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21 de nov. de 2016

Cinco Razões Para Abraçar a Eleição Incondicional

Por John Piper

Eu uso o termo abraçar porque a eleição incondicional não é apenas verdadeira, mas também preciosa. Obviamente, ela não pode ser preciosa se não for verdadeira. Portanto, este é o motivo principal pelo qual a abraçamos. Mas vamos começar com uma definição:

Eleição incondicional é a livre escolha de Deus antes da criação, não baseada em conhecimento prévio da fé, pela qual ele concederá fé e arrependimento a traidores, perdoando-os e adotando-os em sua eterna família de alegria.
1. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE ELA É VERDADEIRA.
Todas as minhas objeções à eleição incondicional vieram abaixo quando eu não conseguia mais sustentar minha argumentação sobre Romanos 9. O capítulo começa com a disposição de Paulo em ser amaldiçoado e separado de Cristo por amor aos seus compatriotas judeus incrédulos (verso 3). Isto implica que alguns judeus estão perecendo. E faz surgir a questão da promessa de Deus aos judeus. Falhou a promessa? Paulo responde: "não pensemos que a palavra de Deus haja falhado" (verso 6). Por que não?
Porque "nem todos os de Israel são, de fato, israelitas" (verso 6). Em outras palavras, o propósito de Deus não era inocentar cada pessoa de Israel individualmente. Era, ao invés disso, um propósito de eleição.
Então, para ilustrar a ideia da eleição incondicional de Deus, Paulo usa a analogia de Jacó e Esaú: "E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela [Rebeca]: O mais velho será servo do mais moço" (versos 11 e 12).

Em outras palavras, o propósito original de Deus em escolher para si indivíduos dentre Israel (e todas as nações! Apocalipse 5:9) não estava baseado em nenhuma condição que eles pudessem satisfazer. Foi uma eleição incondicional. E, portanto, ele diz: "Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão" (verso 15; veja os versos 16-18 e Romanos 11:5-7).
Jesus confirma este ensinamento: "Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora" (João 6:37). Achegar-se a Jesus não é uma condição que satisfazemos para nos qualificar à eleição. É o resultado da eleição. O Pai escolheu suas ovelhas. Elas lhe pertencem. E ele as dá ao seu Filho. É por este motivo que elas vêm. "Ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido" (João 6:65). "Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros" (João 15:16; veja também João 17:2, 6, 9 e Gálatas 1:15).
No livro de Atos, por que alguns creram e outros não? A resposta de Lucas é a eleição: "e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna" (Atos 13:48). Esta "destinação" — esta eleição — não foi baseada numa fé prevista, mas foi a causa da fé.

Em Efésios 1 Paulo diz: "[Deus] nos escolheu nele [Cristo] antes da fundação do mundo... nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade" (Efésios 1:4, 11). É o "conselho da vontade de Deus" que é eternamente decisivo nesta questão.
O que você dirá para Deus no julgamento final se ele te perguntar: "Porque você creu no meu Filho enquanto outros não creram?" Você não responderá: "Porque eu sou mais inteligente." Não. Certamente você dirá: "Por causa da tua graça. Se não tivesses me escolhido, eu teria sido deixado espiritualmente morto, indiferente e culpado."
2. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE DEUS DESIGNOU-A PARA NOS FAZER DESTEMIDOS NA PROCLAMAÇÃO DE SUA GRAÇA NUM MUNDO HOSTIL.
"Se Deus é por nós, quem será contra nós? . . . Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?" (Romanos 8:31, 33).
3. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE DEUS DESIGNOU-A PARA NOS TORNAR HUMILDES.
"Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios . . . a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus . . . Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (1 Coríntios 1:27, 29, 31).
4. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE DEUS A FEZ COMO UM PODEROSO IMPULSO MORAL À COMPAIXÃO, BONDADE E PERDÃO.
"Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade . . . perdoai-vos mutuamente" (Colossenses 3:12-13). Ninguém que já tenha visto ou provado verdadeiramente sua eleição não é movido por ela para se tornar bondoso, paciente e tolerante.
5. NÓS ABRAÇAMOS A ELEIÇÃO INCONDICIONAL PORQUE ELA É UM PODEROSO INCENTIVO EM NOSSO EVANGELISMO PARA AJUDAR OS INCRÉDULOS QUE SÃO GRANDES PECADORES A NÃO SE DESESPERAREM.
Quando você oferece Cristo livremente a todos os incrédulos, suponha que alguém lhe diga: "eu tenho pecado terrivelmente. Deus jamais escolheria me salvar." A coisa mais consoladora que você pode dizer é: Você percebe que Deus escolheu antes da fundação do mundo aqueles a quem ele irá salvar? E ele o fez sem basear-se em absolutamente nada em você. Antes que você nascesse ou tivesse feito qualquer coisa boa ou má, Deus escolheu te salvar ou não.
Portanto, não ouse encarar a Deus e dizer-lhe das qualificações que você não tem para ser escolhido. Não houve qualificações para ser escolhido. "O que, então, eu devo fazer?", ele pergunta. "Crê no Senhor Jesus e serás salvo" (Atos 16:31). É assim que você começa a "confirmar a vossa vocação e eleição" (2 Pedro 1:10). Se você abraçar o Salvador, você confirmará ser um eleito, e você será salvo. 
***
Fonte: Desiring God 

14 de nov. de 2016

Soli Deo Gloria: Um lema para a vida

Por Thiago Oliveira

*Texto Base: Salmo 96

INTRODUÇÃO

Soli Deo Gloria, que quer dizer: Somente a Deus glória, é um dos lemas da Reforma Protestante.  O intuito dos reformadores com este lema foi endossar que apenas o SENHOR deve ser exaltado em tudo o que fizermos. Como nos diz o apóstolo Paulo “Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. (1 Coríntios 10:31).

O pastor norte-americano John Piper costuma abordar o tema de quanto Deus ama a sua glória e de que nós também devemos amá-la e exaltá-la. Uma de suas frases mais famosas e mais repetidas é “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”. Por isso, devemos desejar Deus e fazer desse desejo o nosso estilo de vida. Nascemos para adorá-lo e devemos fazer isso em Espírito e em verdade. Se não glorificamos o Deus bendito com palavras e ações, logo, nos alienamos de nós mesmos e não viveremos uma vida plena. Não encontraremos satisfação em nada se não nos satisfizermos com a gloriosa presença do Deus trino.

Todavia, muitos se questionam se Deus não é egoísta ou narcisista ao querer ser glorificado e adorado entre os homens. Obviamente, Deus não é uma coisa e nem outra. Expondo o Salmo 96, que parece ser um resumo de um cântico de Davi (1 Crônicas 16) para alguma festa solene em celebração ao SENHOR no período pós-exílico, veremos o porque Devemos dar a Deus somente toda honra e toda glória.

EXPOSIÇÃO

1.Cantem ao Senhor um novo cântico; cantem ao Senhor, todos os habitantes da terra! 2. Cantem ao Senhor, bendigam o seu nome; cada dia proclamem a sua salvação! 3. Anunciem a sua glória entre as nações, seus feitos maravilhosos entre todos os povos!

Os versículos iniciais reforçam o louvor a Deus dando ênfase para que se cante em adoração ao SENHOR. Percebam que “cantai” aparece três vezes nos versículos iniciais do salmo. Um cântico novo não necessariamente seria uma música inédita. O próprio salmo é uma compilação de um texto composto por Davi para que os levitas entoassem no tabernáculo. Aqui, segundo a tradição rabínica e muitos comentaristas bíblicos, o cântico seria usado na inauguração do segundo templo, construído após um remanescente migrar do cativeiro babilônico para reconstruir Jerusalém. Mas então porque o canto se faz novo? Ora, ele se torna novo na disposição de nosso coração, quando cantamos com disposição e alegria para o enaltecimento do nome do Altíssimo. A novidade está na dinâmica de nossa adoração, que não pode ser mecânica, como se estivéssemos no “piloto automático”. E é justamente essa dinâmica que move o adorador a proclamar as maravilhas que vem de Deus. Observem que o canto não fica estático, ele vai se propagando por toda a terra na medida em que o nome do Senhor se torna bendito entre as nações e a sua salvação é proclamada. Isso é apregoar boas novas, o que nos remete a evangelização, termo que os tradutores gregos da Septuaginta usaram e que em nosso idioma foi traduzido por “proclamação”.

Anunciar a sua glória e a sua maravilha é compartilhar de quem Deus é e o que Ele faz para os que são seus. Este anúncio é o que cumprimos na grande comissão, quando pregamos a todos os homens sobre o que Deus Pai fez através de seu filho Jesus Cristo. A dinâmica da evangelização faz com que os adoradores aumentem e isso redunda em mais glória para Deus. Por isso que a adoração não pode ficar confinada ao culto, mas deve mover-se para fora, em busca de aumentar o coro que em muitas vozes cantará a majestade do Deus Todo-Poderoso.

4. Porque o Senhor é grande e digno de todo louvor, mais temível do que todos os deuses! 5. Todos os deuses das nações não passam de ídolos, mas o Senhor fez os céus. 6. Majestade e esplendor estão diante dele, poder e dignidade, no seu santuário.

E porque louvar ao Senhor? Seria Ele um egoísta? Como dito na introdução desta mensagem, a resposta é não. A tentativa de alguns ateus e inimigos da fé de pintar Deus com traços de Narciso é patética, pois, eles partem de um referencial humano para atribuir a Deus o sentimento egoísta. Deus é desde a eternidade, o que significa que não teve começo e não terá fim. Ninguém o criou e ninguém está acima do SENHOR. Ele é autossuficiente e seu deleite se encontra em seus próprios atributos. Ele é grande, maior do que a criação, que já imensa. Paremos para pensar na dimensão do planeta Terra e nos deparemos com o fato de que diante do vasto universo, nosso planeta é um pontinho azul entre bilhões de galáxias. Isso é a grandeza da coisa criada. Imaginemos então quão grande é o Criador. Só este fato deveria ser suficiente para reverentemente glorificarmos ao Deus dos céus e da terra.

O que você faria ao encontrar algo belo e grandioso que lhe conferisse um sentido de propósito? Com toda certeza você amaria tal coisa, a enalteceria com todas as suas forças e se entregaria por completo. Este algo existe e é o Criador que nos criou para si. Deus não pode se deleitar em nada fora dele mesmo, pois nada se equipara a sua grandeza. Por ser autossuficiente, tem paixão pela sua glória, que é a manifestação de seus santos atributos. Assim, pequeno e limitado que é o homem, necessita se conectar com Aquele que lhe confere um sentido para sua existência. O homem precisa de Deus, pois é Deus quem o confere a verdadeira humanidade. Por isso que C.S. Lewis nos diz que “em mandar-nos glorificá-lo, Deus está nos convidando a gozá-lo”. Portanto, quando adoramos a Deus e lhes rendemos glória, estamos fazendo aquilo que nos foi impresso na criação. Todo homem é um adorador por carregar dentro de si a imagem do Criador. Ao nos ordenar que lhe rendamos graças e louvor, Deus está nos dando o privilégio de sermos inteiramente satisfeitos e felizes, e a fonte que nos sacia por completo não é outra senão o próprio Iavé.

Por não glorificar a Deus, o homem sempre arruma um substituto para exercer veneração. Este é o cerne da idolatria, e o salmo deixa claro que todos os deuses não passam de ídolos criados. Eles são vazios e não possuem a majestade e o esplendor do Deus vivo, ao invés disso, são desprovidos de valor. Ao adentrar o santuário, o judeu deveria se deslumbrar não com a prata, não com o ouro e não com as pedras polidas e cravadas. O deslumbramento devia ocorrer diante da gloriosa presença do Deus que é santo. Sendo assim, que nós ao nos reunirmos com Igreja, sabendo que o SENHOR se faz presete, sejamos maravilhados com a beleza e com o esplendor de sua glória em nosso meio.

7. Dêem ao Senhor, ó famílias das nações, dêem ao Senhor glória e força. 8. Dêem ao Senhor a glória devida ao seu nome, e entrem nos seus átrios trazendo ofertas.

Por causa da grandeza de Deus, a adoração deve se estender a todos. As famílias precisam louvar a Deus juntas. Pais e Filhos. Irmãos e irmãs. Gente de toda classe social, seja de qualquer nação, falando qualquer língua. O nome do SENHOR deve receber a glória que é devida. As ofertas que se traziam ao Templo eram para render louvores ao Deus de Israel. Aqui necessitamos entender que não devemos adorar na intenção de receber favores. A adoração se dá como gratidão e serviço por tudo que Deus é e por tudo que Ele tem feito por nós e em nós. Que possamos fazer de nossa própria vida uma oferta toda vez que nos reunimos para engrandecer o nome do Santíssimo.

9. Adorem ao Senhor no esplendor da sua santidade; tremam diante dele todos os habitantes da terra. 10. Digam entre as nações: "O Senhor reina!" Por isso firme está o mundo, e não se abalará, e ele julgará os povos com justiça. 11. Regozijem-se os céus e exulte a terra! Ressoe o mar e tudo o que nele existe! 12. Regozijem-se os campos e tudo o que neles há! Cantem de alegria todas as árvores da floresta, 13. cantem diante do Senhor, porque ele vem, vem julgar a terra; julgará o mundo com justiça e os povos, com a sua fidelidade!

O salmo vai se encaminhando para o fim sem perder de vista a conclamação a adoração ao Divino. O verso 9 enaltece a santidade do SENHOR, o que é visto como motivo para reverentemente tremermos diante do Santo dos Santos. Todos os que estão na presença de Deus devem reverência pelo fato dEle ser santo e sua santidade contrastar com a nossa pecaminosidade. O profeta Isaías se encheu de temor ao se deparar com a santidade divina (vide Isaías 6). Ele não ficou com vontade de pular ou dançar, mas automaticamente se prostou. Essa é a reverência que cabe ao Rei dos reis e Senhor dos Senhores.

Deus reina e o mundo é sustentado pelo cetro de seu poderio. Isso precisa ser dito entre as nações. Os governantes do mundo precisam saber que estão debaixo do poder dAquele que tudo governa. O mundo é dEle, criado por Ele e para Ele mesmo se deleitar. Por isso que a conclamação para o regozijo é geral, englobando todos os seres criados. De uma forma hiperbólica, até mesmo seres inanimados são convocados para enaltecerem o Criador. O louvor aqui é oferecido a um Rei que governará com justiça. Juíz, no texto, é aquele que governa, e seu governo será justo, pois a sua base está na fidelidade de quem não é homem para que minta e nem filho do homem para que se arrependa (Números 23.19).

CONCLUSÃO/APLICAÇÃO

Para que essa palavra seja aplicada em nossa vida, podemos responder a nós mesmos a algumas perguntas:

1. Se eu preciso glorificar ao Senhor em todas as coisas, em que área eu tenho sido negligente e não a vivo para o louvor do meu Deus?

2. A quem tenho proclamado sobre a grandeza do meu Deus? Estaria a minha adoração se restringindo apenas aos momentos de culto congregacional ou privado?

3. Diante do governo dos homens e de tanta instabilidade política e financeira, estamos louvando ao Rei dos reis na expectativa de participarmos de seu reino de justiça?


Que o Senhor nos ache no meio de seus adoradores. A Ele a glória, pra sempre e amém! 

7 de nov. de 2016

Qual a Origem do Termo Reformado?

por Alan Rennê Alexandrino

Segunda passada foi o dia da Reforma Protestante. E com ele veio uma enxurrada de postagens sobre a importância da data. No entanto, muitas versavam sobre a questão de ser "reformado". Alguns diziam que é implicância e estupidez quando afirmam que o termo deve ser aplicado a um grupo específico, não a todos. Subjaz a este entendimento que todos os adeptos do movimento iniciado por Lutero são "reformados", afinal de contas, todos comemoram o dia da Reforma e creem em certas doutrinas.

Pois bem, transcrevo abaixo alguns testemunhos de historiadores sobre a questão do termo. Esclareço, de início, que, de modo algum, tenho a intenção de desmerecer quem quer que seja, ou de insinuar que A é melhor que B, ou que há alguns grupos não têm direito de comemorar a Reforma, ou ainda, que apenas presbiterianos são reformados. Longe disso! Meu objetivo é tão somente oferecer um esclarecimento a partir da historiografia protestante. Vamos começar com um presbiteriano, certamente o mais tendencioso na mente de muitos:

Pouco depois que o protestantismo começou na Alemanha, sob a liderança de Martinho Lutero, surgiu uma segunda manifestação do mesmo no Cantão de Zurique, na Suíça, sob a direção de outro ex-sacerdote, Ulrico Zuínglio (1484-1531). Para distinguir-se da reforma alemã, esse novo movimento ficou conhecido como Segunda Reforma ou Reforma Suíça. O entendimento de que a reforma suíça foi mais profunda em sua ruptura com a igreja medieval e em seu retorno às Escrituras, fez com que recebesse o nome de MOVIMENTO REFORMADO e seus simpatizantes ficassem conhecidos simplesmente como 'reformados'. Inicialmente, o movimento reformado esteve mais ligado à pessoa de Zuínglio. Porém, com a morte prematura deste, o movimento veio a associar-se com seu maior teólogo e articulador, o francês João Calvino (1509-1564). A propósito, os 'protestantes', fossem eles luteranos ou reformados, só passaram a ter essa designação a partir da Dieta de Spira, em 1529. Portanto, o movimento reformado é o ramo do protestantismo que surgiu na Suíça, no século 16, tendo como líderes originais Ulrico Zuínglio, em Zurique, e João Calvino [...] Até hoje, as igrejas ligadas a essa tradição no continente europeu são conhecidas como Igrejas Reformadas (da Suíça, França, Holanda, Hungria, Romênia e outros países) (NASCIMENTO, Adão Carlos; MATOS, Alderi Souza de. O que Todo Presbiteriano Inteligente Deve Saber. Santa Bárbara d'Oeste, 2007. pp. 10-11).

O tipo de Protestantismo de Calvino era conhecido como "reformado". Diferia do sistema luterano no sentido de que a Igreja era uma instituição paralela ao Estado e não subordinada a ele. A Igreja era uma organização independente que mantinha sua vida própria e usava sua posição para corrigir o Estado quando necessário (CLOUSE, Robert G. et alli. Dois Reinos: A Igreja e a Cultura Interagindo ao Longo dos Séculos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 244).

Os milhões que aceitam a fé reformada e sua fundamentação doutrinária testemunham a importância do sistema teológico formulado por João Calvino (1509-1564), designado geralmente pelo termo 'calvinismo'. O termo 'fé reformada' APLICA-SE ao sistema de teologia desenvolvido a partir do sistema de Calvino (CAIRNS, Earle E. O Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 251).

Um pouco antes, Cairns afirmou sobre Zwínglio: “Foram estas as ideias do homem que colocou os fundamentos da fé reformada na Suíça alemã. Embora Calvino tenha se tornado o herói da fé reformada, a igreja não pode esquecer o papel de Zwínglio, erudito, democrático e sincero, na libertação da Suíça das garras do papa” (p. 246).

O prestigiado estudioso Alister E. McGrath divide o protestantismo em três grandes ramos: Luterano (Reforma Luterana), Reformado (Reforma Calvinista) e Anabatista (Reforma Radical):

As origens da Reforma calvinista responsável pela constituição das Igrejas Reformadas (como a igreja presbiteriana), se encontram em acontecimentos ocorridos dentro da Confederação Suíça. Enquanto a Reforma luterana teve suas origens num contexto acadêmico, a IGREJA REFORMADA deve suas origens a uma série de tentativas de reformar a moral e o culto eclesiástico (mas não necessariamente sua doutrina) de acordo com um padrão mais bíblico. É preciso enfatizar que apesar de Calvino ter dado a esse estilo de Reforma a sua configuração definitiva, suas origens remontam a reformadores mais antigos como Zwínglio e Heinrich Bullinger, sediados em Zurique, a principal cidade da Suíça" (MCGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 180).

David G. Peters, um teólogo luterano, discutindo as controvérsias em torno da presença real de Cristo no sacramento da Ceia, afirmou que os luteranos "acusaram os reformados de separar as naturezas de Cristo do mesmo modo como Nestório havia feito" (PETERS, David G. The “Extra Calvinisticum” and Calvin’s Eucharistic Theology. p. 6. Disponível em: <http://www.wlsessays.net/…/handle/12…/3632/PetersCalvin.pdf…>).

Na mesma página Peters afirma que "o debate eucarístico entre luteranos e reformados era simultaneamente um debate sobre cristologia" (p. 6).

Francis Pieper, dogmático luterano, faz referência aos calvinistas utilizando o termo reformado: “Cada palavra que os reformados falam contra a participação da natureza humana na divina onipresença, falam também contra sua doutrina da participação da natureza humana na Pessoa do Filho de Deus" (PIEPER, Francis. Christian Dogmatics. Vol. 2. Saint Louis, MS: Concordia Publishing House, 1951. p. 167).

Por fim, o grande historiador da Igreja, Kenneth Scott Latourette, afirma:

Paralelo ao luteranismo, outra espécie de protestantismo emergia e se desenvolvia. Esse protestantismo usualmente é conhecido como REFORMADO. Nele há variantes, inclusive o presbiterianismo em suas diversas manifestações. Todavia, de modo semelhante ao luteranismo, ele constituiu uma família de igrejas que, nos séculos 19 e 20, seriam atraídas conjuntamente em uma associação mundial (LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo. Vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2006. p. 1009).

Reafirmo que a intenção não é apontar o dedo para quem quer que seja, afirmando que o tal não tem direito de comemorar a Reforma Protestante. A ideia é tão somente esclarecer que o termo "reformado", em sua gênese, foi aplicado a um grupo distinto dos luteranos e anabatistas. Assim, meu desejo é que protestantes luteranos, protestantes reformados e protestantes anabatistas - ou descendentes destes grupos - juntos se alegrem em Deus pela Reforma, que no próximo ano completa 500 anos.

4 de nov. de 2016

A Missão Não Íntegra de quem fala em nome da TMI

Por Thiago Oliveira

O Missão na Íntegra, que de acordo com a sua própria página diz ser “um dos movimentos de pregadores e pensadores protestantes que refletem a partir da proposta da Missão Integral”, está apoiando as ocupações nas escolas, e fez isso ao repetir em caixa alta - por três vezes - a seguinte frase num de seus post’s no Facebook: “TODO APOIO AOS ESTUDANTES NAS ESCOLAS OCUPADAS”!

Vale ressaltar que o Missão na Íntegra foi responsável por criar um manifesto contrário ao impeachment, acusando todos que apoiavam a saída da então presidente Dilma Rousselff de serem antidemocráticos. E ainda houve leitura do manifesto com a cobertura da mídia do PT[1], onde o Ariovaldo Ramos, o homem que está por trás disso tudo, deu declarações como esta: “É um privilégio como evangélico e negro ter a possibilidade de lutar contra o golpe. Nós não podemos aceitar a reconstrução de uma senzala que ainda não terminamos de derrubar”. Na ocasião, escrevi uma moção de repúdio ao manifesto[2], e disse que era um documento pró-petista redigido com linguagem velada. Mas desde que a saída de Dilma da presidência do país foi concretizada, a linguagem passou a ser desvelada, e alguns dos proponentes da Teologia da Missão Integral (TMI) - integrantes e não integrantes do Missão na Íntegra - passaram a tornar cada vez mais explícita a sua posição política, que como sempre se suspeitou, é uma posição que se coloca a esquerda do espectro político.

A revista Cristianismo Hoje, em sua edição de número 52/Ano 9 trouxe o título: "Missão Integral, Missão de Deus" na sua capa. A matéria panfletária sobre a TMI tem depoimentos de alguns de seus medalhões. Samuel Escobar ao responder como se define ideologicamente diz: “a esquerda não me assusta”. Seguindo mais adiante, fala o seguinte: “Encontro, no programa de movimentos classificados como ‘de esquerda’, preocupações e sensibilidades que estão mais de acordo com o ensino bíblico sobre uma sociedade mais justa do que os que se dizem ‘de direita’” (p.37). Ora, e quais são os representantes das esquerdas no cenário político da América Latina? Não seriam eles políticos e partidos com agendas muito distintas do que prega a sã doutrina?

Mais recente ainda, o Harold Segura escreveu um lamurioso texto[3] em que provoca os pioneiros teóricos da TMI lamentando que o povo colombiano tenha votado contra o perdão das FARC em plebiscito - que não apenas anistiaria seus integrantes, mas transformaria aquela organização criminosa e terrorista em um partido. Embora seja colombiano, lamenta também o impeachment de Dilma no Brasil e de um modo geral, vê a derrocada da esquerda e o crescimento do “conservadorismo evangélico” como sendo “em parte” culpa da irrelevância da TMI. Ora, porque será? Érika Isquierdo Paiva escreve um endosso da carta do Segura[4], e vejam só como é a sua redação: “A René, Samuel, Valdir, Juan, Tito e Pedro, entre muitxs outrxs”. Viram só isso? O “x” serve para não mais identificar o masculino e o feminino. Meus irmãos, quem é que encabeça a ideologia de gênero em nosso continente? Sim, são grupos progressistas financiados por partidos da esquerda, partidos esses que em sua maioria se identificam com os postulados de Karl Marx e os pensadores da new left.

Logo, fica evidente que quando o Missão na Íntegra (que reflete "a partir da proposta da Missão Integral") se manifesta apoiando a ocupação nas escolas, ele o faz com o compromisso de defender a sua ideologia ou o seu programa político. Pois, se defendesse o evangelho, não apoiaria certos jovens impedirem outros de estudar e prestar o Enem. E esses outros a quem me refiro são a maioria, privados de seu direito de frequentar a escola por causa de um bando de “gatos pingados”. Isso não é nem um pouco democrático, e nem é justo. Também vale ressaltar que os ocupantes são menores de idade e estão nas ocupações, em muitos casos, contra a vontade de seus próprios pais. Sendo assim, há uma desintegração familiar. Será que a missão integral não se importa com a relação harmônica entre pais e filhos? Entre preservar o quinto mandamento e subverter o patriarcado, de que lado ficará o movimento do Sr. Ariovaldo?

A matéria supracitada, da revista Cristianismo Hoje, dá a entender que as críticas feitas a TMI, que a associam as ideias marxistas, são infundadas. Há um missionário americano ligado a TMI que diz que fazer tal associação é algo "tão absurdo que eu tenho muita dificuldade de levar a sério". Mas como não entender diante de tantas falas que não são apenas parecidas, e sim idênticas as falas de qualquer líder político progressista anti-cristão? Vá na rede social de qualquer partidário do PSOL ou do PSTU, por exemplo, e veja se ele não escreve todxs, muitxs, outrxs e etc.

Reitero o que já mencionei em outras ocasiões: Considero o Pacto de Lausanne um documento ortodoxo e de grande valia para o segmento evangelical. É dele que vem a expressão “missão integral”. Todavia, lamento que a expressão tenha sido capturada por cristãos progressistas que tem um alinhamento político-ideológico com os setores da esquerda. Isto fere a própria tradição de Lausanne, pois em Junho de 1980 a Consulta de Pattaya se posicionou contrária ao marxismo, vendo-o como um sistema concorrente do cristianismo e anti-cristão. O relatório extraído desta consulta foi publicado com o título Evangelho e o Marxista, pela ABU. Foi um lançamento em conjunto com a Visão Mundial que traz outros documentos, num total de 10 livretos que compõem a Série Lausanne. A série foi recentemente reeditada, exceto, a que contém o texto de Pattaya. Como é que tentam apagar assim um documento histórico? E por quais razões? 

Há gente com muita propriedade fazendo críticas sensatas e visando uma reavaliação da intoxicação ideológica que alcançou a TMI e a fez se distanciar de Lausanne. Guilherme de Carvalho, Jonas Madureira, Filipe Fontes, Yago Martins e o pessoal do Movimento Mosaico têm escritos e palestras disponíveis na internet sobre a questão. Essas críticas precisam ser feitas, pois, a Igreja precisa ficar alerta e se posicionar contra qualquer teologia que faça síntese com ideologias idolátricas. E aqui quero recomendar quatro obras que podem ajudar bastante a fazer desintoxicação política: Contra a Idolatria do Estado, do Franklin Ferreira; Visões e Ilusões Políticas, do David Koyzis, Fé Cristã e Cultura Contemporânea, de vários autores e Ortodoxia Integral, do Pedro Lucas Dulci.


[1] http://www.pt.org.br/evangelicos-se-unem-para-dizer-nao-ao-golpe/
[2] https://bereianos.blogspot.com.br/2016/03/eu-repudio-o-manifesto-do-ministerio.html
[3] https://www.facebook.com/notes/novos-di%C3%A1logos/provoca%C3%A7%C3%B5es-p%C3%BAblicas-aos-meus-mestres-da-fraternidade-teol%C3%B3gica-latino-americana/1197918663607517
[4] https://www.facebook.com/notes/novos-di%C3%A1logos/acorda-neo/1202120739853976

31 de out. de 2016

Índios protestantes no Brasil holandês

Por Frans Leonard Schalkwijk

Três vezes a igreja protestante foi implantada no Brasil Colônia, três vezes foi expulsa pelos portugueses católicos. Primeira vez: a igreja reformada dos franceses no Rio de Janeiro (1557-1558); segunda, a dos holandeses na Bahia (1624-1625); terceira, a dos holandeses, alemães, ibéricos, ingleses, franceses e índios no Nordeste, quase 30 anos depois.

A história da igreja protestante indígena durante a ocupação holandesa do Nordeste (1630-1654) está registrada em vários arquivos, especialmente em Amsterdã e Haia, na Holanda.

No século XVII, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco constituíam os três principais centros urbanos do Brasil Colônia. A riqueza produzida pelo açúcar brasileiro ajudava a Espanha a consolidar o seu domínio, enquanto procurava estrangular a jovem República dos Países Baixos - ou seja, a Holanda.

OS CONFLITOS DA COROA DE CASTELA

Embora o Brasil tivesse nascido como colônia portuguesa, a partir de 1580 Portugal havia passado a fazer parte da União Ibérica, comandada pela Espanha. O Brasil, em conseqüência, foi envolvido nos conflitos internacionais da coroa de Castela.

Na Holanda, pouco depois de 1500 a casa de Habsburgo chegou ao poder e reuniu as possessões alemãs, espanholas e holandesas nas mãos de Carlos V. Foi quando eclodiu, na Europa, a Reforma Protestante (1517).

O sucessor de Carlos V, Filipe II, rei da Espanha, decidiu eliminar os protestantes de suas terras, o que levou à Guerra dos 80 Anos (1568-1648).

Com a derrota da armada espanhola, em 1588, o poder da Espanha entrou em declínio, enquanto a Holanda ganhou impulso, especialmente porque recebeu milhares de refugiados franceses, belgas, espanhóis, alemães, poloneses. Tinha início a Idade de Ouro dos Países Baixos.

O trono espanhol, em represália, fechou seus portos para os holandeses, que foram obrigados a singrar os oceanos, considerados até então considerados mares territoriais ibéricos.

A Igreja Cristã Reformada (Protestante) também crescia com o afluxo de refugiados perseguidos por sua fé religiosa. Nessa Primeira Guerra Mundial, o vigoroso comércio ultramarino holandês organizou duas grandes companhias - a das Índias Orientais e a das Índias Ocidentais - para fortalecer a cooperação entre as empresas e se proteger dos espanhóis.

O Atlântico era a área da Companhia das Índias Ocidentais, cuja diretoria era composta de 19 membros, os chamados Senhores XIX, representantes das cidades cooperadoras, das quais Amsterdão era a principal.

Cientes de que as maiores riquezas da inimiga Espanha provinham das Américas, estes senhores começaram a pensar na conquista de parte das colônias americanas como forma de estancar a fonte de sustentação econômica das forças espanholas.

Nesse contexto, a Bahia parecia presa fácil, e a cidade de Salvador foi tomada. Conquista, entretanto, perdida um ano depois (1624-1625). Os holandeses, porém, decidiram prosseguir com a empreitada, agora voltada para Pernambuco. O sucesso do projeto deu início ao Brasil Holandês (1630-1654).

Durante esse período, tem lugar um capítulo pouco conhecido da história eclesiástica brasileira, a da Igreja Cristão Reformada, nome da Igreja Protestante na Holanda. Era uma igreja do Estado, situação das igrejas no Ocidente, seja nos países católicos, seja nos protestantes. A Igreja Cristã Reformada veio para o Brasil sob a bandeira holandesa, e foi expulsa com ela.

Na medida que os holandeses ampliavam o território conquistado, eram implantadas congregações reformadas. Durante algum tempo, existiram 22 igrejas protestantes no Nordeste, sendo que a do Recife era a maior, contando, inclusive, com uma congregação inglesa e uma francesa. Esta se reunia no templo gálico, que tinha no conde Maurício de Nassau seu membro mais ilustre e o pastorado era exercido pelo espanhol Vicentius Soler.

Na leitura dos documentos da época, surge uma igreja cercada de pessoas dispostas a expulsá-la de sua terra como a religião dos invasores.

Entretanto, para os índios, os holandeses não eram invasores, mas sim libertadores, o que levou a missão reformada no Nordeste a fazer uma opção preferencial pelos indígenas. Para os holandeses, as tribos aculturadas constituíam os brasilianos e as não-subjugadas os tapuias.

Filipe Camarão: O líder dos Potiguares recebeu honrarias do Rei Português por sua lealdade aos interesses lusos.

O primeiro contato entre os brasilianos e a Companhia das Índias Ocidentais ocorreu em Salvador. Com a perda da cidade, em 1625, o almirante da frota holandesa seguiu para o norte e aportou na baía da Traição, cerca de nove quilômetros ao norte da Paraíba.

Os índios locais, da tribo potiguar, viram nos holandeses os seus libertadores do jugo português e muitos quiseram embarcar quando a frota partiu. Apenas seis jovens índios conseguiram seguir para a Holanda, enquanto a tribo procurava refúgio na mata para fugir da vingança dos portugueses.


Os seis índios potiguares - entre eles o índio Pedro Poti - permaneceram durante cinco anos nos Países Baixos, onde foram alfabetizados e instruídos na religião reformada. Pouco depois da invasão de Pernambuco, alguns desses índios foram enviados de volta ao Brasil para servirem de línguas (tradutores) no contato com seus compatriotas nas aldeias nordestinas.

O sistema de aldeamento dos índios foi iniciado pelos padres católicos e continuou com os holandeses. Por volta de 1639, o Rio Grande abrigava cinco aldeias de brasilianos, a Paraíba sete, Itamaracá cinco e Pernambuco quatro. O trabalho da igreja reformada teve início em cima do trabalho realizado pelos padres católicos.

Os índios tinham aprendido algumas orações, a confissão apostólica, conheciam os nomes de Jesus e de Nossa Senhora, e tinham sido batizados; quanto ao mais, mantinham suas crenças animistas. Cedo a Igreja Reformada começou a evangelizar os indígenas, com apoio do governo, que precisava dos guerreiros na luta contra os portugueses.

Mas, apesar dos esforços, os holandeses não conseguiram estabelecer um método ideal de evangelização. Entretanto, os documentos registram anotações sobre batismos. No Presbitério de 1637, por exemplo, surge a questão do batismo de filhos de brasilianos e de africanos de pais já batizados pelos padres católicos. A Igreja Cristão Reformada reconheceu o batismo da Igreja Católica Romana, e decidiu que os filhos de pais batizados poderiam receber o sinal da aliança desde que seus pais confessassem a Jesus Cristo.

Em 1638, índios da Paraíba pediram ao Presbitério um predicante próprio. Nestas alturas, o Presbitério decidiu atender ao pedido dos indígenas e deslocar um pastor para as aldeias para pregar a palavra de Deus, administrar os sacramentos e exercer a disciplina eclesiástica, lembrando as três marcas da verdadeira igreja, conforme o artigo 29 da Confissão Belga. Esse plano recebeu o apoio do governo, sob a liderança de Nassau.

APESAR DOS ESFORÇOS, OS HOLANDESES NÃO CONSEGUIRAM ESTABELECER UM MÉTODO EFICIENTE DE EVANGELIZAÇÃO

Convidado, o pastor David à Doreslaer mudou-se da capital da Paraíba para a aldeia de Maurícia. O trabalho do pastor Doreslaer teve sucesso, pois foi elogiado pelos representantes do Presbitério do Brasil em carta aos Senhores XIX, enquanto Nassau comunicava que os próprios índios expulsaram os padres das aldeias.

Doreslaer e o pastor inglês Johannes Eduardus ampliaram o trabalho missionário e deram início ao ministério da educação. O primeiro professor protestante entre os índios foi o espanhol Dionísio Biscareto, casado com uma holandesa. Biscareto foi nomeado professor em Itapecerica, a maior aldeia da região de Goiana. Para as aldeias paraibanas, foi indicado o professor inglês Thomas Kemp.

Em 1640 começou o trabalho de brasilianização, movimento idealizado pelo pastor Soler, da Igreja Francesa no Recife. Ele conheceu um brasiliano razoavelmente experimentado nos princípios da religião, e no ler e escrever, capaz de instruir os índios. O pastor Eduardus, por sua vez, lembrou a existência de índios em idênticas condições em Goiana.

Assim, solicitaram ao governo que esses índios fossem nomeados professores nas aldeias, com um salário mensal de 12 florins, soldo de um cabo do exército. Esses dois índios foram os primeiros professores indígenas da Igreja Protestante na América do Sul.

Em livro publicado em 1651, Pierre Moreau cita um jovem ministro britânico que traduzira as Santas Escrituras para a língua brasiliana. Tudo indica que o hábil lingüista era o pastor Eduardus. Mas o que foi traduzido? Provavelmente apenas trechos bíblicos, mas, até hoje, não foram encontrados registros sobre o assunto nos arquivos. O que fica evidente é o interesse da Igreja Cristã Reformada em entregar aos índios a mensagem bíblica em sua própria língua.

Com a necessidade de um catecismo em língua tupi, o pastor Doreslaer organizou um livro de instrução que foi impresso na Holanda com o título Uma instrução simples e breve da Palavra de Deus nas línguas brasiliana, holandesa e portuguesa, confeccionada e editada por ordem e em nome da Convenção Eclesial Presbiterial no Brasil com formulários para batismo e santa ceia acrescentados. Embora o livro tenha sido criticado pelo Presbitério de Amsterdã, a Companhia das Índias Ocidentais mandou imprimi-lo em 1641 e, no ano seguinte, distribuiu-o no Brasil.

No terreno da assistência social, a Igreja Reformada enfrentava a caótica situação matrimonial existente na colônia, inclusive entre os índios. Muitos brasilianos casados viviam separados de suas esposas e não podiam casar-se novamente, embora muitos desejassem fazê-lo.

O Presbitério, em 1638, foi de opinião que a parte desertora do casal deveria ser citada por edital público do juiz civil. Depois de determinado período, a parte abandonada deveria ser considerada livre da parte desertora, o que deveria ser aprovado pelo magistrado. Esta determinação, reconhecendo a fraqueza da natureza humana, representa o primeiro projeto de reconciliação ou divórcio legal na América do Sul.

Os resultados práticos, entretanto, foram limitados, em razão das hesitações do magistrado, temeroso de conseqüências mais amplas. Na outra ponta, o problema da escravidão dos índios exigia solução urgente.

Desde o início da chegada dos holandeses ficou claro que os indígenas, aculturados e não-aculturados, deveriam ser livres. A liberdade dos brasilianos seria um dos capítulos fundamentais da Constituição do Brasil Holandês e tratada nos Regulamentos de 1629, 1636 e 1645.

Os holandeses não só precisavam dos índios na guerra contra os ibéricos, como sentiam profunda empatia pelos indígenas, pois, como eles, também estavam sendo oprimidos pela União Ibérica, a superpotência mundial da época.

LIBERTAÇÃO DOS INDÍGENAS

Os Senhores XIX insistiram para que fossem postos em liberdade os brasilianos escravizados pelos portugueses em 1625, depois da partida da esquadra holandesa. Esta libertação demorou, e começou a se tornar concreta com o início do trabalho missionário.

Em 1638, descobriu-se que os moradores portugueses de Recife ainda mantinham indígenas como escravos domésticos. Boa parte desses índios havia sido aprisionada pelas expedições punitivas levadas a efeito ao redor da baia da Traição, em 1625. O governo ordenou que todos os escravos fossem libertados imediatamente.

O governo holandês também combateu duramente a semi-escravidão, lembrando aos proprietários rurais, em Alagoas, que índios somente poderiam trabalhar nas lavouras por livre vontade e recebendo a devida remuneração. O sub-pagamento foi outra forma de exploração firmemente reprimida no Nordeste holandês. O governo determinou que os capitães que abusassem de sua autoridade fossem exemplarmente castigados.

Os índios, por sua vez, desejavam se transferir para as aldeias que possuíam missionários e, após intervenção do Presbitério, as autoridades promoveram as transferências para colaborar com o crescimento da igreja de Deus.

Na história da luta da Igreja Reformada no Brasil em favor da libertação dos índios é necessário lembrar a lei do ventre livre de 1645, originária de consulta do pastor Kemp sobre a situação de brasilianos casados com escravas africanas e escravos negros casados com indígenas.

Em resposta, as autoridades decidiram que a parte escrava do casal não se libertava pelo matrimônio, mas podia ser alforriada, e que os filhos resultantes desse tipo de casamento seriam considerados livres, reiterando que brasilianos, sem exceção, eram livres.

EM RELAÇÃO À ESCRAVIDÃO DOS NEGROS AFICANOS, AS CONSCIÊNCIAS CRISTÃS ERAM PRIMITIVAS, CONSIDERAVAM-NA UM ESCRÚPULO DESNECESSÁRIO

Infelizmente, quanto à escravidão africana, na época as consciências cristãs era subdesenvolvidas. Quando o pastor Jacobus Dapper questionou se era lícito ao cristão negociar ou possuir escravos africanos, até o conde de Nassau afirmou que se tratava de escrúpulos desnecessários.

Nassau se conformava ao espírito de seu tempo, mas contrariava o pensamento do pai espiritual da Companhia, o belga Willem Usselinex, e do patriarca da Igreja Reformada, o francês João Calvino.

O derradeiro período da missão da Igreja Cristã Reformada começou com a realização de duas importantes assembléias, uma eclesiástica, outra política. A mesa da Assembléia Geral das Igrejas recebeu pedidos de tribos que queriam receber seus próprios obreiros.

O professor Dionísio Biscareto foi ordenado pastor e dois brasilianos nomeados professores. Poucos meses antes da chamada insurreição pernambucana, em 1645, realizou-se a primeira grande assembléia indígena, com 120 representantes, em Itapecerica, na capitania de Itamaracá.

Foram organizadas três câmaras,: a câmara de Itamaracá, dirigida pelo índio Carapeba; a de Paraíba, pelo índio Pedro Poti; e a do Rio Grande, pelo índio Antônio Paraupaba.

O teste final e violento da missão reformada veio com a eclosão da guerra de restauração portuguesa. Os documentos atestam a impressionante fidelidade dos brasilianos refugiados ao redor das fortalezas litorâneas.

O mais famoso desses registros são as chamadas cartas tupis, trocadas entre dois primos colocados em campos opostos, o capitão-mór Filipe Camarão e Pedro Poti. Camarão era defensor do lado luso-católico na guerra; Poti, defensor do lado flamengo-reformado. Essa correspondência deixa claro a estreita vinculação entre fé e nação, igreja e Estado. Filipe Camarão escreveu: não quero reconhecer a Antônio Paraupaba, nem a Pedro Poti, que se tornaram hereges [...].

Em resposta datada de 31 de outubro de 1645, dia da Reforma Protestante, Poti garante que seus índios viviam em maior liberdade do que os outros, ressaltando que os portugueses queriam apenas escravizá-los.

Poti lembra a Camarão as matanças ocorridas na baia da Traição e em Sirinhaém, havia poucas semanas, quando os portugueses, após a rendição da frota holandesa, mataram perversamente 23 índios prisioneiros de guerra, quebrando as condições previamente acordadas.

Confessou também ser cristão, crendo somente em Cristo, não desejando contaminar-se com a idolatria, e convidou seus parentes e amigos a passar para o lado dos piedosos, que nos reconhecem no nosso país e nos tratam bem.

Ambos os primos não veriam o final dessa luta sangrenta: Camarão faleceu em 1648, depois da primeira batalha de Guararapes, e Poti no ano seguinte foi preso no cabo Santo Agostinho pelos portugueses. Segundo testemunho de Paraupaba, Poti foi lançado num poço, onde permaneceu durante seis meses.

Retirado de vez em quando, padres se atiravam sobre ele, tentando obrigá-lo a abjurar a religião protestante. Poti, entretanto, resistiu bravamente na fé protestante, e foi embarcado para Portugal, para as câmaras de tortura do Santo Ofício, mas a viagem não acabou, atalhada pela morte.

A guerra de restauração aproximou ainda mais os índios dos holandeses e apenas o pacto com os brasilianos garantiu a resistência flamenga durante nove anos.

Quando não houve mais condições de manter Recife, com as tropas luso-brasileiras às portas das fortificações e a armada portuguesa á entrada do porto, o Nordeste foi devolvido a Portugal. Terminava, também, a missão cristã reformada, impossível sem a proteção de um país protestante.

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Fonte Original aqui

Imagem Ilustrativa do Conde Maurício de Nassau, governante do Brasil Holandês. 

27 de out. de 2016

Wiclif e Huss: A Reforma Pela Palavra

Por Leandro Lima

Introdução

Quando se pensa na Reforma Protestante, dois nomes logo vêm a mente: Lutero e Calvino. Em geral, as pessoas acham que somente esses dois homens foram responsáveis por todo o movimento que deu origem à Reforma. Sem querer diminuir a grande importância deles, precisa ser dito que outros, alguns contemporâneos a Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564), como Zwinglio, Melanchton, Bucer, Ecolampadio, Knox, também podem ser chamados reformadores, e que muito contribuíram para o retorno à fé evangélica. E, mesmo antes de todos esses, houve movimentos reformistas dentro da igreja que, por certo, contribuíram para a Reforma. Vimos em lição anterior, por exemplo, o movimento dos valdenses. Mas, há dois homens, em especial, que podem ser considerados precursores da Reforma Protestante. São eles John Wyclif[1] (1330-1384) e Jan Hus[2] (1374-1415).

I. Os precursores da Reforma

Hus pode ser considerado um discípulo de Wyclif, pelo menos no sentido teológico. Wyclif trabalhou na Inglaterra, foi teólogo de Oxford, reconhecido por sua erudição, bem visto pelo povo e apoiado pelos nobres.
Wyclif começou a entrar em atrito com a igreja quando passou a pregar:
– A “pobreza apostólica”
– A Escritura como única lei da igreja
– Os eleitos são a igreja, não o Papa e os cardeais
– Cristo como o cabeça da igreja, não o Papa
Embora não tenha rejeitado de todo o papado, entendia que um Papa que aspira poder humano e tem ânsias por impostos nem sequer poderia ser um eleito. Essa idéia de eleição, Wyclif a extraiu principalmente dos ensinos de Agostinho. Mas, com certeza a maior contribuição de Wyclif para a Reforma foi ter colocado a Bíblia na língua do povo. Convicto de que ela era a única lei da igreja, direcionou todos os seus esforços para traduzi-la do latim. Com a ajuda de Nicolau de Hereford, que traduziu o Antigo Testamento, a Bíblia foi traduzida para o inglês. A obra durou de 1382 a 1384. Wyclif e seus seguidores, os “lolardos” foram muito perseguidos pela igreja, que considerou heréticos os seus ensinos. Se Wyclif não foi martirizado, isso se deve, humanamente falando, à proteção que possuía dos nobres da Inglaterra. Mas muitos de seus seguidores foram mortos. A igreja esforçou-se para sufocar as idéias de Wyclif e tentou destruir as traduções da Bíblia, mas pelo menos 150 manuscritos sobreviveram. Curiosamente, a maior influência de Wyclif se fez sentir na Boêmia, onde alguns estudantes de Oxford difundiram suas idéias na Universidade de Praga.
Nessa escola estudou e dela mais tarde veio a ser reitor, um filho de camponeses, de Husinecz (donde veio o nome Hus), chamado Jan Hus. As mesmas doutrinas que Wyclif defendeu, foram também defendidas por Hus. Para ele o cabeça da igreja é Cristo, os membros são os predestinados e a lei é a Escritura. Tanto Wyclif quanto Hus tinham suas idéias fundamentadas na Bíblia, o que os tornava ainda mais ardentes na defesa do Cristianismo verdadeiro.
Como Wyclif, Hus também foi perseguido, mas embora fosse um verdadeiro herói nacional da Boêmia, foi traído pelo Imperador Sigismundo que lhe deu um salvo-conduto para se apresentar diante do Concílio de Constança, mas o revogou assim que ele chegou lá.[3] Indefeso diante do Concílio, heroicamente defendeu suas idéias e se recusou a voltar atrás em suas posições, salvo se fosse convencido de erro. Consciente de que suas conclusões eram bíblicas e, portanto, verdadeiras, enfrentou corajosamente a morte, sendo queimado em 6 de julho de 1415. Cem anos depois, Lutero retomaria o caminho de Hus e Wyclif em defesa da Palavra de Deus e da igreja verdadeira.[4]

II. A Descoberta da Palavra de Deus (2Rs 22.3-10)
A Reforma do século 16 foi uma volta à Bíblia. O mesmo pode ser dito também dos períodos de genuíno avivamento. Foi assim com Lutero que, ao estudar a carta de Paulo aos Romanos, descobriu que a salvação é pela graça mediante a fé. Calvino também reconduziu o retorno à Bíblia com as suas Institutas e seus comentários de quase todos os livros da Bíblia, enquanto aplicava a reforma da religião cristã na cidade de Genebra. O movimento de Wyclif e Hus também foi uma descoberta da Bíblia. Graças à tradução de Wyclif, que colocou a Bíblia na língua do povo, e ao zelo ardente de Hus pela Palavra de Deus, aquele obscuro período da história da igreja não ficou sem um testemunho fiel.

Em 2 Reis lemos sobre uma ocasião de reforma na vida do povo de Israel que começou com a descoberta da Palavra de Deus. Josias começou a reinar com 8 anos de idade e agradou ao Senhor, andando nos caminhos de Davi (2Rs 22.1,2). Mas ele recebeu um reino deteriorado. Seu pai Amom e seu avô Manassés haviam maus e idólatras. Manassés levantou altares a Baal, fez um poste-ídolo e se prostrou diante dele. Chegou mesmo a colocar ídolos dentro da área do templo do Senhor. Se não bastasse, ainda queimou um de seus filhos como sacrifício aos deuses pagãos (2Rs 21.1-7). Amom, filho de Manassés, andou nos mesmos caminhos de seu pai, serviu aos ídolos e os adorou (2Rs 21.21,22). Dá para imaginar a caótica situação em que se encontrava Judá depois desses dois reis, com a idolatria dominante e o templo abandonado, semidestruído. Josias assumiu o trono e queria mudanças, mas como fazê-las? No décimo oitavo ano de seu reinado ele decidiu reformar o templo. Foi então que, pela misericórdia de Deus, encontrou no próprio templo o livro da lei, provavelmente Deuteronômio. O livro foi achado pelo sacerdote Hilquias que o entregou a Safã, escrivão, que o leu diante de Josias (2Rs 22.8-10). Aquele achado mudou completamente a história da nação. Uma poderosa reforma se estabeleceu a partir daquela descoberta.
III. Quebrantamento pessoal (2Rs 22.11,19)
Muitas pessoas ouvem a Palavra de Deus, mas parece que nada acontece em sua vida. Nenhuma diferença, nenhuma transformação, nenhum quebrantamento. Esse não foi o caso de Josias. O texto diz que, quando o escrivão Safã leu o livro perante ele, “tendo o rei ouvido as palavras do livro da lei, rasgou as suas vestes” (2Rs 22.11). Mais tarde o próprio Senhor disse de Josias: “porquanto o teu coração se enterneceu, e te humilhaste perante o Senhor, quando ouviste o que falei contra este lugar, e contra os seus moradores, que seriam para assolação e para maldição, e rasgaste as tuas vestes, e choraste perante mim, também eu te ouvi, diz o Senhor” (2Rs 22.19). Foi grande o quebrantamento pessoal de Josias ao ouvir a Palavra de Deus. Ele entendeu naquela hora toda a situação em que se encontrava a nação e o castigo iminente de Deus. Ele sabia que suas próprias mãos, por mais que se esforçasse, não eram de todo limpas. Ele entendeu sua pecaminosidade e também a do povo, e entendeu que uma enorme reforma era necessária, não só no templo, mas na vida de toda a nação. É isso o que a Palavra de Deus produz na vida dos verdadeiros crentes. Foi isso que ela produziu na vida de Lutero, Calvino, Hus e Wyclif. O quebrantamento pessoal é o primeiro passo para uma reforma. Sem reconhecimento de culpa não há como o ser humano se aproximar de Deus. Deus não abençoa o soberbo, pois duas vezes a Escritura diz que Deus “resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a sua graça” (Tg 4.6; 1Pe 5.5). E a Escritura ainda afirma: “… assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15).
IV. Renovação da Aliança (2Rs 23.1-3)
O próximo passo de Josias foi renovar a aliança da nação com Deus. Ele convocou todo o povo, subiu até a casa do Senhor, e leu diante do povo todas as palavras do livro da aliança (2Rs 23.1,2). Em seguida, “o rei fez aliança ante o Senhor, para o seguirem, guardarem os seus mandamentos, os seus testemunhos e os seus estatutos, de todo coração e de toda a alma” (2Rs 23.3). Todo o povo concordou com aquela aliança.
Esse ato do rei de fazer aliança com Deus decorreu do entendimento que veio da Escritura de que, desde os dias de Manassés, o povo havia quebrado o pacto com o Senhor. O encontro com a Palavra produz essa reafirmação de compromisso que é a segunda etapa de uma reforma autêntica.
Renovar a aliança é necessário para que voltemos a experimentar as expressões divinas de misericórdia e graça e não as de juízo. Deus não se relaciona senão por meio de sua aliança. O povo experimentava as conseqüências de haver transgredido o pacto. Todas as maldições decorrentes dessa quebra já estavam começando a vir e outras bem piores aguardavam no futuro. Mas, quando a aliança é renovada, os pecados são perdoados e a bênção retorna. Foi o que Josias aprendeu no livro redescoberto (Dt 29.1 – 30.20).
V. Reforma no culto (2Rs 23.4-23)           
Depois de renovar a aliança, Josias se lançou a uma difícil, mas importante tarefa. Reformar o culto da nação. Já vimos um pouco sobre os atos de Amom e Manassés. De fato, era caótica a situação religiosa do povo. A primeira atitude de Josias foi tirar do templo de Deus todos os utensílios profanos e os queimar fora de Jerusalém (2Rs 23.4). Esses utensílios eram impróprios para o templo. Não deviam estar ali.
Uma reforma verdadeira purifica o templo das coisas que não são lícitas. Wyclif e Hus lutaram contra o misticismo e o sacramentalismo de sua época. Para esses homens e seus discípulos, somente o que a Bíblia autorizava podia ser usado no culto a Deus. O que a Bíblia proíbe não pode ser mantido na adoração do povo de Deus.
A próxima atitude de Josias foi destituir os sacerdotes que haviam sido instituídos para queimarem incenso aos deuses (2Rs 23.5). Também tirou o abominável poste-ídolo que estava dentro da casa do Senhor e o queimou no vale do Cedron (2Rs 23.6). Uma reforma tira todos os ídolos da casa de Deus e destitui do serviço sagrado aqueles que não são dignos de estarem aí. Em seguida, Josias derrubou as casas de prostituição-cultual, que haviam sido colocadas dentro da casa do Senhor. Essas prostitutas eram tidas como sagradas e moravam dentro do templo, mantendo relações sexuais com todos os que quisessem, sendo que isso era considerado não só uma diversão, mas um ato de culto aos deuses ou deusas da fertilidade. Depois Josias começou a reformar a nação fora do templo. Profanou altos, destruiu altares, arruinou homenagens que eram dadas aos deuses e não poupou qualquer tipo de idolatria ou perversão.
A reforma do culto realizada por Josias não consistiu apenas de retirar coisas impróprias. Ele também incluiu o que era certo e que havia sido abandonado. Josias havia lido no livro da lei sobre a importância de celebrar a Páscoa ao Senhor. Então convocou todo o povo para essa celebração. Foi a maior Páscoa celebrada em Jerusalém desde que a nação havia sido estabelecida (2Rs 23.21,22). Isso significa que o culto voltou a ser bíblico e fervoroso, de acordo com a vontade do Senhor.
Uma reforma produz esse tipo de mudança. Tudo o que não é próprio é retirado. É hora de ser radical. Mesmo que muitos gostem. Aliás, o objetivo máximo do culto não é agradar o povo, mas o Senhor. Mas, não basta retirar o que está errado. É preciso também acrescentar os elementos bíblicos ausentes. Uma das principais lutas de Jan Hus foi com relação à Ceia do Senhor. Hus e seus seguidores insistiam em administrar o cálice de vinho ao povo e não somente aos sacerdotes, como já era prática na igreja romana.
VI. Reforma na vida (2Rs 23.24,25)
Josias preocupou-se também em mudar a vida do povo. Tirou os ídolos do templo e também das casas (2Rs 23.24). Isso é fundamental numa reforma religiosa. Não adianta mudar apenas a instituição religiosa se a prática cotidiana permanece corrompida. Sabiamente, Josias aboliu os feiticeiros, os médiuns, e todos os ídolos que se viam na terra de Judá.
Mas, certamente o maior exemplo de mudança foi ele próprio, de quem se diz que “antes dele não houve rei que lhe fosse semelhante, que se convertesse ao Senhor de todo o seu coração, e de toda a sua alma, e de todas as suas forças, segundo toda a lei de Moisés; e depois dele nunca se levantou outro igual” (2Rs 23.25). Todos os aspectos da vida foram afetados pela conversão e pela Palavra. Não foi um crente só de aparência. Verdadeiramente viveu a Palavra, mudou externa e internamente. Wyclif, Hus e Josias são exemplos do que o encontro com a Palavra de Deus produz. Hus teve coragem de até morrer por sua fé, pois sabia que não estava defendendo preceitos ou tradições dos homens, mas a pura e verdadeira Palavra de Deus. 
Conclusão
Toda Reforma verdadeira começa com a descoberta da Palavra de Deus e prossegue de acordo com a fidelidade a essa Palavra. Isso ficou bem claro no caso de Josias, e pode ser visto também na Reforma Protestaste, e como vimos, antes mesmo, nos chamados pré-reformadores John Wyclif e John Hus. O respeito desses homens à Escritura, bem como o desejo de que ela fosse acessível a todos os homens é uma das mais importantes marcas da obra deles. Precisamos de reforma hoje também, mas ela precisa começar pela Palavra de Deus, pois somente assim, teremos a garantia de que será bem sucedida.
Aplicação
Que efeitos a Palavra de Deus tem produzido na sua vida? Será que, o ouvir, domingo após domingo a Palavra tem feito de você um crente mais fiel? O que você pode fazer para que uma reforma também aconteça na sua vida e na vida da sua igreja?

***

[3] Nos dias de Hus ocorreu uma crise de autoridade na Igreja Católica. Em 1305, sob pressão do rei da França, a sede do papado foi transferida de Roma para Avignon, na França, onde permaneceu por 70 anos (Esse período é chamado de Cativeiro Babilônico do papado.). Em 1376 o papa retornou para Roma. Mas logo depois ele morreu e os cardeais, franceses na maioria, estavam dispostos a eleger um papa francês. O povo de Roma se opôs, temendo que um papa francês reconduzisse a sede do papado para a França. Os cardeais, então, elegeram um papa italiano, mas os delegados da França reuniram-se em outro lugar e elegeram um papa francês, alegando que a primeira eleição fora inválida. Assim passou a haver dois (depois três) papas. O Concílio de Constança foi convocado para resolver o impasse. Um dos papas reconheceu os poderes do Concílio e abdicou. O Concílio proclamou que sempre tinha havido um só papa verdadeiro, depôs os outros dois e elegeu um novo para, encerrando assim o que passou à História como “O Grande Cisma”. Como Hus ensinava que o papado não provinha de Deus, sua posição não podia ser nem de longe tolerada. Acusado de heresia, foi queimado em julho de 1415.

[4] Os seguidores de Hus tornaram-se conhecidos como Irmandade Tchecae mais tarde como Os Moravianos. A Igreja Morávia sobrevive até hoje. No século 16 exerceu considerável influência sobre o movimento luterano. Após Lutero haver afixado as suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, cartoons e graffti passaram a sugerir que ele era herdeiro espiritual de Hus.

Fonte: Ultimato