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16 de mai. de 2016

Sexo, poder e dinheiro: cuidado com quem domina você

Por Mark Jones

Se você quer saber quem domina você, descubra quem você está proibido de criticar” (Voltaire)

Se as três irmãs da graça são fé, esperança e amor, também podemos dizer que as três irmãs da carne são sexo, poder e dinheiro.

Anos atrás, eu fui alertado sobre essas irmãs da carne.

Todos nós somos constituídos de maneira diferente em corpo e alma. E nossas constituições naturais alimentam desejos particulares, pois o corpo e alma possuem um relacionamento orgânico entre si. Além disso, a posição social de uma pessoa também tem implicações para os tipos de pecado que ela comete: aqueles que são prósperos são inclinados a certos pecados, aqueles que são pobres a outros. Aqueles que têm grande intelecto são inclinados ao orgulho. Os pais devem ser cuidadosos antes de chamar seus filhos de o próximo Einstein.

Certos pecados são mais dominantes em diferentes estágios da vida. Uma criança possui um coração que será inclinado a certos pecados somente mais tarde. Além disso, os desejos pecaminosos dos indivíduos duram de acordo com suas variadas vocações. Judas roubou porque ele era pecador, e também porque, como tesoureiro, foi colocado diante de uma oportunidade fácil de roubar.

Para responder à objeção de que certos pecados são contrários a outros e que os homens não são dados a todos os tipos de cobiça, Thomas Goodwin explica que as pessoas são inclinadas a diferentes pecados em diferentes estágios de suas vidas. Assim, o jovem pródigo pode tornar-se cobiçoso quando for idoso. Também é verdade que algumas pessoas têm antipatia por certos pecados, mas essa antipatia não é moral, mas física, “ou porque seus corpos não suportam ou por algum outro incômodo que eles veem naquilo” (Goodwin). Um hipocondríaco pode não visitar uma prostituta por temor de ficar doente, em vez de temor de Deus.

A tentação para Davi ter Bate-Seba foi fortalecida pelo fato de que ele podia ter Bate-Seba. Essa tentação para a lascívia foi obviamente diferente para Davi quando ele era velho. Se nós pudéssemos ter qualquer mulher que quiséssemos, provavelmente lutaríamos muito mais com tentação sexual do que fazemos. O quaterback bonitão da universidade normalmente tem tentações maiores com mulheres que o capitão-assistente da equipe de xadrez.

Talvez nós devamos agradecer a Deus agora porque não somos particularmente atraentes ou bonitos; nós podemos agradecer a Deus porque não desfrutamos de muito sucesso; nós podemos descobrir um dia que ele nos manteve pobre (ou com a aparência relativamente mediana) para nos salvar e guardar de muitos pecados.

Nós podemos não achar que dinheiro é tentação até que a porta para o dinheiro se abra um pouquinho. Logo, como um leão provando sangue pela primeira vez, a porta se abre, nossos bolsos começam a ficar cheios daquilo que nos controla, e estamos indefesos contra a putrefação que se iniciou. Tudo isso para dizer que não sabemos o quanto amamos o dinheiro até que se torne realmente uma tentação real. Fique alerta: aqueles que lhe dão dinheiro provavelmente também controlam você de alguma forma. E, assim, você rapidamente é incapaz de criticá-los de qualquer maneira, forma ou jeito. Você se torna cada vez mais cego, como os ídolos a quem você serve (Sl 115). Eu fico feliz que meu empregador é a igreja local e nenhuma organização tem controle sobre mim porque me pagam um monte de dinheiro.

Nós podemos não achar que amamos o poder até que tenhamos um gosto do poder. Tudo o que eu tenho visto até agora em círculos reformados tem somente me convencido que não somente o dinheiro corrompe, mas o poder corrompe ainda mais. De fato, quanto mais dinheiro, mais poder. Aqueles que estão no poder podem rapidamente cultivar uma cultura do medo. Como Voltaire disse, “Se você quer saber quem domina você, descubra quem você está proibido de criticar”. Eu acho que alguns de nós poderiam achar esse exame bastante desconfortável.


M’Cheyne disse bem: “As sementes de todos os pecados estão em meu coração e talvez o mais perigoso é que eu não as vejo”. Imagine ter amigos que realmente desafiarão você e lhe dirão que você está sendo estúpido!

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Fonte: Reforma21

13 de mai. de 2016

Adão e Cristo na Antropologia Reformada

Por Samuel Alves

A igreja brasileira carece de uma antropologia genuinamente bíblica e reformada, é de suma importância compreender na história da Salvação a origem do homem, a queda e os desdobramentos desta queda. Um enfoque apenas na queda seria inútil se não apontarmos para Cristo como o grande e único salvador. A tarefa do pastor/teólogo no estudo antropológico é mostrar a criação, a queda e a redenção do homem. Isto moldará nossa teologia e nosso evangelismo pessoal. Outro aspecto importante a ser destacado é este relacionamento entre Adão e Cristo dentro da revelação progressiva, a Confissão de Fé de Westminster faz a seguinte referência sobre este relacionamento[1].

III. O homem, tendo-se tornado pela sua queda incapaz de vida por esse pacto, o Senhor dignou-se fazer um segundo pacto, geralmente chamado o pacto da graça; nesse pacto ele livremente oferece aos pecadores a vida e a salvação por Jesus Cristo, exigindo deles a fé nele para que sejam salvos; e prometendo dar a todos os que estão ordenados para a vida o seu Santo Espírito, para dispô-los e habilitá-los a crer.

Gal. 3:21; Rom. 3:20-21 e 8:3; Isa. 42:6; Gen. 3:15; Mat. 28:18-20; João 3:16; Rom. 1:16-17 e 10:6-9; At. 13:48; Ezeq. 36:26-27; João 6:37, 44, 45; Luc. 11: 13; Gal. 3:14.

Portanto, veremos neste artigo que a antropologia bíblica esta interligada a cristologia. Na antropologia humanista o homem consegue se salvar, na antropologia reformada o homem é visto na perspectiva da queda. Ela vê o ser humano em estado de pecado, corrompido e dependente de um mediador. A filosofia humanista descarta os efeitos da queda e insiste que homem é neutro e pode tomar uma decisão em relação a Deus.

A ANTROPOLOGIA BIBLICA REFORMADA

Na antropologia bíblica e reformada o ponto de partida é a Escritura, vemos o homem através da revelação, percebemos todo o processo através da revelação progressiva: Criação, queda, redenção e consumação.

A ANTROPOLOGIA HUMANISTA

Na antropologia humanista o ponto de partida é o homem, vemos a referência à filosofia da moral humana, um conceito autônomo e longe das Escrituras e de uma revelação sobrenatural. Sabemos que o grande pecado de Adão e Eva foi pensar autonomamente e comer do fruto proibido.

1. O HOMEM EM ADÃO            

SOLIDARIEDADE DA RAÇA HUMANA

O homem foi criado por Deus em um relacionamento pactual em um estado de integridade (status integritatis), sua vida religiosa era de plena comunhão com Deus, esta vida tinha raízes na aliança. Em Gênesis 2.16-17, podemos ver o estabelecimento do Pacto de Obras e após a queda o Pacto de Graça, que mesmo sendo eterno é estabelecido na história da salvação em Gênesis 3.15.

A queda não foi uma simples “topada” como afirmam os pelagianos e semi-pelagianos, o homem não é um ser “neutro”. Através das Escrituras podemos perceber que a queda foi catastrófica atingindo toda a descendência de Adão, como escreve Paulo aos Romanos: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; (Romanos 3:23 ACRF)”. Fica claro a solidariedade da raça humana, em Adão (representante federativo): herdamos o pecado, foi através dele que o primeiro pecado entrou no mundo e a consequência foi a morte para todos. Grudem[2]  faz a seguinte citação sobre a palavra “todos” no contexto de Romanos:

A ideia de que "todos pecaram" significa que Deus pensa de nós, pois todo pecado quando Adão desobedeceu, é ainda mais enfatizada nos próximos dois versos, onde Paulo diz: Antes da promulgação da lei, não era pecado no mundo. É verdade que o pecado não é levado em conta quando não há lei, no entanto, desde Adão até Moisés reinou a morte, mesmo sobre aqueles que não o fez pecado por quebrar um comando, como fez Adão, que é uma figura daquele que havia de vir. (Romanos 5:13-14)

Este delito não foi um delito leve e simples, mais uma grave afronta contra Deus e sua lei, pecado este que, Deus puniu toda a descendência e lançou sua vingança sobre todo gênero humano, fica claro a herança deste pecado a toda a raça humana.

A despeito de toda argumentação da filosofia humanista, temos respaldo bíblico para defender a queda do homem e suas consequências. Podemos buscar apoio na exegese e perceber que no contexto de Romanos 5.18-19 a palavra “se tornaram” - verbo, aoristo, passivo, indicativo, 3ª Pessoa, Plural (um indicativo aoristo que sugere ação concluída no passado) - quando ocorre o evento da queda toda a humanidade fica debaixo do pecado. Podemos concluir que todos os membros da raça humana estavam representados em Adão e a partir da queda sofreram os efeitos noéticos do pecado.

2.  O HOMEM EM CRISTO

CRISTO MEDIADOR ENTRE DEUS E O HOMEM

Uma vez que todo homem pecou em Adão, Deus em sua soberania nos oferece um plano eterno de redenção em Cristo, após a queda, podemos ver um proto-evangelho em Genesis 3.15, onde Deus promete que o descendente da mulher ferirá a cabeça da serpente, Berkoff[3] faz a seguinte alegação de Cristo como redentor:

Na aliança da redenção, Cristo se encarregou de expiar os pecados de seu povo, sofrendo pessoalmente a punição necessária, e de satisfazer as exigências da lei pelo mesmo povo. E ao tomar o lugar do homem delinquente, ele se fez o ultimo Adão e como tal chefe da Aliança, o representante de todos os quanto o Pai lhe deu. Então, na aliança da Redenção, Cristo é o penhor ou o fiador e o chefe.

Seria necessário que o mediador fosse um verdadeiro Deus/homem, ciente de nossas necessidades, aprouve Deus em seu decreto eterno enviar seu filho unigênito para salvar o homem caído, através da antropologia vemos a inabilidade do homem e vemos em Cristo todo o cumprimento da lei. Cristo preenchia todos os requisitos para ser nosso salvador e redentor. Calvino[4] nas institutas da religião faz a seguinte citação:

Assim, foi preciso que o filho de Deus fosse feito para nós um Emanuel, um “Deus conosco”, de tal maneira que, por uma conjunção mútua, sua divindade e natureza divina fossem reunidas entre si. De outro modo, não haveria proximidade tão direta, nem afinidade tão firme, donde se daria a esperança de Deus habitar conosco, tão grande era a separação entre nossa sordidez e a suma pureza de Deus. Por mais que o homem se mantivesse afastado de toda a mancha, era muito miserável sua condição para que chegasse a Deus sem um mediador.

Aqui esta a base da eterna aliança da graça, a vida eterna só poderia ser obtida se as exigências da lei fossem cumpridas, como o ultimo Adão, Cristo cumpre a lei e obtém a vida eterna para os pecadores eleitos. Se em Adão herdamos o pecado, em Cristo, desfrutamos de uma reconciliação com Deus por causa de sua obra redentora e somos coerdeiros com Ele (Romanos 8.17).

CRISTO E ADÃO

O grande tempo da salvação raiou em Cristo, sua morte e ressurreição traz libertação dos eleitos do julgo do pecado, os filhos de Adão são libertos do poder das trevas e são transportados para o Reino de Cristo (Colossenses 1.13), Ridderbos[5], tece o seguinte comentário sobre o tempo da salvação em Cristo:
É nela que a era presente perdeu seu poder e domínio sobre os filhos de Adão e sobre todas as novas coisas que vieram. Por este motivo, também, todo o desdobramento da Salvação que raiou com Cristo remete sempre e de novo para sua morte e ressurreição, pois todas as facetas nas quais essa salvação aparece todos os nomes pelos quais ela é descrita, no fim, não passam do desdobramento daquilo que esse irromper de suma importância da vida na morte, do reino de Deus neste mundo presente, contém em si.

É neste ponto que vemos o ápice do relacionamento entre o primeiro e o ultimo Adão. Em Cristo temos a redenção, adentramos em toda riqueza do mistério do plano redentor onde Deus manifesta seu caráter trazendo luz à nova criação.

É em Romanos 5.12 que vemos o paralelo que Paulo faz entre Adão e Cristo, vemos o caráter abundante da salvação no tempo e na eternidade, Hendriksen[6] faz o seguinte comentário sobre a passagem:

Além disso, quando temos em mente que esse mesmo capítulo (5) não ensina apenas a inclusão de todos os que pertencem a Adão – ou seja, de toda a raça humana - na culpa de Adão, mas também a inclusão de todos os que pertencem a Cristo, na salvação adquirida por seu sangue (vv. 18, 19; cf. 2Co 5.19; Ef 1.3-7; Fp 3.9; Cl 3.1, 3), e que esta salvação é dom gratuito de Deus a todos os que, pela fé, se dispõem a aceitá-la, não teremos nada de que nos queixarmos.

A Bíblia está cheia de paralelos que demonstram este relacionamento íntimo entre Adão e Cristo, podemos ver a Escritura versando sobre o velho e novo homem. Neste relacionamento vemos claramente a aplicação da expiação limitada, o velho homem é entendido em um sentido individual e a aplicação da redenção é encaminhada ao homem. “Velho” e “novo” apontam para o tempo antes e depois da regeneração pessoal. Esse é o ponto em nossa antropologia: o homem caído sendo regenerado por Deus em Cristo.

CONCLUSÃO

Em Adão vemos um homem criado à imagem de Deus que ao usar a autonomia da razão peca contra Deus e come do fruto proibido, este pecado contamina toda a raça humana e as encerra debaixo do julgo do pecado - quão grande pecado! - culpa e condenação. Este seria o triste fim da humanidade, mas, Deus em sua providência desde os tempos eternos já havia providenciado antes da fundação do mundo um grande salvador. Este salvador foi dado por resgate em favor de muitos. É nos evangelhos de Marcos e Mateus que a palavra “resgate” (lytron) aparece. Naquela época este termo estava associado ao preço pago na compra de escravos, porém, Cristo deu sua vida em troca da libertação dos eleitos de Deus.

Em Cristo vemos a aliança da consumação. Se no antigo pacto o homem caiu em Adão, na nova aliança somos restaurados por Jesus “o ultimo Adão”. O propósito de Deus de redimir seu povo não foi frustrado pela queda, em Cristo, Deus estabelece uma nova aliança com seu povo e o traz para um novo relacionamento pactual. Nesta ultima aliança, Deus une todas as promessas através da história redentora e esta aliança suplanta as administrações das alianças anteriores, pois, aqui alcança o pleno cumprimento das promessas do Senhor ao povo da aliança: “Eu serei o seu Deus e vos sereis o meu povo”.

Em Cristo o homem pecador é regenerado e tem acesso a todos os benefícios do pacto, assim como o filho pródigo que volta para casa e tem seu relacionamento restaurado com seu pai, assim como filhos de Deus em Cristo, tomamos posse da herança eterna.


[2] GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática – São Paulo: Edições Vida Nova, 1999. p. 406.

[3] BERKOFF, Louis (1873-1957), Teologia Sistemática; traduzido por Odayr Olivetti. – 4ª Ed. Revisada – São Paulo: Cultura Cristã, 2012. p. 248.

11 de mai. de 2016

Evangelismo com Mentira: a nova loucura do Lucinho

Por Thiago Oliveira

E lá vamos nós outra vez. Um texto escrito por mim, criticando o Lucinho Barreto... Já fiz isso antes, mas torno a fazer por motivos óbvios: alertar jovens para que não caiam nas loucuras que esse sujeito propõe. A mais nova está bem aqui. Assista ao vídeo e depois volte a ler este pequeno artigo.

Presumindo que você tenha assistido a “loucura de maio”, vamos ao cerne da questão: Esse dito cujo propõe que uma dupla de jovens use o artifício da mentira para obter “conversões” dentro do transporte coletivo. Isso mesmo. Dois jovens entram, enquanto um distribui panfletos evangélicos, outro finge que se opõe ao evangelismo, ambos entram numa discussão teológica/apologética e por fim, o que já é crente, fingindo não ser, dirá que se convenceu e “aceitará” a Jesus após um apelo. EVANGELISMO MENTIROSO É DOSE!

Algumas pessoas - advogando em prol do Lucinho - argumentam que isso é um teatro. Mas daí me vem algumas questões: i) o Lucinho em nenhum momento diz que aquilo é uma peça teatral e nem orienta que os jovens digam isso ao público ouvinte. ii) as pessoas quando assistem a uma peça teatral estão ali conscientes de que estão vendo atores em cena. O método que o Lucinho propõe faz com que as pessoas acreditem que os dois jovens não se conhecem e discutem de verdade. A finalidade também é que o povo acredite que a conversão ocorreu. Logo, definitivamente não é teatro. Está mais para “pegadinha do Malandro”, só falta o “glu, glu, ié-ié”.

A tal “loucura de maio” consiste na quebra do 9º mandamento. O Catecismo Maior de Westminster esclarece. Na pergunta 145 lemos: “Quais são os pecados proibidos no nono mandamento?”. Eis uma parte da resposta: “falar inverdades, mentir”. Mentira é algo repugnante para Deus (Pv 12.22), por isso que os mentirosos são expulsos da Sua presença (Sl 101.7 e Ap 22.15). Quem mente é filho do Diabo, pois é ele o pai da mentira (Jo 8.44). O apóstolo Paulo ensina aos colossenses que a partir do momento em que nos despimos do velho homem e passamos a ser nova criação, moldados a imagem do próprio Deus, devemos abandonar a mentira (Cl 3.9-10). Repito: o cristão deve abandonar a mentira (Ef 4.25). Logo, o que faz uma pessoa em sã consciência faltar com a verdade e simular uma conversão? Há alguém que pode elucidar a questão.

Mark Dever, pastor e diretor do Ministério 9Marcas, escreveu sobre o que caracteriza uma igreja saudável, que por tabela vai diagnosticar também igrejas doentes. Uma das marcas para que a igreja goze de boa saúde é a compreensão exata do que vem a ser evangelização. E por exata, ele quer dizer bíblica. Observem um trecho de sua fala no livro O que é uma Igreja Saudável? : “(...) se em nossas igrejas deixamos de lado o que a Bíblia diz a respeito da obra de Deus na conversão, a evangelização se torna uma obra nossa em que fazemos o que for possível para obter uma confissão verbal”.

Dever continua:

De acordo com as Escrituras, os cristãos são chamados a cuidar, exortar e persuadir os não-cristãos (2Co 5.11). Mas devemos fazer isso por meio da plena ‘manifestação da verdade’, que significa rejeitar ‘as coisas que, por vergonhosas se ocultam’ (2Co 4.2)”.

Quando a igreja entende que deve fazer o trabalho do Senhor do jeito do Senhor, e atentar para a Sua divina soberania em converter os pecadores de maneira sobrenatural através da simples exposição do evangelho, então ela irá parar de confiar em metodologias baratas e não ficará nessa fissura por apresentar números elevados. Isso que o Lucinho propôs retrata a enfermidade da igreja brasileira, que não tem uma compreensão bíblica da evangelização por falta de ensinamento. E como vem o ensinamento? No caso da igreja não há nada melhor que a pregação expositiva das Escrituras. Ela é alimento robusto, pois traz em seu bojo a centralidade do evangelho e busca esclarecer o conteúdo bíblico para os fiéis trazendo aplicações que servem para o dia-a-dia.

Não é coincidência que esse método espúrio de evangelizar venha de um “pastor” que se fantasiou de Superman e de Chapolim. Pastor de uma igreja que em seu púlpito já rolou de tudo: de stund-up até dicas de maquiagem. Igreja que ao invés de se ater ao Ensino da Palavra, enfatiza a adoração por meio de música e realiza “atos proféticos” sem nenhuma fundamentação bíblica. Está tudo entrelaçado meus irmãos. Se falta boa doutrina, a evangelização é comprometida, pois, quem evangeliza desconhece o conteúdo do evangelho. Por isso vemos tantas abordagens evangelísticas que falam sobre obter paz, amor e felicidade em Jesus, mas que não falam o mais importante: Jesus veio para livrar do jugo do pecado e da condenação ao inferno todo aquele que nEle crê. O perdão dos pecados é o centro da boa-nova. O resto até pode vir agregado, mas não é promessa para este mundo.

Finalizo ciente de que vão me acusar de ter inveja do Lucinho e criticá-lo por má fé, na tentativa de me promover em suas costas. Nem precisa ser profeta para saber que em alguns comentários alguém falará (fora de contexto): “não julgueis”. Mas eu teimo em escrever, e teimo na esperança de que jovens que estavam prestes a cometer tal loucura, parem para refletir, dando atenção aos versículos aqui mencionados, e não utilizem este método infame para evangelizar. Se querem compartilhar do evangelho para obter conversões genuínas, gastem tempo estudando a fundo a Bíblia, gastem tempo expondo o que aprenderam através de uma sequência de estudos com algum não-crente e gastem tempo orando para que o Senhor converta o coração daquele que você tem investido em discipular. E no tempo certo, tempo de Deus, os frutos que demonstram conversão irão aparecer.

Oro para que Deus desperte a nossa juventude para o ensino da Palavra.

10 de mai. de 2016

Entrevista com Rodolfo Amorim


Temos o prazer de apresentar aos nossos leitores mais uma excelente entrevista com um dos expressivos pensadores no Brasil na área de Cosmovisão Cristã, pensador da tradição de Abraham Kuyper - também conhecida como tradição kuyperiana. Nosso entrevistado é Rodolfo Amorim. Formado em teologia e em RI com mestrado em Ciências Sociais pela UFMG, obreiro fundador de L'Abri, presbítero licenciado da Igreja Presbiteriana do Buritis. Esperamos que essa entrevista seja para cada leitor um material de elucidação importante sobre Kuyper e a importância do seu pensamento para nosso contexto nacional.
Boa leitura!

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Vemos um crescente interesse no Brasil pelo pensamento neocalvinista holandês. Sabemos que o mais importante representante foi seu idealizador, ou reformulador, no sentido de aplicar o calvinismo a seu tempo: Abraham Kuyper. No entanto, a tradição kuyperiana ainda é bem desconhecida do grande público de estudantes e leitores da teologia reformada em matéria de cosmovisão. Em sua opinião, qual a importância do pensamento de Kuyper e suas formulações aplicadas às esferas e como esse pensamento pode nos ajudar no Brasil em nosso contexto cultural?

A importância de Kuyper para o contexto brasileiro atual se dá sobretudo em duas frentes importantes de formação da identidade e vivência cristã: sua capacidade de engajar com o mundo moderno e suas questões culturais específicas e; seu zelo por manter o centro da ortodoxia cristã protegido contra adaptações desta para fins de relevância cultural.

Em relação ao primeiro ponto, o de capacidade de engajamento cultural no contexto moderno, podemos dizer que o neocalvinismo iniciado por Kuyper talvez tenha sido o movimento cristão protestante, após a reforma do século XVI, que mais se esforçou por entender e responder a uma miríade de novas questões e desafios que a igreja cristã ocidental passou a enfrentar após o advento da modernidade. Enquanto muitas expressões do cristianismo ocidental observaram passivamente o crescimento e o domínio cultural das forças do modernismo – o qual tem suas raízes no impulso humanista da renascença - o movimento de Kuyper passou a elaborar respostas distintas a questões que a modernidade fez surgir: existe, de fato, um campo de expressão cultural puramente secular, como defendem os modernistas, em que a razão humana seria autônoma na busca do direcionamento da vida humana? ou comunidades humanas com crenças distintas participam de forma conjunta e diversa da tarefa comum de criar cultura e dar direções específicas à sociedade e à civilização? Seria o espaço de ação e autoridade da igreja cristã apenas a esfera da vida privada, sem qualquer relação com as produções culturais no espaço público? Teria a Igreja de Cristo corresponsabilidade por aquilo que é produzido culturalmente no dia a dia das civilizações, moldando a forma de as pessoas conhecerem e agirem no mundo? A igreja teria uma função a desempenhar junto a instituições culturais estratégicas como a universidade, a ciência, as artes, a política, o lazer, a economia, dentre outras? ou aos cristãos está destinado apenas apresentar uma mensagem de salvação e esperança pessoal para uma vida no porvir? A todas estas perguntas o movimento de Kuyper respondeu com um não às tendências de aversão à vida na criação e ao envolvimento na cultura e com um sim à tarefa de participação cultural e vivência prática de cuidado e amor cristão em ações criativas no mundo.

Dentro deste contexto, dois conceitos desenvolvidos por Kuyper, posteriormente aprofundados por seus seguidores, foram cruciais para a articulação e expansão do movimento não só na Holanda como em outros países influenciados. Eles são o conceito de graça comum e o conceito de soberania das esferas. No primeiro, é reconhecida a presença da manutenção por parte do Criador das estruturas habilitadoras da vida humana em sua ordem criada. Ou seja, até que o juízo final se desvele, todos os seres humanos têm acesso às normas estruturais que possibilitam a vida humana no cosmos, bem como participam na criação e no desfrute de produções culturais diversas, como nas artes, na ciência, na tecnologia, na política, etc. Este princípio teológico potencializou a prática do diálogo respeitoso da comunidade cristã com outras comunidades presentes na sociedade bem como suas produções culturais, retirando cristãos ortodoxos de guetos de isolamento cultural. Já o conceito de soberania das esferas possibilitou aos cristãos a discernirem a presença soberana e controladora de Deus sobre sua ordem criada, dirigindo o progresso histórico-cultural. Ao mesmo tempo, ele forneceu uma filosofia social capaz de orientar a ação cristã na cultura, auxiliando na identificação da quebra desta diversidade criacional em atitudes centralizadoras de poder, ou idólatras, e ao apontar caminhos de ação para a promoção de um progresso cultural capaz de discernir a ameaça a esta pluralidade social intencionada pelo criador e revelada pelas Escrituras. Os princípios divinos para variados aspectos e instituições sociais devem, portanto, ser discernidos e cultivados em resposta ao mandato cultural (Gn. 1:28; 2:15). Como exemplo destes princípios vemos as aplicações neotestamentárias de diferentes direções éticas a instâncias ou campos distintos da vida como a família, a igreja local, o Estado, o indivíduo, dentre outros. A quebra destas normas estruturantes da vida geraria, simultaneamente, uma ausência de reconhecimento da glória do Criador, a quem pertence todo o poder, e uma diminuição do resplendor de sua imagem em nós, seres humanos bem como a plenitude de suas criaturas. Para o contexto brasileiro, onde a igreja evangélica, de forma geral, encontra fortes dificuldades de engajamento com a cultura mais ampla e suas produções, sobretudo modernas, uma proposta de engajamento como a reformacional de Kuyper se faz mais do que necessária.

Em relação ao segundo ponto, reconhecemos que a tradição kuyperiana não necessitou e nem teve como intenção na promoção deste engajamento aberto com a modernidade, negar sua identificação e apego às doutrinas e crenças celebradas pela tradição ortodoxa e católica da Igreja. Ou seja, diferentemente de movimentos liberais, que admitem uma alteração da ortodoxia para alcançar uma suposta relevância histórico-cultural, o movimento kuyperiano sempre partiu, em sua proposta cultural mais ampla, deste centro de identidade confessional clássico. Contrariamente àquele, a proposta kuyperiana acredita que negociar a identidade confessional em nome de uma suposta relevância histórica será o caminho certo da irrelevância e do esquecimento histórico. Este insight pode ser comprovado pelo reconhecimento factual de uma série de movimentos de adaptação das crenças cristã ao espírito dos tempos que hoje ficaram como relíquias discretas no “museu” da história. Para o contexto de fé brasileiro evangelical, com tendências confessionais conservadoras, mesmo com pouca consciência da tradição teológica cristã, um movimento zeloso com a ortodoxia cristã como o de Kuyper tem um grande potencial de assimilação e incorporação em nossas práticas e formação no contexto eclesiástico.   

Temos no meio evangélico uma série de problemas com respeito a referenciais teológicos, científicos e também para uma maturação de uma filosofia política genuinamente evangélica e reformacional. Como a tradição kuyperiana pode contribuir para alcançarmos essa maturação?

A meu ver o meio evangélico não só brasileiro, mas internacional, padece de duas tendências igualmente perniciosas para o alcance de uma vivência cristã plena na cultura e na criação divina, o isolacionismo e o ativismo religioso. Fortemente influenciado pelo ethos fundamentalista que teve origem nos EUA no início do século XX, o evangelicalismo ainda padece de uma forte tendência de isolamento e alienação cultural. Quando alguém se torna um cristão evangélico, geralmente esta pessoa é incentivada a colocar em segundo plano qualquer contribuição sua para a introdução de novidades no mundo, seja por meio da ciência, da política, da luta por justiça, das artes, etc. O contexto vocacional do cristão é geralmente sufocado por uma suposta urgência na salvação de almas e de engajamento no nível da igreja local. Mas como todos os cristãos invariavelmente têm corpos e vivem na dinâmica da ordem criacional estabelecida pelo próprio Deus, as atividades culturais inescapáveis envolvendo trabalho, criatividade, obediência civil, desfrute estético, passam a ser performadas com uma certa indiferença e até desleixo. É como se Deus não tivesse relação com estes campos da vida. Como consequência, os cristãos evangélicos se tornam reprodutores das formas culturais dominantes, que muitas vezes partem de orientações existenciais e de visões de mundo distintas, e até mesmo contrárias, às suas. É o caso do professor cristão que ensina teorias anticristãs na sala de aula pensando que o que Deus exige de si é apenas um bom testemunho, ou dedicação ao trabalho, esquecendo-se de que deveria amar e servir ao Senhor e ao próximo também com todo o seu entendimento.

A segunda tendência evangelical abrangente é uma espécie de ativismo triunfalista. Assim que alguma proposta de ação é divisada pela comunidade evangélica, refletindo o perfil de muitos de seus líderes, os cristãos passam a efetivar uma série de programas e eventos com o fim de alcançar suas metas, geralmente impulsionados por fortes apelos emotivos. O problema disto é que sem uma reflexão responsável e sóbria sobre seus próprios fundamentos de fé e a construção laboriosa de pontes de significado e discernimento de ações específicas em um mundo altamente complexo como o nosso, a maioria destes programas acaba por frustrar as expectativas originais, gerando frutos altamente questionáveis sobre sua validade e reflexo cristão. Temos visto isso no Brasil com o envolvimento evangélico com a política. Várias igrejas passaram a incluir, sobretudo nas últimas duas décadas, a participação e o engajamento político como algo legítimo a ser buscado e incentivado. E isto não está equivocado em si mesmo. Na prática, porém, o que temos visto após este engajamento excessivamente rápido e pragmático é que os políticos “enviados” por estas igrejas são, em grande maioria, um mal exemplo de serviço vocacional. Em uma pesquisa feita pela ONG Transparência Brasil em 2012, a bancada evangélica no congresso foi descrita como a mais ausente das seções do plenário, a que menos propôs projetos de lei, e a que tinha mais representantes, proporcionalmente a outras bancadas, envolvidos em processos de corrupção. Isto nos mostra que não basta se lançar em atividades e eventos contando com a aprovação divina de qualquer tipo de ação. Se não discernirmos os princípios orientadores que têm origem em nossa fé e as complexidades específicas dos campos de poder que hoje ordenam nossa sociedade, nossas ações serão medíocres e frustrantes.

Neste sentido, creio que a tradição reformacional pode auxiliar a comunidade cristã evangélica corrigindo de alguma forma estas duas tendências. Em relação ao isolacionismo, isto pode se dar incentivando a igreja de Cristo a exercer seus dons e talentos não somente no contexto congregacional, que dificilmente pode ser identificado com um espaço físico, mas também no contexto da comunidade dispersa de vocacionados. Pois na cultura cristãos agem em diversas esferas da vida e tipos de responsabilidades culturais e civis, como no comércio, no ensino, na ciência, nas artes, etc. Em relação ao segundo ponto, do ativismo, a tradição kuyperiana tem sido reconhecida como capaz de apontar horizontes de entendimento das ações necessárias em contextos sócio-culturais complexos. Para que os cristãos contribuam (e não dominem) culturalmente nas sociedades contemporâneas, se faz necessário discernir as formas de pensamento, os estatutos específicos, as liturgias incorporadas em cada campo de atuação. Em mais de cem anos de reflexão extensiva sobre a ação de cristãos nos mais diversos campos, com frutos expressivos apresentados, seja na política (e.g., a atuação do partido da União Cristã é um dos mais respeitados no contexto holandês atual), nas artes (e.g. cristãos respeitados em áreas de produção artística, como cinema e artes visuais – CIVA), jornalismo, direito, moda, reforma social, dentre outras áreas, a tradição kuyperiana pode ajudar os evangélicos a temperar seu ímpeto ativista com mais sabedoria e propriedade no discernimento necessário anterior às ações.  

Observamos uma demanda por livros, sites, blogs, vídeos que tratem sobre cosmovisão cristã e suas mais variadas abordagens, como você observa essa procura e que caminho recomenda para um estudo sistemático e crescente sobre o assunto?

Já existe uma literatura introdutória sobre estes temas e tradição na língua portuguesa, apesar de ainda não alcançar o público mais amplo. A procura por este tipo de abordagem tem crescido de forma exponencial no Brasil dos últimos anos. Quando começamos a compartilhar sobre cosmovisão cristã e a necessidade da construção de uma sabedoria cristã para lidar com temas atuais, por volta do ano 2003/2004, poucas pessoas tinham sequer noção sobre a necessidade de construção responsável de uma reflexão cristã sobre variados temas de pertinência cultural. O isolacionismo e ativismo abordados na segunda pergunta  eram os grandes responsáveis por esta “indiferença”. Hoje o cenário já é diferente. Creio que dois fatores colaboraram para isto. Primeiramente, o crescimento exponencial evangélico e a consequente necessidade desta comunidade mais expressiva em termos sociais de enfrentar demandas culturais inegáveis, como u mundo da academia, o engajamento político, a ação no mundo empresarial, etc. Em segundo lugar, eu mencionaria a conclusão prática que muitos chegaram de que os evangélicos não têm conseguido traduzir as riquezas do Evangelho em riqueza de participação social e cultural. Pelo contrário. Me lembro de um amigo próximo que disse que estava cansado de todos os fins de semana ir ao açaí ou à pizzaria gospel tomar Fanta e ouvir Fernandinho. Ou seja, a vida cristã deve ter mais a oferecer do que a participação monótona nos guetos de cultura gospel.

Minha dica àqueles que se interessam pela rica tradição cristã e pela necessidade de formar uma mentalidade cristã é de entrarem em contato com autores recentemente introduzidos por aqui e se envolverem pessoalmente. Dentre os que recomendaria estão o próprio Abraham Kuyper, Francis Schaeffer, Hans Rookmaaker, Herman Dooyeweerd, Egbert Schuurman, David Koyzis, Albert Wolters, Brian Walsh, Os Guinness, Nancy Pearcey, Steve Turner, Brian Godawa, Charles Colson, e algumas publicações nacionais como os livros de Maurício Cunha e Pedro Dulci e as obras editadas por mim e pelo Guilherme de Carvalho pela Editora Ultimato e as várias publicações do Guilherme de Carvalho disponíveis hoje pela internet. Indicaria também a aproximação e participação em organizações que expressam as crenças cristãs básicas enfatizadas pelo neocalvinismo como o CADI (Centro de Assistência e Desenvolvimento Integral), a ABC² (Associação Brasileira de Cristãos na Ciência), a AKET (Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares), o L’Aabri em Belo Horizonte e os Amigos de L’Abri pelo Brasil, o L’Abrarte em Natal, enfim, organizações que compartilham e vivenciam estes princípios.

Como você define o Neocalvinismo holandês?

Em uma definição breve diria que o neocalvinismo holandês é um movimento de renovação espiritual e cultural iniciado no século XIX que entende a responsabilidade do Cristão e da Igreja de servirem seu Senhor como uma tarefa realizada diante de desafios sempre renovados à expressão da verdade básica de nossa fé: a de que Jesus Cristo é o Senhor de todas as coisas, aquele em que todas as coisas encontram seu significado e sentido último em todos os campos e esferas da vida humana.

Diante do crescente número de publicações no Brasil de material relacionado ao Neocalvinismo, e a grupos como a AKET e ABC², é notório que há uma movimentação para um trabalho que emprega esse conhecimento reformacional à missão, ou ao que muitos chamam de reformissão. Em sua opinião quais são os benefícios dessa movimentação e quais são os possíveis mal entendidos que devem ser esclarecidos em relação ao conceito calvinista de cultura, visto que há criticas ao pensamento kuyperiano de redenção da cultura?

Creio que alguns pontos têm de ficar bem entendidos em relação a esta proposta como forma de cautela para se evitar maus usos, o que já ocorreu historicamente. Primeiramente, ela não é perfeita e não é Palavra de Deus. Ou seja, a tradição kuyperiana é um esforço de servos falhos de Cristo a cumprirem seu papel diante dos desafios que o mundo presente nos apresenta. Portanto, o uso de suas propostas não deve ser dogmático ou fechado a correções e críticas. O que pode gerar uma espécie de idolatria neocalvinista. Um segundo ponto importante a se lembrar é que ao nos envolvermos com a cultura enquanto cristãos e igreja de Cristo, o que é inescapável e totalmente legítimo, não devemos assumir uma postura de desejo pelo poder ou de domínio cultural. Francis Schaeffer enfatizava um princípio cristão que deve ser caro aos que se envolvem intencionalmente na cultura: devemos fazer a obra do Senhor da forma do Senhor. Ou seja, Cristo serviu e modificou as formas culturais? Sim, isso é inegável. O mundo da cultura e da civilização nunca foi o mesmo após Cristo. A segunda pergunta é: como Cristo fez isso? E a resposta está em sua vida de serviço, sacrifício e cruz. Cristo nunca foi conivente com os sistemas de poder culturais vigentes, e sempre os enfrentou de forma aberta. Mas o espaço de mudança efetiva que conquistou não se deu por um embate direto com os poderes do mundo, senão por meio do serviço intencional e sacrificial. Haverá momentos em que a Igreja de Cristo terá poder nas mãos? Sim, e a história testifica disso. Mas em todos os momentos que a Igreja usou o poder para seu próprio benefício, ou para exercer um domínio excessivo, ela causou tanto mal quanto bem, oprimindo e violentando a dignidade de pessoas e comunidades a quem devia servir. Este é um cuidado que temos de ter enquanto cristãos que lidam com instâncias culturais que sempre compreendem poder. O cultivo da civilidade no espaço público e a presença constante junto aos marginalizados da sociedade são práticas importantes a cristãos que assumem um quadro de referência kuyperiano para a missão. Quanto aos pontos positivos, creio que já tenha respondido nas perguntas 1 e 2 feitas acima.

Vista a grande crise política, moral e ideológica que tem se instaurado no Brasil, qual seria -em sua análise - a contribuição da tradição neocalvinista para uma filosofia e uma ciência política que rompam com essa vacuidade entre teoria política e prática econômica e administrativa no país?

Creio firmemente que o kuyperianismo apresenta uma alternativa possível ao esgotamento crescente aos modelos ideológicos que prevalecem no embate político vigente. Alguns pontos confirmam, a meu ver, esta possibilidade. Primeiramente, o kuyperianismo é uma das únicas tradições teológicas contemporâneas (talvez junto da articulação anabatista contemporânea de John Howard Yoder e a Otodoxia Radical inaugurada por John Milbank) que lançam um olhar crítico para a origem secular e humanista das tendências polares das ideologias políticas contemporâneas. Enquanto esta raiz originadora dos polos do espectro político (direita/esquerda) não for revelada em sua fragilidade original comum, que se relaciona com as teorias de contrato social artificiais como originadoras das instancias institucionais que configuram a sociedade, não poderemos avançar para além deste embate polarizador que paralisa, mais do que permite o florescimento, dos ricos potenciais presentes em nossa gente, sociedade e cultura.

Em segundo lugar, a tradição kuyperiana apresenta uma filosofia social que respeita a pluralidade das instituições positivadas historicamente que tornam a vida humana e suas relações sociais mais plenas e potencializadas, o que deveria ser o fim de toda política. Isto ocorre pela capacidade de localizar reducionismos inerentes às teorias seculares e modernas de sociedade, reconhecendo o foco absoluto de poder não em alguma instituição específica, mas em Deus que transcende nossa presente ordem social. Ou seja, ao reconhecer que o poder pertence somente a Deus, que está para além de nossas várias instituições e estruturações de poder, torna-se possibilitada uma filosofia social (um “mapa” da diversidade e coerência social institucional e suas diversas relações) plural e inclusiva. A família, o Estado, as instituições de fé (religiosas), os centros de produção científica, as instituições de arte e manifestação estética, as organizações voluntárias de amparo, as unidades produtivas comerciais, as demais instituições jurídicas e de promoção da justiça (além do Estado), os centros de potencializaçãode trocas comerciais (bolsa de valores, câmaras de comércio, etc), as instâncias de expressão da vida individual, dentre outras, passam a encontrar seu lugar de funcionamento e ordenação apropriadas no contexto social sem ameaçar a existência e a direção interna de outras instituições e instâncias. Podemos chamar a isso de um pluralismo estrutural, ou uma pluralidade societal, possibilitada pelo correto entendimento do conceito de esferas de soberania e a necessidade e de relativização do poder nos domínios culturais humanos.

Um terceiro elemento de contribuição do kuyperianismo em relação à política é a introdução de uma visão, digamos, agostiniana de mal e conflito social, a qual evita os erros comuns dos maniqueísmos sociais das teorias seculares. Visões binárias da sociedade que localizam o conflito em estruturas previamente definidas sempre são insuficientes de realizar uma leitura da realidade dinâmica e complexa das sociedades. A opressão nem sempre está na relação patrão/empregado, ou burguesia/proletariado, ou mercado/Estado, ou burocracia estatal/trocas individuais. Estas formas consagradas de entender a sociedade tendem a cindir o tecido social e a tornar impossível o discernimento para a aplicação de justiça pública efetiva na relação entre pessoas e grupos na sociedade (função relacionada ao Estado). Ao abrir mão de uma visão maniqueísta de mal social, podemos enxergar de forma mais ampla e específica em quais instâncias ocorre a injustiça e quais são os perpetradores e as vítimas. Em dado momento, a sociedade talvez precise diminuir o tamanho da burocracia estatal e seu poder sobre instancias específicas da sociedade. Em outro, um Estado mais forte e presente pode ser necessário. Em um contexto, a justiça tem de se dar contra o poder abusivo dos sindicatos e instâncias de proteção dos direitos de classe, em outros atuar contra a injustiça realizada pela classe empregadora e detentora de capital econômico. Ou seja, ao mesmo tempo em que promove uma pluralidade estrutural, a visão kuyperiana permite uma visão mais dinâmica e fenomenológica de conflitos presentes no seio da sociedade, superando as visões limitadoras e insuficientes típicas do maniqueísmo secularista, à direita ou à esquerda. Fomentar a contribuição específica de cada instituição social para a potencialização da vida humana em um arranjo de unidade e diversidade cada vez mais crescente, corrigindo pontualmente as injustiças reais que surgem no processo histórico, seria parte do horizonte de uma proposta política reformacional.

Um último ponto de contribuição, embora existam muitos outros para compartilhar (talvez em outra oportunidade), é a capacidade de promoção de uma secularidade não utópica da tradição kuyperiana, permitindo um pluralismo real e democrático em sociedades complexas checando possíveis autoritarismos e totalitarismos. Por ser uma teoria regulada pelo princípio de esperança cristã (em termos sociais, o ceticismo diante de projetos humanos utópicos), esta tradição possibilita que a diversidade seja respeitada sem que seu projeto específico tenha de permear todas as relações sociais. Ou seja, o conceito de secular em sua formulação original (como um tempo a ser pacientemente aguardado na promoção da virtude entre a parousia de Cristo e o eschaton futuro) é empregado enquanto uma disciplina constante de exercício cético diante das tentativas de imposição de um sistema totalitário sobre certo domínio social sob a alegação de necessidade para a resolução dos conflitos presentes. Ao mesmo tempo em que este princípio regulador da esperança/secularidade permite que outras visões sejam expressas na sociedade, ela combate qualquer forma de imposição totalitária, até mesma por arte de cristãos, resguardando os princípios do Estado democrático de direito e a pluralidade de visões de mundo e sua expressão política. 

Rodolfo, para finalizarmos nossa entrevista, qual seria suas indicações bibliográficas para aqueles que querem se inteirar sobre a tradição kuyperiana e quais conselhos daria a quem deseja colocar em prática aquilo que o pensamento reformacional tem falado?

Posso indicar alguns livros básicos nesta tradição. Talvez o primeiro seja o próprio Calvinismo, de Abraham Kuyper (Ed. Cultura Cristã), que de certa forma inaugura o movimento e delineia inicialmente seu programa. Os livros de Herman Dooyeweerd poderiam vir como um complementos a este, aprofundando nos insights de Kuyper e ampliando sua capacidade de entendimento e aplicações. Em língua portuguesa temos: No Crepúsculo do Pensamento Ocidental (Ed. Hagnos), Estado e Soberania (Ed. Vida Nova) e Raízes da Cultura Ocidental (Ed. Cultura Cristã). Na área da política indico o Visões e Ilusões Políticas, de David Koyzis (Ed. Vida Nova). Na área das artes indico os livros de Hans R. Rookmaaker A Arte não Precisa de Justificativa (Ed. Ultimato) e Arte Moderna e Morte de Uma Cultura (Ed. Ultimato). Em relação à ciência e tecnologia indico o Fé, Esperança e Tecnologia, de Egbert Schuurman (Ed. Ultimato). Como introdução geral à tradição kuyperiana indico nossos livros pela Ed. Utimato: Cosmovisão Cristã e Transformação e Fé Cristã e Cultura Contemporânea.

Em relação à prática, busque se inteirar, ler sobre a tradição e compreender suas propostas. Em um segundo momento, sugiro o envolvimento pessoal com algumas das atividades e comunidades que expressam esta visão. O L’Abri neste ponto é muito importante.

9 de mai. de 2016

Bençãos e Deveres dos Filhos de Deus (1 Jo 3.1-10)


Por Thiago Oliveira


Texto Base 1 João 3:1-10

1. Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: que fôssemos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu.

2. Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.

3. Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro.

4. Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei.

5. Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado.

6. Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu.

7. Filhinhos, não deixem que ninguém os engane. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo.

8. Aquele que pratica o pecado é do diabo, porque o diabo vem pecando desde o princípio. Para isso o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo.

9. Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; ele não pode estar no pecado, porque é nascido de Deus.

10. Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus; e também quem não ama seu irmão.

Introdução

O capítulo 3 da carta fala sobre a filiação que herdamos através de Cristo. Aqueles que são membros da igreja do Senhor ostentam a graça de serem chamados filhos de Deus. É a partir daí que o apóstolo vai tratar acerca de nossos deveres, pois, ser filho não redunda apenas em privilégios, existem também as obrigações. Vejamos a partir de agora quais são nossos deveres filiais.

Gerados do Alto (1-2)

A benção de sermos chamados “filhos de Deus” é enfatizada por João como sendo uma evidência do tamanho do amor que Deus tem por nós. É como se diante de uma coisa assombrosamente grande alguém começasse a exclamar “Uau! Venham ver, olhem o tamanho disso!”. De fato, ter a filiação divina é algo que nos deixa maravilhados e perplexos, pois, como nos diz o apóstolo Paulo, éramos filhos da ira, da desobediência (Ef 2). Passamos a ser filhos, graças ao sacrifício de Cristo feito em nosso favor. Por causa dele fomos não apenas adotados, mas gerados, o que expressa o novo nascimento que só o sacrifício na cruz foi capaz de operar. A palavra no original não traz a ideia de filhos adotados, mas sim gerados. Poderia ser traduzida como “crianças nascidas de Deus”. Isso não anula a ideia da adoção tão presente nos escritos paulinos, apenas demonstra que a adoção divina é tão eficaz que não apenas legitima a filiação, mas também transforma o filho adotado em filho gerado. Isso é um verdadeiro milagre e uma prova incontestável do amor que Deus tem por nós. Podemos experimentar desse amor e vivenciar tamanha benção em nosso dia a dia.

Contudo, o mundo não reconhecerá essa benção e nos desprezará. O apóstolo João afirma que de igual modo não reconheceram ao Senhor. Mas não devemos ficar chateados por não termos o reconhecimento mundano. O que vale para nós é saber que Deus nos conhece e nos chama de filhos. Este é o nosso tesouro e também a nossa esperança. João fala que ainda que a realidade da filiação seja concreta, ela não foi devidamente manifesta. Este é o famoso paradoxo do “já, ainda não” que todo o cristão vive. A manifestação da nossa filiação se dará quando Jesus retornar para julgar os vivos e os mortos. É no cenário escatológico do dia do Juízo que todos verão nossa real identidade que temos em Cristo. Da forma como o veremos, glorificado, também seremos.

A Pureza Requerida (3-6)

É a esperança na glorificação que nos move a um viver puro. Sabemos que no céu, teremos uma natureza incorruptível, diferente do que somos na atualidade, no céu não pecaremos, pois, o nosso estado será de pureza total e irreversível. Mas, os que anseiam viver assim já dão os primeiros passos ainda no lado de cá. Todo o crente que almeja viver na presença de Deus atenta para um viver santo. Se o Deus que nos chama e nos regenera é puro, e se nós somos seus filhos, devemos nos purificar também. Pecar é transgredir a lei, é ir de encontro com a vontade soberana do nosso Pai celestial. Logo, todo transgressor da lei é alguém que desonra o seu Pai e o entristece.

Devemos ter o conhecimento da pureza divina, e também atentarmos que desde a eternidade Ele articulou um plano para nos purificar de nosso pecado ao entregar Jesus para morrer em nosso lugar, não deixando impune a ofensa do pecado. Todo aquele que peca de maneira deliberada não conhece a Deus e nem é conhecido por Ele. Por isso, os filhos devem ter uma aparência distinta, eles são separados para refletir o caráter do Pai.

Pratiquemos a Justiça (7-10)

Se nosso interior for puro, nossas ações serão justas, isto é, retas. A noção de justiça extraída em toda a Escritura remonta a relacionamentos corretos. Ser justo é proceder corretamente para com Deus e para com meu próximo, observando as ordenanças bíblicas. João novamente vai trabalhar os contrastes. De um lado estão os praticantes da justiça, que agem conforme o caráter justo de seu Pai. Do outro estão os pecadores depravados que tem o diabo como pai. Não existe um meio termo entre os polos, ou se está na família de Deus ou na família de Satanás.

Cristo foi manifesto para derrotar as obras do diabo. Foi na cruz que ele teve sua grande vitória e apenas consumará quando retornar entre as nuvens. Já existe uma sentença contra Satanás e os que a ele pertencem. Enquanto isso não acontece, os filhos de Deus seguem firmes na caminhada, afastando-se do pecado que outrora os escravizava. O nascido de novo é alguém que não mais caminha de maneira desordenada procurando atender os seus desejos carnais. Dessa forma, um paralelo é traçado para identificar quem é filho de Deus e quem não é. Os que são justos são de Deus, e os justos, os que se relacionam de maneira correta, amam seus irmãos.

Aplicações

1. Tenho noção da benção que é ser filho de Deus? Sou grato por isso? Como venho demonstrando minha gratidão de maneira prática?

2. Como venho encarado a questão da pureza? Será que tenho relativizado as exigências que Deus faz para que o seu povo seja santo?

3. Como venho me relacionando com Deus e com as pessoas que são do meu convívio? Será que meus relacionamentos estão corretos?