente familiar. Temos um grande problema em nossa geração: os pais terceirizam a educação de suas crianças. E aqui inclui-se também a terceirização da instrução bíblica. Que os pais não esqueçam do provérbio que diz: “Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele”. Provérbios 22:6.

A terceira benção, é a vitória sobre o maligno. O apóstolo endereça aos jovens esta fala, pois, na juventude as mais diversas tentações nos assolam. O mundo parece mais sedutor para aquele que está no auge de seu vigor físico. Os que estão na flor da idade têm muitos atrativos. E são nestes atrativos que muitos são fisgados e sucumbem aos desejos pecaminosos, entregando-se as paixões da mocidade. No entanto, João assevera que mesmo jovem, o crente tem a vitória decretada sobre as hostes do mal, e sua vitória não está na sua força física ou capacidade intelectual. O jovem que vence o maligno é aquele que tem a Palavra de Deus.

Muitas igrejas tem negligenciado a doutrinação de sua juventude. Para atrair os jovens apostam em entretenimento, e muitos estão dentro das igrejas sem ter um conhecimento substancial da Palavra. Não é o entretenimento que deve “prender” os jovens na igreja. Eles precisar ter consciência de que o mais importante na vida cristã é ouvir e assim aprender mais do Evangelho, para praticar em seu cotidiano. Não levar a sério a pregação da Palavra para os jovens é uma característica daquilo que João irá falar em seguida.

Cuidado com o mundanismo (15-17)

O mundo, no contexto da passagem, é o sistema de valores que opera entre pessoas pecadoras que tem Satanás como seu mentor. João novamente faz o uso de contraste e numa afirmação categórica diz que aquele que ama o mundo não tem o amor do Pai celestial. Não existe um meio termo: ou se deseja a Deus e as coisas que são do alto, ou se deseja as coisas terrenas, transformando-as em ídolos.

As coisas do mundo são resumidas em uma lista com termos abrangentes. A saber temos: i) a concupiscência da carne, ii) a concupiscência dos olhos e iii) a soberba da vida. Os desejos da carne são desejos perversos, uma cobiça que fere o décimo mandamento. Muitas vezes este desejo é ativado pelos olhos, que quando fitam determinada coisa, faz o interior desejar o objeto que está sendo olhado. Daí vem a ganância e a vontade de ter passando por cima de qualquer coisa. Esse “ter” resulta em orgulho. O homem olha para o que já fez e já acumulou para si nesta vida e se engrandece por isso. Precisamos ter muito cuidado com isso.

Infelizmente, alguns líderes evangélicos tem dado ênfase a um estilo de vida materialista e o consumismo tem invadido as igrejas com uma infinidade de produtos com o selo “gospel”, concebido e voltado para o público evangélico, que já tem sido explorado pelo mercado como um bom nicho para se investir. John Stott, como presidente do Grupo de Trabalho sobre Teologia e Educação da Comissão de Lausanne para Evangelização Mundial, foi um dos responsáveis por elaborar, em Outubro de 1980, o Compromisso Evangélico Com Um Estilo de Vida Simples. Em sua obra, Discípulo Radical, ele afirma que a simplicidade é uma característica essencial de um discípulo de Jesus. Esse estilo de vida simples está associado a uma postura de mordomia, que é o cuidado com os recursos que Deus colocou sobre a nossa responsabilidade. O cristão não precisa se isolar do mundo. Ele não tem que viver como um monge, longe de tudo e todos. O apóstolo João não adverte para que deixemos o mundo, sua advertência é dirigida ao amor ao mundo.

Sim, podemos ter posses. Não é errado possuir bens e até mesmo investir para que eles frutifiquem. O errado é colocar neles todo o sentido par a vida. Por que quando alguns homens de negócio quando perdem seu patrimônio cometem suicídio? Porque fizeram de suas posses um fim em si mesmo, quando na verdade, se temos algo, este algo deve servir para nosso desfrute e para a ajuda ao nosso semelhante. Compartilhar é uma benção! Quando alguém é cristão e é rico, este faz de sua riqueza seja usada para fins nobres. Há muitos que investiram e investem suas fortunas em missões e obras sociais. Não são os dias daqui que importam para nós, por isso que o conselho do apóstolo Paulo é o de que devemos pensar nas coisas que são de cima (Cl 3.2). Aqui tudo é corruptível e passageiro, portanto, focados na Eternidade, sejamos desapegados a este mundo. Esta é uma marca dos verdadeiros membros do Corpo de Cristo.

Aplicações

1. Devo estar ciente de que em Cristo Jesus, nas regiões celestiais, eu sou abençoado. As coisas mais preciosas já me foram dadas. Sendo assim, devo descansar no meu Senhor e com gratidão prestar um culto sincero e jubiloso durante todo o meu viver.

2. Não posso depositar a minha esperança nas coisas do mundo, pois, se eu fizer isto, serei um idólatra e não tenho o amor do Pai. É necessário desapegar do materialismo e adotar um estilo de vida simples.

3. Preciso ser um bom mordomo dos recursos que graciosamente recebi dos céus. Administrar bem os recursos desta terra é cultuar a Deus e prestar-Lhe serviço. 

6 de abr. de 2016

Conversão Cristã e Marxismo

Por David F. Wells
O marxismo já foi considerado por alguns uma heresia cristã. Ele tem a forma da fé, mas o conteúdo do humanismo ateu. O marxismo tem fortes semelhanças com a fé cristã e divergências importantes. A teologia cristã concorda com a análise inicial de Marx, isto é, a avaliação da discrepância fundamental do ser humano entre ser e dever ser. Ele concorda com a percepção da necessidade da mudança moral básica e constante, como de constante consciência autocrítica. A fé cristã, baseada na Bíblia, lida com essa tarefa moral socialmente relevante; ela não consiste apenas em um sistema de cosmologia ou um conjunto peculiar de costumes étnicos. Na verdade, ela insiste na centralidade da mudança moral e não permite seu desaparecimento periódico em ondas alternadas de dogmatismo e pragmatismo.
Jesus, depois de alimentar as multidões, não permitiu que o considerassem apenas um fornecedor estimado de provisões materiais (Jo 6.15). O cristianismo, também, se importa que todos tenham as necessidades da vida providas. Mas também sustenta que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4) – versículo algumas vezes citado por líderes marxistas, embora apenas a primeira parte! Do ponto de vista cristão, viver consiste em realizar a vontade divina, não buscar o próprio bem-estar. O materialismo inato aplica um truque sujo no marxismo nesse ponto, por meio de uma meia-verdade que muitas vezes se apresenta como a plenitude do evangelho. Na verdade, precisamos de pão, mas não podemos nos contentar quando o temos. Meios materiais não resolvem problemas morais, certamente não quando os problemas são vistos sob o domínio do ego.
Além disso, a fé cristã concorda com Marx a respeito da necessidade de mudança na vida, no trabalho e nos relacionamentos entre os seres humanos (ou seja, na aplicação individual). Embora o cristianismo contemple a necessidade de mudanças nas instruções sociais e na legislação, enfatize o indivíduo principalmente, acima das alterações apenas nos métodos, estruturas, nas leis ou nos oficiais – e que os marxistas tantas vezes parecem propagar. O cristianismo é completamente cético em relação a esquemas globais de salvação social, esquemas que os seres humanos são notoriamente incapazes de pôr em prática.
Por fim, a teologia cristã concorda com Marx que essa mudança nos seres humanos deve ocorrer no sentido de que todos se importem com as outras pessoas e com a humanidade. Marx aqui está bastante certo ao identificar o enigma da alienação moral da humanidade: a falta de consideração para com o próximo. Não pode haver lugar no cristianismo para o cinismo que finge tentar estabelecer uma sociedade mais justa e fraterna. Os problemas morais envolvidos na manutenção da vida humana e na associação humana não desaparecem se forem ignorados, mas precisam de constante atenção, não menos no Ocidente que no Oriente. Como engendrar um comportamento socialmente responsável é de fato um problema de relevância imediata em países cuja cultura é dominada pela filosofia da “geração do eu”.
Em suma, a teologia cristã apoia o conceito da conversão concreta. No entanto, a fé bíblica também chama à conversão completa no sentido de a pessoa se voltar não apenas para o próximo, mas para Deus. Isso é fundamental quanto à motivação. A menos que Deus seja o objetivo e o penhor, não há razão para a manutenção de padrões morais absolutos. Quando Deus é ignorado, e as mudanças se baseiam apenas na autoridade humana, o relativismo moral é inevitável porque o poder da determinação moral é dado a indivíduos ou grupos seletos que facilmente confundem padrões morais com seus interesses. Mesmo no mais elevado dos casos, a desonestidade, pelo bem da causa, pode tornar-se desonestidade por causa de algum objetivo pessoal sem possibilidade de correção. O relativismo moral também significa o fim do discurso moral entre todos os envolvidos. Ele não pode ser contido, e acaba se voltando contra seus primeiros defensores mais bem-intencionados. Nesse ponto, o compromisso do cristianismo com a justiça logicamente exige padrões morais absolutos, e eles são impensáveis sem a autoridade de Deus.
O mesmo é verdadeiro no campo da motivação. O grupo, o coletivo, a sociedade e o Estado são fundamentalmente incapazes como motivadores do altruísmo. A vontade individual sem dúvida questiona as exigências morais alheias. Lidamos aqui com o problema da possibilidade da existência da moralidade sem a religião. Parece haver profunda sabedoria nas cláusulas do Antigo Testamento que apoiam exigências éticas na autoridade divina: “Não explorem um ao outro […]. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês” (Lv 25.17; cf. Gn 50.9).
Outro problema é como as exigências morais objetivas podem ser subjetivadas ou internalizadas. A teologia cristã duvida da capacidade da educação, ou da mera apresentação de ideias, para produzir a mudança moral. O marxismo prossegue com esse discurso, e deve ser visto como idealista. Às vezes se tem a impressão, em países socialistas, que as fortes forças do nacionalismo são empregadas como motivadores em direção à meta moral pretendida. Mas isso, como a reintrodução periódica dos princípios capitalistas no caminho para o socialismo, parece apenas mais uma tentativa de “atravessar o rio nas costas do crocodilo”; o nacionalismo sem dúvida não cria o “homem novo” da “irmandade humana”, mas pode facilmente se tornar uma das mais potentes e desagradáveis encarnações do “velho homem”.
“Medidas administrativas”, ou que pressionem as pessoas para que se comportem com correção, provaram-se ineficientes. A aplicação da força – onde, lembremos, busca-se a mudança moral fundamental – produz apenas hipocrisia, falta de confiança e, de maneira generalizada, reconstitui com exatidão o que se considerava o problema, no início. Educação e acompanhamento são medidas externas que não penetram no coração. É inútil pensar que o pecador pode realizar a própria conversão, ou pior, a dos outros. Não ocorrerá a conversão do próximo sem a conversão de Deus. A redescoberta do próximo sem a redescoberta de Deus e vã; o ateísmo marxista causa estragos com suas próprias metas elevadas.
Por isso o jovem Marx, depois de ter esboçado o problema do homem como o único ser na criação que não cumpre seu objetivo, continuou a afirmar que o cristianismo é necessário para o desenvolvimento moral completo. O cristianismo, acima de tudo, ressalta a questão da internalização do bem, de modo que ele se torne uma expressão espontânea do crente. Onde as pessoas encontraram Jesus, a mudança moral (como na história de Zaqueu, o cobrador de impostos) não surgiu como consequência de uma ordem, mas apareceu de modo espontâneo, a evolução de uma necessidade, não de coerção. Também por isso Agostinho, Bernardo e Calvino se referem ao “testemunho interno” do Espírito de Deus, que autoriza a mensagem objetiva anunciada e se torna a propriedade mais íntima da pessoa. Isso efetua a mudança no “coração”, no centro de motivação, e ultrapassa a mudança moral como postulado. Fala do amor como dom divino, derramado em nosso coração (Rm 5.5). Sem ele, procuraremos em vão pela mudança moral que combine autocrítica e a dedicação inabalável aos padrões absolutos do que é certo.
O idealismo dos marxistas muitas vezes é admirável, mas a sua visão e programa são fatalmente falhos pela avaliação do egoísmo e da injustiça, e do perdão e da mudança. No entanto, por mais triste que a história da fé cristã às vezes seja, ela gerou no mundo homens e mulheres criativos e de coragem que mudaram profundamente o curso da vida. E isso pode acontecer de novo! Pois o mesmo Deus que sustenta a vida, governa nosso mundo, regula a ordem moral e dirige o curso da história ainda está chamando pessoas, da mesma maneira, por meio do mesmo evangelho, na mesma vida baseada na ressurreição de Jesus para servi-lo e preservar o que é bom, reto e honroso no mundo. As ondas de materialismo, prático ou teórico, parecem montanhas imponentes, com enorme poder e apelo irresistível, mas sempre elas, também, batem contra a dura realidade da vida. Homens e mulheres foram feitos por Deus. Apesar do alardeado idealismo, de um lado, e dos artigos de consumo e Porsches, de outro, o coração humano está sempre inquieto, até encontrar seu descanso em Deus.
***
Trecho extraído da obra “Volte-se para Deus – A conversão cristã como única, necessária e sobrenatural”, de David F. Wells, publicado por Shedd Publicações: São Paulo, 2016, p. 182-187. Traduzido por Vivian do Amaral Nunes. Publicado com permissão. Via: Tuporém

4 de abr. de 2016

Cosmovisão Sob Perspectiva - Criacional, Redentora e Escatológica

Por Thomas Magnum[i]


O passo mais importante para o cristão é tornar-se informado sobre a cosmovisão cristã, uma visão abrangente e sistemática da vida e do mundo como um todo. Nenhum crente hoje pode ser realmente eficaz na arena das ideias até que tenha sido treinado a pensar em termos de cosmovisão. (Ronald Nash)


Não raro, a aplicação do estudo teológico as mais variadas esferas da vida humana se limitam a comunidade cristã local e a seu calendário de programações semestrais ou anuais; com conferências, congressos, simpósios etc. Não sou contra essas programações, pelo contrário participo tanto ouvindo, como falando em eventos assim e acho benéfico, mas, o problema é que esse tipo de reflexão não pode se limitar a períodos programados.

 Ao pedir que cristãos leigos ou mesmo seminaristas apliquem o estudo teológico de forma contextual a sociedade, arte, música, família, relacionamentos, atividade profissional e atividades intelectuais ou acadêmicas deve-se saber que esbarraremos em grandes muralhas que precisam ser transpostas. A aplicação da teologia na vida prática muitas vezes é um grande dilema para muitos cristãos. Como ser um profissional para glória de Deus ou como ser um pai ou mãe par glória de Deus? Ou mesmo, como ser um pintor ou escultor ou poeta para glória de Deus? Por vivermos num contexto secularizado e como dizia Francis Schaeffer pós-cristão, temos dificuldades enormes para equiparar nossa vida de forma integral com o ensino do cristianismo. Ao falarmos da visão teológica é necessário que esclareçamos alguns pontos importantes. Todo homem possui a semen religionis (semente da religião), todo homem ou mulher tem afeições religiosas, sejam essas direcionadas corretamente ao Deus da Bíblia ou a um deus criado pela imaginação humana.

Ao tratarmos de culto e cultura estaremos em campos paralelos, à prática cultural é identificável pela prática religiosa de indivíduos, grupos sociais, cidades, países ou num contexto mundial. A visão teológica está presente em todos os contextos culturais, o missiólogo e antropólogo Ronaldo Lidório nos diz que

Observar a cultura como ela é (a partir de uma observação êmica) e estudá-la à luz de um processo bíblico (observação teológica) é um exercício válido para todos os que lidam com a exposição e a vivência do evangelho com outras culturas, a fim de entender bem como aquele valor bíblico está de fato sendo compreendido e aplicado pelo grupo receptor [ii].

A observação pelo espetro sócio-cultural como diz Lidório em seu livro Comunicação e Cultura não pode ser apenas pelos primas ético e êmico, a partir de meus valores culturais e a partir somente dos valores culturais do outro, daquele que será receptor da mensagem do evangelho, mas sim, por uma observação êmico-teológica num contexto missiológico. A cultura também é beneficiada pela graça comum de Deus em muitos aspectos, no nosso caso no Ocidente temos uma forte influência da moral cristã. O pensamento social e político em muitas esferas nacionais são fruto da cristandade. No entanto há uma dificuldade de empregabilidade dos ensinos cristãos a uma prática ética, esta prática não tem compromisso com a Escritura Sagrada. Quando um contabilista é tentado a realizar manobras ou transações que chocam com o ensino cristão? O que fazer? É evidente que a resposta a essa pergunta é a mesma para toda a ética ensinada pelo cristianismo que são fruto da lei de Deus, não furtarás. 

A Bíblia é a lente pela qual devemos ler o mundo. O cristianismo é a única forma correta de ler a sociedade em todas as suas camadas – famíliar, política, educacional, artística, relacional. Nosso grande desafio de fato é uma visão teológica teoreferente. No desenvolvimento do pensamento cristão a cristandade foi tentada a mudar sua referência teológica de Deus para uma referência antropocêntrica, houve uma convergência para o homem, centralizando a criatura. 

Precisamos ter uma visão teoreferente, Deus como referencial não só para a vida em comunidade de fé, mas, nosso papel na sociedade, na academia, na vizinhança, na família. Essa visão será fruto inicialmente de uma correta apreensão da criação descrita nas Escrituras Sagradas.

A doutrina da criação é de grande importância para uma cosmovisão teoreferente, se não houver uma correta abordagem da origem do mundo e do homem não se obterá uma completa e correta concepção do propósito para o qual o homem fora criado, para o qual o mundo fora criado. A criação ex nihilo é nosso ponto de partida para uma cosmovisão cristã bíblico-teológica tendo Deus como o ponto central de sua gênese ao seu sentido último. Franklin Ferreira nos diz que

Esse Deus criou por seu poder todas as coisas do nada, e, originalmente, toda a criação era boa. Essa noção da criação do nada é importantíssima para a fé cristã. A expressão latina é ex nihilo. Deus não precisou de nada preexistente para criar. O Deus Eterno cria tudo do nada, sem precisar de nenhuma ajuda. Portanto, não havia nenhuma matéria prévia ao lado de Deus na criação. Deus cria a matéria. Aliás, Deus cria o próprio tempo. Deus cria a história. Tudo foi criado por Ele. Deus criou toda a criação muito boa. Gênesis 1.1-31 afirma esta verdade seis vezes. Deus cria e diz: “É bom” (Gn 1.10,12,18,21,25,31). Deus cria, e é bom. E no final do relato bíblico, Deus cria e diz: “Muito bom”. E Deus cria todas as coisas para que estas anunciem sua glória, amor e bondade [iii].

Deus não precisava criar, afinal, Deus não precisa de nada, se precisasse não era Deus. Ele decidiu criar em um ato de soberania e sabedoria divina e o propósito dessa criação é sua glória. Deus criou do nada, seu eterno poder criou de forma boa, sua criação segue seu propósito, seu decreto estabelece a história da humanidade, sua providência guia o mundo a encarnação do seu eterno propósito, trazendo a cabo o que foi estabelecido por seu decreto eterno.

O estudo dos decretos leva naturalmente à consideração da sua execução, e esta começa com a obra da criação. É a primeira, não somente em ordem cronológica, mas, também como prioridade lógica. É o começo e a base de toda revelação divina e, consequentemente, é também o fundamento de toda vida ética e religiosa. A doutrina da criação não é exposta na Escritura como uma solução filosófica do problema do mundo, mas, sim, em seu significado ético e religioso, como uma revelação da relação do homem com seu Deus. Ela salienta o fato de Deus é a origem de todas as coisas, e de que todas as coisas Lhe pertencem e Lhe estão sujeitas. O conhecimento desta doutrina só se obtém da Escritura e se aceita pela fé (Hb 11.3)[iv].

Fica entendido que por nossa perspectiva teológica é incoerente interpretar a criação e seu propósito sem o decreto de Deus. Como nos disse Berkhof : o estudo dos decretos nos levam à consideração lógica da sua execução. Sem essa compreensão a partir do decreto de Deus na criação toda ordem do mundo é adulterada, somente através do que diz a Bíblia sobre o mundo e a finalidade de sua existência podemos ter um verdadeiro entendimento da criação e sua ordem missional [v]. Como dito anteriormente essa adoração do universo e toda a criação de Deus lhe é prestada como finalidade, o telos. Deus, sendo Deus não precisa de nada nem de ninguém como Hodge afirma:

[...] À luz da auto-suficiência absoluta de Deus, deduz-se que a criação não foi designada para suprir ou satisfazer qualquer necessidade de sua parte. Ele não é mais perfeito ou mais feliz por haver criado o mundo. Além disso, deduz-se da natureza de um ser infinito que a razão (ou seja, tanto o motivo quanto o fim) da criação deve estar  nele mesmo. Como todas as coisas são dele e por meio dele, assim também são para ele[vi].

O fato da criação não alterar em nada o caráter de Deus nos é um tema caro na teologia sistemática, Deus não se tornou criador, mas é o eterno criador. Deus é imutável e antes do tempo existir Deus era Deus, auto-suficiente, o Eu Sou o que Sou. Essa independência de Deus e sua suficiência nele mesmo o eleva a um Ser necessário para explicar o sentido da criação. Nos diz Bavinck que

[...] Deus é o Eterno: nele não há passado nem futuro, nem transformação e nem mudança. Tudo o que ele é, é eterno: seu pensamento, sua vontade, seu decreto. Eterna nele é a ideia do mundo, que ele pensa e expressa no Filho; eterna nele também é a decisão de criar o mundo; eterna nele é a vontade de que o mundo seja criado no tempo; eterno nele também é o ato de  criar  como um ato de Deus, uma ação tanto interna quanto imanente. Deus não se tornou Criador, de modo que, primeiro , por um longo tempo, ele não criou e depois criou. Em vez disso ele é o Criador Eterno, e, como Criador, ele era o Eterno, e como o Eterno, ele criou [vii].

A observação por meio sociocultural não é suficiente para uma conceituação antropológica.

O estudo teológico não tem por obrigação somente a instrução dos cristãos no âmbito devocional e eclesiástico. Toda construção teológica desembocará em resultados práticos na vida de um receptor, daquele que for recipiente do discurso dogmático. A teologia não serve como um depósito de debates infindáveis e sem utilidade (embora tenha sido assim em muitos casos), a teologia deve atender e responder questões ligadas a Deus, a sua igreja, ao homem como ser criado e onde ele está inserido – a sociedade – a teologia versa ou dialoga com todas as áreas do conhecimento, sobrepujando-as, a teologia é por assim dizer superior a todos os campos de conhecimento, por ter como objeto de estudo a revelação escrita de Deus. Com isso não estou invalidando a importância dos variados campos do saber, pelo contrário, Deus tem dois “livros” que o revelam, a revelação geral e a especial/histórico-redentiva. As duas, com distinta importância, mas, a última como superior a primeira conforme nos mostra o Salmo 19. 

A teologia reformada tem sido um baluarte desde a reforma protestante. Lutero, Calvino e os demais reformadores foram pensadores sociais também, sua teologia era missional, encarnacional, aplicada a realidade de sua época de forma que o Evangelho responde questões referentes ao homem e seu habitat. Toda construção da antropologia social irá versar sobre questões contingentes e não contingentes em relação à vivência humana ou a seus aspectos observacionais, psicológicos. Conquanto muitas vezes ou a maioria delas, essas observações são tomadas como axiomáticas de forma que tais observações acabam ser tornando “canônicas” na determinação de quem é o homem, o que ele faz aqui, qual é sua função no âmbito social e qual é o propósito de sua vida. Toda essa construção tem um viés ideológico e espiritual, tudo que promove exame da persona irá atrelar-se ou pelo menos tentar ligar-se a realidade, o problema é que a realidade acerca do que é o homem e seu propósito escatológico somente pode ser determinado por uma conceituação fora do homem. A forma de saber quem é o homem e porque ele está aqui é algo espiritual, nem o epicurismo, nem o marxismo, nem o freudismo, nem o psicologismo, nem o sexismo, nem o feminismo, nem socioconstrutivismo tem condições de determinar o que é o homem, a antropologia através de suas investigações observacionais pode até eximir algum raio de luz em relação ao que é o homem, mas, não pode de forma observacional apenas, dizer o que é o homem. O ser humano não pode ser apenas observado eticamente [viii], nem êmicamente [ix], mas, de forma que seja observado por um prisma maior e eficaz, em que a ética e a observação êmica serão julgados por um exame êmico-teológico.

Um arcabouço doutrinário/teológico frouxo nunca poderá produzir um pensamento social e político coerente com o Ser de Deus revelado nas Escrituras. Uma teologia que mina a soberania de Deus e a vileza e o estado caído do homem e sua total inabilidade para alcançar a Deus, produzirá um sistema de pensamento contrário ao cristianismo bíblico. Toda teologia que defende a autonomia da razão humana será um pressuposto para sistemas políticos totalitários, opressores, ímpios, e promotora de atitudes contrárias a uma ética que sobrepuje a construção ideológica.

Sem uma correta abordagem teológica viabilizada pela dogmática cristã não podemos construir ou descobrir qual é o modelo correto de sociedade, política, abordagens artísticas, métodos educacionais, crescimento dos campos do saber. A teologia irá nos mostrar através de suas abordagens do dogma cristão, como Deus deseja que sua criação funcione. É entendível que não há na Bíblia uma fórmula sagrada para a composição de sinfonias, ou uma determinação musical sagrada para a utilização de determinados compassos, ou para uma sacramentalização de determinados instrumentos musicais. Como não há uma fórmula bíblica para técnicas de artes plásticas, ou uma aprovação teológica ao impressionismo ou expressionismo quanto escolas de arte, não há uma ordenança bíblica para se tomar o cubismo ou dadaísmo como escolas de arte cristãs ou mesmo o surrealismo como algo fundamental para a cristandade. O que teremos nas Escrituras é o estabelecimento de uma cosmovisão criacional e redentora. A partir da criação e dos mandatos estabelecidos em Gênesis 1.26-30 temos todo um fundamento para a visão cristã de mundo que será desenvolvido e aplicado em todas as Escrituras.

Podemos concluir  que a cosmovisão cristã é fundamentalmente criacional e redentora. O motivo básico cristão de criação –  queda – redenção é muito importante para uma correta leitura teológica que estabelecerá a ponte para percepções cristãs de mundo. Essa percepção cristã do mundo se exalta sobre toda e qualquer cosmovisão concorrente. Como nos diz Ronald Nash:

Óculos corretos são capazes de por o mundo em foco mais claro - e a cosmovisão correta pode funcionar de um modo muito parecido. Quando alguém olha o mundo pela perspectiva da cosmovisão errada, o mundo não faz muito sentido. Ou o que a pessoa pensa fazer sentido estará, na verdade, errado em aspectos importantes. Aplicar o esquema conceitual correto, isto é, ver o mundo através da cosmovisão correta, pode ter repercussões importantes para o resto da compreensão da pessoa de acontecimentos e ideias [x].

Com essa afirmação de Nash podemos dizer que em grande medida cosmovisões não cristãs tem sua dose de niilismo. Não há propósito último. Numa cosmovisão cristã que se desenvolve a partir de uma abordagem criacional temos claramente uma ordem básica de entendimento em arche, ethos e escathon. Existe um criador de todas as coisas e esse criador estabeleceu leis para o funcionamento de todas as coisas e para suas criaturas, essas leis sejam elas as leis naturais que estarão ligadas ao uma abordagem da teologia natural ou leis preceituais ligadas a revelação especial de Deus, uma teologia redentiva, uma revelação que leva a humanidade a salvação. Essa revelação está em Jesus Cristo encarnado, verbo de Deus e nas Sagradas Escrituras. Com isso estabelecido é evidente que todo esse plano criacional tem um fim, um escathon. Aqui está a importância da progrecividade e organicidade da revelação de Deus aos homens, a Bíblia, a teologia da revelação é crescente e progressivamente dirigida ao clímax da história da redenção de toda criação, essa redenção final contempla tanto os homens como o mundo criado, a restauração de todas as coisas cumpre o escathon de Deus. Sem uma cosmovisão criacional e redentora não chegaremos a uma compreensão escatológica do plano divino.

O passo mais importante para os cristãos é tornar-se informado sobre a cosmovisão cristã, uma visão abrangente e sistemática da vida e do mundo como um todo. Nenhum crente hoje pode ser realmente eficaz na arena das ideias até que tenha sido treinado a pensar em termos de cosmovisão [xi].

Ronald Nash mais uma vez nos esclarece a importância da cosmovisão para o mundo visto por óculos redentivos. Sem essa compreensão cristãos não terão condições de cumprirem devidamente sua missão, que não é apenas evangelizar, mas, glorificar a Deus entre todas as nações. Por isso nos diz o Salmo 98:

Cantem ao Senhor um novo cântico, pois ele fez coisas maravilhosas; a sua mão direita e o seu braço santo lhe deram a vitória!
O Senhor anunciou a sua vitória e revelou a sua justiça às nações.
Ele se lembrou do seu amor leal e da sua fidelidade para com a casa de Israel; todos os confins da terra viram a vitória do nosso Deus.
Aclamem o Senhor todos os habitantes da terra! Louvem-no com cânticos de alegria e ao som de música!
Ofereçam música ao Senhor com a harpa, com a harpa e ao som de canções,
com cornetas e ao som da trombeta; exultem diante do Senhor, o Rei!
Ressoe o mar e tudo o que nele existe, o mundo e os seus habitantes!
Batam palmas os rios, e juntos, cantem de alegria os montes;
cantem diante do Senhor, porque ele vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com retidão.

Salmos 98 (NVI)


[i] O autor é bacharel em teologia pelo Centro de Estudos Teológicos Brasileiro; Bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Joaquim Nabuco; Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints International Seminary, Miami. É professor de Teologia Sistemática no Seminário Congregacional do Nordeste (Campus Recife e Maceió) e no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil, campus Recife. É presbítero na Igreja Evangélica Congregacional de Casa Amarela na cidade do Recife em Pernambuco.

[ii] Ronaldo Lidório Comunicação e Cultura, Ed. Vida Nova, 2014, p.59.

[iii] Franklin Ferreira –  O Credo dos Apóstolos – As doutrinas centrais da fé cristã, p.110,111. Ed. FIEL.

[iv] Louis Berkhof - Teologia Sistemática, p.119. Ed. Cultura Cristã.

[v]  Ao tratar de ordem missional na criação ressalto que tudo que foi criado por Deus rende glória ao Criador, a criação adora ao Criador e lhe obedece às ordens que são manifestadas como obra da providência, sejam de forma ordinária ou de forma extraordinária, logo concluo que a criação também atende a um chamado missional no que se refere a proclamar a glória de Deus (Salmos 19).

[vi] Charles Hodge  Teologia Sistemática, p. 422, ed. Hagnos.

[vii] Herman Bavinck Dogmática Reformada, vol 2, p. 438 – Ed. Cultura Cristã.

[viii] Me refiro ao julgamento cultural baseado em valores culturais peculiares de um povo, ao utilizar o termo ética aqui não há ligação com o julgamento da ético-teológico, mas, a um sistema de costumes e valores de um povo sendo ou não antagônicos ao cristianismo.

[ix] Ao me referir e usar o termo êmico, bem trabalhado pelo antropólogo e missiólogo, Ronaldo Lidório, verso sobre a observação do homem pela lente dele mesmo, observando a cultura por pela ótica do nativo, isolando tal análise de um exame teológico.

[x] Ronald Nash - Cosmovisões em conflito, Editora Monergismo, p.27.

[xi] Ibdem, p.22.